
2. ROMEU CORREIA, O PUGILISTA DAS MÃOS DE OIRO
Improvável que o nome de Romeu Correia seja alheio a qualquer habitante da cidade de Almada. Nome de rua, nome de um esplêndido fórum municipal e também de uma escola secundária na freguesia de Feijó.
Unanimidade inalcansável caso se perguntasse aos mesmos habitantes quem foi este homem, o que terá feito para merecer tão expressiva presença onomástica.
E nem arrisco uma estimativa em relação aos almadenses que tenham lido pelo menos uma das mais de três dezenas de obras do seu celebrado conterrâneo.

A minha relação de amizade com Romeu Correia nasceu no início dos anos 60, numa circunstância profissional.
Ele acabara de ser distinguido com um dos mais prestigiosos galardões da época – o então denominado "Óscar" atribuído pela Casa da Imprensa – e acedeu a ser entrevistado pelo muito jovem repórter que eu era. Marcou-se o encontro para uma conhecida pastelaria da Rua do Ouro, planeando-se que no final iríamos até ao Terreiro do Paço a fim de o repórter-fotográfico do jornal, Salvador Ribeiro, realizar uma sessão tendo o Tejo como cenário. Aconteceu porém que esse colega foi "desviado" para um serviço urgente e vi-me, finda a entrevista, sem "boneco", como se dizia na gíria dos jornais.
Perguntei então a Romeu Correia se teria uma boa foto que pudesse dispensar-me para ilustrar a peça. Logo, prazenteiro, rapa da carteira uma imagem, formato quase postal, que me deixou boquiaberto: era ele, em calções de banho, na praia, pose atlética!
Estou em crer que hoje não suscitaria espanto de maior uma entrevista com um escritor apresentando-o em calções de banho (quantas coisas mais insólitas tenho visto!) mas não duvido que há 50 anos um tal atrevimento se converteria em escândalo nacional.
O óbice jornalístico foi ultrapassado e a entrevista publicada com o devido decoro, mas o episódio persiste na minha memória como especialmente significativo da personalidade
sui generis de Romeu Correia: um homem dividido entre a criação literária e a paixão pelo atletismo.
Era quase impossível, como testemunhei durante décadas, manter uma "conversa literária" com ele. Ao cabo de poucos minutos éramos surprendidos com um aparte do género: «... Isso faz-me lembrar o último combate que tive com fulano, o tipo era muito duro, venci-o, mas com dificuldade, devo reconhecer...». E não mais parava. O pugilista batia o escritor por K.O. ao primeiro assalto e tornava-se o senhor soberano do ringue, ou seja, da conversa.
No princípio do nosso relacionamento, contava ele mais de 40 anos, já havia deixado a alta competição. Chegou a ser campeão nacional de boxe amador, nome de cartaz nos recintos da modalidade e abrilhantava amiúde as primeiras páginas da imprensa desportiva.
O atletismo representava o seu mundo, tanto que casar-se-ia com uma colega atleta, a Almerinda, também campeã. Nos intervalos escrevia contos, romances e peças de teatro que as editoras recusavam.

Um dia saudei-o ao telefone com um «olá, pugilista!». Notei ter-lhe agradado a expressão, continuei a tratá-lo desse modo. Quando publicou a biografia de Francisco Stromp, lendário paladino do ideal desportivo, fiz uma recensão na qual lhe chamava "o pugilista das mãos de oiro" numa alegoria à mais famosa das suas peças, a farsa trágica
O Vagabundo das Mãos de Oiro, um dos maiores êxitos de sempre do teatro português, cujo manuscrito, confidenciou-me, foi rejeitado sucessivamente por quantas editoras existiam no País.
Recorreu então às suas economias e empreendeu uma edição de autor, com tiragem reduzidíssima, agora valiosa raridade bibliográfica.
A partir de uma determinada fase, os amigos começaram a notar-lhe uma gradual transfiguração: o rosto fechado numa opressiva amargura, queixumes morosos, permanentes. Depauperado da antiga força física, Romeu ia desvivendo na nostalgia da pujança e das glórias de outrora.
O padrão atlético, irremovível da sua maneira de ser, desfigurara-se de forma para ele insuportável. E lamuriava-se.
Quando nos avistávamos, temia que a qualquer instante repetisse o gesto do primeiro encontro, sacando da carteira a foto-testemunho do atleta em calções de banho, para que eu visse e confirmasse os tempos idos.
Num dia infeliz, beirando o fim, fui ao Chiado participar na sessão de lançamento de um livro na galeria de arte adstrita à antiga livraria do
Diário de Notícias.
Já o evento ia a meio, apareceu Romeu Correia. Logo reparei que a mágoa da decadência persistia nos seus passos, no seu olhar.
Terminada a sessão, eu e Baptista-Bastos (outro dos seus amigos de longa data) entabulámos com ele, num recanto da galeria, uma conversa brincalhona.
Mas Romeu, desinteressado de tudo, dele próprio, apenas desfiava, com enorme crueza, lúgubres episódios («misérias humanas», nas suas palavras) que pertenciam ao território muito íntimo do seu corpo.
Sofri naquele fim de tarde ao ver o meu "pugilista das mãos de oiro" – campeão de primeira página – de braços caídos, sombrio, perdido, vencido – autor e actor da peça derradeira da vida, um drama.
Assim aconteceu a despedida.

A SEGUIR (conclusão):
AUGUSTO CABRITA, O REPÓRTER DO SILÊNCIO
Pedro Foyos
Jornalista
Nota: Uma saudação especial a Henrique Tigo, que reagiu à minha última crónica de uma forma inesperadamente comovente.
Ignorava que o autor da caricatura de Raul Rêgo era filho de H. Mourato, um artista extraordinário que conheci na redacção do diário “República”, onde ao tempo eu trabalhava.
Posso agora revelar que seu Pai muito se envaidecia do filho Henrique por considerar que «começava a manifestar um grande talento artístico.»
Pois bem: o trabalho gráfico reproduzido aqui no “Galo” comprova que a vaidade era justificada…