32Olhando o espelho do tecto, enquanto trincava o seu habitual talo de
aipo, Teo Santana perguntava-se se aquilo seria, ou não, um sonho.
Um sonho, tornado realidade.
Olhou, mais uma vez, a figura escultural deitada ao seu lado
e que os lençóis de cetim mostravam mais do que cobriam.
Gabriela, de bruços, com o cabelo em cascata sobre a almofada,
aparentava uma tranquilidade feliz, que contratava
com a intensidade violenta, quase animalesca,
demonstrada na noite anterior.
Tudo começara no
Diagonal, quando o jantar se aproximava do fim.
A conversa incidira sobre os Crimes do Galo, com o relato
de pormenores macabros que excitaram nitidamente Gabriela
e esta, em poucos minutos,
despejara três caipirinhas, bem servidas.
O álcool, potenciado pelo sangue das narrativas
e pela sexualidade latente dos crimes, fez o resto…
À saída do restaurante, dirigiram-se para o ponto de taxis,
que existe nesse mesmo quarteirão e, quando Teo pensou que
a sua “patroa” iria indicar o Copacabana Palace, como destino,
esta dirigiu-se ao motorista, com voz rouca
“É para o VIP’s…”.
Teo ainda se lembrava da explicação dada pelo outro taxista,
no dia da perseguição infrutífera até à Barra.
O VIP’s é um dos Móteis mais antigos do Rio e o que fica mais perto
da Zona Sul, em plena Avenida Niemyer.
O motorista, esse, nem pestanejou,
habituado a todos os cenários improváveis da noite carioca.
Os Motéis brasileiros não têm nada a ver
com os seus congéneres da América do Norte,
onde o conceito, inicial e puritano, terá surgido.
Nos Estados Unidos os motéis são, principalmente, um ponto
de paragem, barato e sem grandes requintes ou conforto,
onde os automobilistas fazem as suas interrupções, para descanso,
das longas viagens que separam muitas das cidades ianques.
Ocasionalmente, os móteis são também utilizados para
os encontros fortúitos de casais temporários
ou episódicos
one night stands.
No Brasil, e, ainda, mais no Rio, os Móteis sofreram um
upgrade,
que deveria provocar a sua nomeação como Património Mundial.
Passo a pormenorizar.
O móteis têm uma entrada para carros em que,
sem sair do mesmo, se recebe uma chave numerada.
Esse número indica uma garagem com porta de correr,
onde o carro fica escondido de olhares indiscretos.
Desse espaço sobe-se, por uma escada interior,
para um pequeno vestíbulo que dá acesso ao quarto,
e a uma outra porta para um corredor central de todo o edifício.
Os quartos são apetrechados com o que de mais sofisticado
e
kitsch se inventou nesta área,
espelhos nos tectos e nas paredes, cama redonda, vibratória
e, muitas vezes, com colchão de água, vídeos eróticos,
jacuzzi e luzes vermelhas.
Se se desejar pedir uma ceia ou uma garrafa de champagne,
basta telefonar para a recepção e um empregado,
através o tal corredor central, deixará a encomenda no vestíbulo.
O pagamento é feito através do mesmo processo, tudo sem que
o casal, o trio ou a combinação que for, seja visto por alguém.
Era em tudo isto que Teo pensava,
quando se ouviram fortes pancadas na porta do quarto…