segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Sarah Small - Retratos de Família(s)

Tendo nascido numa família de músicos, Sarah iniciou-se na arte Fotográfica quando ainda era Small ( não resisti ao trocadilho) num atelier realizado no seu campo de férias.

Depois, sempre equipada com a sua Pentax K1000, Sarah Small percorreu, durante a adolescência, as ruas da sua cidade natal, Washington, fotografando os sem abrigo e todo o tipo de dramas humanos, frequentes nas ruas das grandes cidades.

Graduada pela Rhode Island School of Design, Sarah mudou-se para Brooklyn, Nova Iorque, onde dá aulas de Laboratório.

Em simultâneo, vai criando os seus espantosos retratos nos quais mistura situações díspares com resultados, no mínimo, insólitos e inesperados.

O uso de crianças e idosos, é uma constante na sua obra, para além da tentativa de congelar,"freeze", o movimento.

Com inumeros prémios ganhos, Sarah Small foi, recentemente, escolhida como um dos " Top 13 Emerging Photographers" da actualidade.

Sem mais palavras, aqui ficam algumas das suas imagens, que não vão deixar ninguém indiferente...












Uma última curiosidade - Sarah Small, fotografa-se, em Polaroid, diariamente e diz que pretende continuar esse trabalho, durante toda a sua vida...

Motel de alta rotatividade

32

Olhando o espelho do tecto, enquanto trincava o seu habitual talo de
aipo, Teo Santana perguntava-se se aquilo seria, ou não, um sonho.
Um sonho, tornado realidade.
Olhou, mais uma vez, a figura escultural deitada ao seu lado
e que os lençóis de cetim mostravam mais do que cobriam.
Gabriela, de bruços, com o cabelo em cascata sobre a almofada,
aparentava uma tranquilidade feliz, que contratava
com a intensidade violenta, quase animalesca,
demonstrada na noite anterior.

Tudo começara no Diagonal, quando o jantar se aproximava do fim.
A conversa incidira sobre os Crimes do Galo, com o relato
de pormenores macabros que excitaram nitidamente Gabriela
e esta, em poucos minutos,
despejara três caipirinhas, bem servidas.
O álcool, potenciado pelo sangue das narrativas
e pela sexualidade latente dos crimes, fez o resto…

À saída do restaurante, dirigiram-se para o ponto de taxis,
que existe nesse mesmo quarteirão e, quando Teo pensou que
a sua “patroa” iria indicar o Copacabana Palace, como destino,
esta dirigiu-se ao motorista, com voz rouca
“É para o VIP’s…”.
Teo ainda se lembrava da explicação dada pelo outro taxista,
no dia da perseguição infrutífera até à Barra.
O VIP’s é um dos Móteis mais antigos do Rio e o que fica mais perto
da Zona Sul, em plena Avenida Niemyer.
O motorista, esse, nem pestanejou,
habituado a todos os cenários improváveis da noite carioca.

Os Motéis brasileiros não têm nada a ver
com os seus congéneres da América do Norte,
onde o conceito, inicial e puritano, terá surgido.
Nos Estados Unidos os motéis são, principalmente, um ponto
de paragem, barato e sem grandes requintes ou conforto,
onde os automobilistas fazem as suas interrupções, para descanso,
das longas viagens que separam muitas das cidades ianques.
Ocasionalmente, os móteis são também utilizados para
os encontros fortúitos de casais temporários
ou episódicos one night stands.
No Brasil, e, ainda, mais no Rio, os Móteis sofreram um upgrade,
que deveria provocar a sua nomeação como Património Mundial.
Passo a pormenorizar.
O móteis têm uma entrada para carros em que,
sem sair do mesmo, se recebe uma chave numerada.
Esse número indica uma garagem com porta de correr,
onde o carro fica escondido de olhares indiscretos.
Desse espaço sobe-se, por uma escada interior,
para um pequeno vestíbulo que dá acesso ao quarto,
e a uma outra porta para um corredor central de todo o edifício.
Os quartos são apetrechados com o que de mais sofisticado
e kitsch se inventou nesta área,
espelhos nos tectos e nas paredes, cama redonda, vibratória
e, muitas vezes, com colchão de água, vídeos eróticos,
jacuzzi e luzes vermelhas.
Se se desejar pedir uma ceia ou uma garrafa de champagne,
basta telefonar para a recepção e um empregado,
através o tal corredor central, deixará a encomenda no vestíbulo.
O pagamento é feito através do mesmo processo, tudo sem que
o casal, o trio ou a combinação que for, seja visto por alguém.

Era em tudo isto que Teo pensava,
quando se ouviram fortes pancadas na porta do quarto…

Learn Something Everyday

Polaroid is Back

O aparecimento das máquinas fotográficas digitais, levou à falência a Polaroid, cuja licença foi agora vendida, por cerca de 70 milhões de euros ao Summit Global Group.

Está prevista, contudo, a chegada às lojas, em 2010, de novos modelos Polaroid, analógicos e digitais, para além de películas que possam ser utilizados, também, nos modelos antigos.

Enquanto que a produção de máquinas caberá ao Summit Global Group, será a compnhia Impossible Project a desenvolver o fabrico das películas.

Uma boa notícia para todos os saudosistas da marca, entre os quais eu me incluo.
Agora, só tenho é que descobrir onde parará a minha Polaroid velhinha...

Semente

domingo, 1 de novembro de 2009

Sodade(s) de Cabo Verde - 1


ILHA DE SANTIAGO

PORTO MADEIRA

Por alguma razão Cabo Verde é o único país do mundo onde um poema de amor - Morna Aguada, de Eugénio Tavares - ilustra uma nota de banco.

Esse amor pela Arte, que sentimos em imensas manifestações do quotidiano da gente de Cabo Verde, encontra-se connosco na pequena aldeia de Porto Madeira, um aglomerado de casinhas rurais, com menos de quinhentos habitantes, e a uns escassos vinte minutos da cidade da Praia, encarrapitada no Monte Bidela, onde se chega por uma estrada(?) de pó, solavanco à esquerda e à direita, debaixo de um sol abrasador, sem uma ponta de aragem.
Mas vale a pena.

À entrada da aldeia, uma placa descreve-nos o Projecto artístico e cultural de transformar Porto Madeira num local de turismo rural e ecológico.
A ideia de organizar um Encontro Transatlântico de Artes Plásticas, em Agosto de 2008, nasceu há cerca de cinco anos, pela mão de Maria Isabel Alves - Misá - filha da aldeia e que a ela regressou, para a transformar.



















Ao longo do imenso milheiral, de espigas ainda não colhidas, surgiram casas, telhados, muros e placas pintados, tanques, chafarizes, depósitos de água, uma casa de banho comunitária, um pequeno Museu e a promessa da luz eléctrica, pelo menos algumas horas por dia...


O lixo que cobria os caminhos e os montes à volta da aldeia foi transformado e reciclado, a madeira aproveitada, as latas de Coca-Cola e de Fanta passaram a enfeitar as árvores, um velho carro abandonado encontrou o seu lugar numa "instalação" no meio do milho, e até os chinelos velhos encontraram, também, o seu lugar...
















Para além de nos darem isto, as pessoas de Porto Madeira dão-nos muito mais.Dão-se a elas próprias numa ingenuidade enternecedora, sorriem-nos - conversa fácil em crioulo que, às vezes, não entendo totalmente... - querem ser fotografadas, querem mostrar-nos os filhos, sobretudo quando são "machos", e ainda não emigraram...
Gostam de nós.
A Arte abriu-lhes um mundo que não conheciam e que lhes há-de trazer, também, uma Escola de Arte e uma vida melhor.
A Misá prometeu!
Porque o "Galo" gosta de Arte, quis deixar aqui esta "Sodade"!
Além do mais, e porque as coincidências existem, as tintas que cobrem as casas e as placas de madeira, foram oferecidas, generosamente, por um Amigo do "Galo"...
Contessa

Serge Birault - Um desconhecido Ilustre

A sua juventude e a recente entrada no mundo da Ilustração, não deixam que Serge Birault seja já um nome consagrado.










Porém, o seu tratamento do claro/escuro, a ambiência sombria dos seus cenários, o extremo cuidado dos pormenores e uma iluminação muito perto da perfeição, reservam-lhe, desde já, um lugar garantido no Olimpo dos Desenhadores.










Pamela Bouguereau, Sashimi's Revenge
e Welcome to Bali são os títulos
das três ilustrações escalpelizadas, que hoje aqui deixamos.






















Se gostarem,
temos mais!!!


Cemitério dos Cães de Guerra (EUA)

O cão vivo da foto interrogar-se-á sobre o que estará a fazer ali um cão de pedra sobre uma pedra.
Que mau gosto! Que desconforto!
É muito possível que pressinta estarem no local, sob a terra, seres da sua espécie, porventura velhos companheiros de infância.
O que ele não compreenderá é porque morreram.
E nós? Compreendemos?

Pedro Foyos

Sopa de Courgettes, Arroz e Manjericão.

Agora, que já vai arrefecendo para a noite, uma sopa bem quente, sabe que nem anjos...
Esta, inspirada numa receita da Fer Guimarães Rosa, mas com algumas alterações adicionais, tem feito sucesso. E é fácil, muito fácil mesmo.

Sopa de Courgettes,
Arroz e Manjericão

( 4 pessoas)

500grs de Courgettes
2 col. de sopa de Arroz
3 col. de sopa de Azeite
1 Cebola picada
Pimenta q.b.
1/2 litros de Caldo de Legumes (1 cubo)
1 chávena de folhas de Manjericão
2 col. de sopa de Limão
Queijo fresco de Cabra

Rale a Courgette e coloque numa panela grande com 1 chávena de Água, Sal a gosto e o Arroz cru.
Deixe ferver, baixe o lume, tape a panela e deixe cozinhar durante 30 minutos.
Enquanto isso refogue a Cebola, numa frigideira, com 1,5 col. de Azeite e uma pitada de Sal, em lume baixo até ficar "melada" ( como dizem nos Açores). Junte na panela.
Acrescente a Pimenta, o Caldo de Legumes , o Manjericão e deixe cozinhar uns minutos.
Bata com a varinha, mas não demasiado.
Eu, pessoalmente, gosto de sentir as diversas texturas.
Na altura de servir, junte o Sumo de Limão , o resto do Azeite, corrija os temperos e sirva sobre o Queijo, cortado em cubos pequenos.

Vão querer repetir, palavra de Especialista...

Chef Giovanni Francesco

Curioso número...

Zombieland

Desde o Thriller, ficaram apaixonados por Zombies? Pois agora têm oportunidade de os rever em Zombieland, sério candidato a "Pior Filme do Ano"...

A Portucel, o "papel" e o Empresário

Negócios de José Godinho
com ligações a uma teia
de pelo menos 14 empresas

O empresário de Ovar, Manuel José Godinho
- que até ao momento é o único detido
no âmbito na operação Face Oculta
- está ligado a uma verdadeira teia de empresas.
Mais de uma dúzia de companhias,
relacionadas umas com as outras, em trocas de capital,
são detidas por si e pela sua família.
Uma tem sede na zona franca da Madeira.

Jornal de Negócios

Entretanto a Portucel, conhecida empresa líder no ramo do papel já veio dizer que o seu papel em relação a este caso é da mais absoluta transparência...

Análise do "Galo": Uma empresa especializada no negócio do papel, vir, a público, dizer que o seu papel é da mais absoluta transparência, não nos parece bem...
Todos sabemos que o papel transparente não é da melhor qualidade, a não ser o vegetal, e que é sempre preferível um papel mais encorpado.
A não ser que o negócio entre eles, Empresa e Empresário, fosse mesmo de "papel"...

Peixe favorito

João e Joana - Cordel de Carlos Drummond de Andrade

Meu leitor, o sucedido
em Lajes do Caldeirão
é caso de muito ensino,
merecedor de atenção.
Por isso é que me apresento
fazendo esta relação.
Vivia em dito arraial
do país das Alagoas
um rapaz chamado João
cuja força era das boas
pra sujigar burro bravo,
tigres, onças e leoas.
João, lhe deram este nome
não foi de letra em cartório
pois sua mãe e seu pai
viviam de peditório.
Gente assim do miserê
nunca soube o que é casório.
Ficou sendo João, pois esse
é nome de qualquer um.
Não carece excogitar,
pedir a doutor nenhum,
que a sentença vem do Céu,
não de lá do Barzabum.
De pequeno ficou órfão,
criado por seus dois manos.
Foi logo para o trabalho
com muitos outros fulanos
e seu muque, sem mentira,
era o de três otomanos.

Na enxada, quem que vencia
aquele tico de gente.
No boteco, se ele entrava
pra bochechar aguardente,
o saudavam com respeito
Deus lhe salve, meu parente.
João moço não enjeitava
parada com sertanejo.
Podiam brincar com ele
sem carregar no gracejo.
Dizia que homem covarde
não é cabra, é percevejo.
Um dia de calor desses
que tacam fogo no agreste,
João suava que suava
sem despir a sua veste.
Companheiro, essa camisa
não é coisa que moleste?
lhe perguntou um amigo
que estava de peito nu.
E João se calado estava
nem deu pio de nambu.
Ninguém nunca viu seu pêlo,
nem por trás do murundu.
João era muito avexado
na hora de tomar banho.
Punha tranca no barraco
fugindo a qualquer estranho.
Em Lajes nenhum varão
tinha recato tamanho.
João nas últimas semanas
entrou a sofrer de inchaço.
Mesmo assim arranca toco
sem se carpir de cansaço.
Um dia, não güenta mais,
exclama: O que é que eu faço?
Os manos vendo naquilo
coisa mei' desimportante,
logo receitam de araque
meizinha sem variante
para qualquer macacoa:
Carece tomar purgante.
João entrou no purgativo
louco de dor e de medo
se entorcendo e contorcendo
na solidão do arvoredo
pois ele em sua aflição
lá se escondera bem cedo.
O gemido que exalava
do peito de João sozinho
alertou os seus dois manos
que foram ver de mansinho
como é que aquele bravo
se tornara tão fraquinho.
No chão de terra, essa terra
que a todos nós vai comer,
chorava uma criancinha
acabada de nascer,
E João, de peito desnudo,
acarinhava este ser.
Aquela cena imprevista
causou a maior surpresa.
O que tanto se ocultara
se mostrava sem defesa.
João deixara de ser João
por força da natureza.
A mulher surgia nele
ao mesmo tempo que o filho,
tal qual se brotassem junto
a espiga com o pé de milho,
ou como bala que estoura
sem se puxar o gatilho.
Se os manos levaram susto,
até eu, que apenas conto.
E o povo todo, assuntando
a estória ponto por ponto,
ficou em breve inteirado
do que aí vai sem desconto.
Nem menino nem menina
era João quando nasceu.
A mãe, sem saber ao certo,
o nome de João lhe deu,
dizendo: Vai vestir calça
e não saia que nem eu.
À proporção que crescia
feito animal na campina,
em João foi-se acentuando
a condição feminina,
mas ele jamais quis ser
tratado feito menina.
Pois nesse triste povoado
e cem léguas ao redor,
ser homem não é vantagem
mas ser mulher é pior.
Quem vê claro já conclui:
de dois males o menor.
Homem é grão de poeira
na estrada sem horizonte;
mulher nem chega a ser isso
e tem de baixar a fronte
ante as ruindades da vida,
de altura maior que um monte.
A sorte, se presenteia
a todos doença e fome,
para as mulheres capricha
num privilégio sem nome.
Colhe miséria maior
e diz à coitada: Tome.
É forma de escravidão
a infinita pobreza,
mas duas vezes escrava
é a mulher com certeza,
pois escrava de um escravo
pode haver maior dureza?
Por isso aquela mocinha
fez tudo para iludir
aos outros e ao seu destino.
Mas rola não é tapir
e chega lá um momento
da natureza explodir.
João vira Joana: acontecem
dessas coisas sem preceito.
No seu colo está Joãozinho
mamando leite de peito.
Pelo menos esse aqui
de ser homem tem direito.
De ser homem: de escolher
o seu próprio sofrimento
e de escrever com peixeira
a lei do seu mandamento
quando à falta de outra lei
ou eu fujo ou arrebento.
Joana desiste de tudo
que ganhara por mentira.
Sabe que agora lhe resta
apenas do saco a embira.
E nem mesmo lhe aproveita
esta minha pobre lira.
Saibam quantos deste caso
houverem ciência, que a vida
não anda, em favor e graça,
igualmente repartida,
e que dor ensombra a falta
de amor, de paz e comida.
Meu leitor (não eleitor,
que eu nada te peço a ti
senão me ler com paciência
de Minas ao Piauí):
tendo contado meu conto,
adeus, me despeço aqui.

Este cordel musical de autoria de Carlos Drummond de Andrade e Sérgio Ricardo,
foi gravado no Estúdio Transamérica - Rio de Janeiro,
em fevereiro, março e abril de 1985, com voz e arranjo de Sérgio Ricardo,
orquestração de Radamés Gnattali e regência de Alexandre Gnattali.
Foi extraído do livro "Carlos Drummond de Andrade - Poesia Completa",
Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 2002, pág. 617.

Nota do "Galo" - Cordel, Estória de Cordel ou Canção de Cordel é uma tradição brasileira, principalmente no Nordeste, onde músicos populares andam de terra em terra cantando/contando estas estórias de fazer chorar as pedras da calçada.Vendem depois ao seu público, em lágrimas, uns livrinhos policopiados com ilustrações, também elas ingénuas, gravadas em linóleo. Estórias de amor, traição, luta, do cangaço ( com destaque para o Lampião), mas também de sexo ou humor desbragado. Uma tradição popular que muitos "eruditos", veja-se aqui o caso de Carlos Drummond de Andrade, acarinharam e protegeram.