terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Parque Mayer, Símbolo da Decadência de Lisboa

Acredito que, para aqueles que não forem lisboetas, do sexo masculino e não tiverem mais que 50 anos, este post não tenha qualquer significado...
Mas posso dizer-vos que atravessar aquele portão, ladeado pelas bilheteiras, tinha sempre um cheirinho a pecado, e a algo proibido.
Comecei a ir ao Parque, pelos meus doze/treze anos com os meus amigos para a vida de então, o Caeiro e o Pinho (...que já não vejo há quarenta e tantos anos), no geral aos sábados à tarde, para jogarmos ping pong e matrecos.
Durante o dia a entrada era gratúita, mas à noite, ou tinha-se bilhete para um espectáculo ou pagava-se para entrar naquele antro de perdição que, com os neons ganhava contornos de Broadway à Portuguesa.
E era mesmo à portuguesa, porque já naquela altura, a decadência, o estilo abarracado, o ar atascado dos restaurantes, fazia prever um crepúsculo modesto.
Mas o jovem, quase menino, que eu era, não sonhava sequer vir a ver algum dia a outra Broadway, e olhava embasbacado os grandes cartazes, as roliças coristas que passavam apressadas, ou uma qualquer star que flanasse pelas esplanadas, Tony de Matos, José Viana, Irene Isidro, eram algumas delas.

Os Restaurantes, na altura, não me chamavam a atenção porque os tostões eram parcos e destinados
aos mencionados jogos ou, num dia de maior abastança,
a uma fartura com canela, do Valente das Fraturas,
onde Hermínia Silva se estreou como fadista.
Lá mais para cima ficavam as barracas dos tirinhos
com umas decadentes balzaquianas tentando aliciar-nos
ao som duns tentadores Ó simpático, vai um tirinho?!??
E nós muito envergonhados, lá passávamos
com o coração em sobressalto,
para darmos uma outra volta ao recinto,
e passarmos de novo frente a elas,
para tudo recomeçar, Ó simpático...







Mais tarde, muito mais tarde viria a frequentar O Chico Carreira, junto ao ringue do box, onde o Belarmino chegou a lutar, o Tricas com a actriz Maria José na cozinha, propriedade dos seus dois filhos, a Rita Ribeiro, filha do Curado Ribeiro, e o Tó Semedo, filho do Artur Semedo, que fazia a voz do ToppoGiggio.
Havia outro restaurante de que não me lembro o nome, e onde só comi uma vez, com o meu cunhado Fernando Balsinha, uma Lampreia à Minhota, que ele adorava particularmente.
À Manecas, um dos poucos sobreviventes continuei a ir, até aos nossos dias...


Antes de entrarmos no Show Bizz, razão principal da existência do Parque, não me posso esquecer da Fotografia Lusitânia e da sua rival Foto Lux, do Guarda Roupa Paivas e do Anahory, das cervejarias e, muito importante, de um homem que logo à entrada, num quiosque, apregoava ...Um autêntico Saldo de Livros!!!
Foi com ele que iniciei a minha incipiente biblioteca, com verdadeiros achados, como foi o caso de toda a colecção do Almanaque.





Os Teatros eram vários, o Capitólio, onde no Verão
se podiam ver filmes, na esplanada do terraço,
o ABC, o Maria Vitória, o Variedades.
Por estes palcos passaram a grande Amália Rodrigues, Vasco Santana, Ivone Silva, António Silva,
Milú, Eugénio Salvador, mas também a
Companhia de Amélia Rey Colaço,
após o incêndio do Teatro Avenida.
Também foi aqui que se apresentou ao vivo e a cores, pla primeira vez, a estrela espanhola Sarita Montiel.

O esquema das Revistas não variava muito - existia um compére , Solnado, Salvador, Humberto Madeira, que com o apoio de umas sempre exuberantes, e pouco vestidas, chefes de quadro, fazia as ligações entre os diversos números; as já faladas coristas de coxa larga, e curvas pronunciadas, a fazerem olhinhos para os espectadores da primeira fila da plateia onde se sentavam os latifundiários alentejanos ou os industriais nortenhos, que investiam nos seus encantos; os actores ditos sérios, como por exemplo o José de Castro, que tinham sempre um quadro dramático, com declamação forte e que metesse guerra, pobreza, fome, injustiça ou similares; uma fadista de voz potente e farta cabeleira; uns boys efeminados, péssimos bailarinos; cenários imponentes e sempre criativos, de papelão; um guarda roupa reciclado, mas com forte colorido e um Grand Final com a Companhia toda no palco, a agrdecer os aplausos.








As sessões eram duas, uma começava pelas oito e muitos e a outra, dos noctívagos, pelas onze e tal...e terminava-se a beber umas cervejolas no Ribadouro( que já faz parte do Grupo Portugália) tentando descodificar algumas das graçolas políticas, que muitas vezes não perdoavam sequer o Salazar, mas que não podiam ser muito óbvias para não chocarem a Censura.













Depois o Parque foi-se degradando, os espectáculos ao perderem
os autores e artistas de qualidade, refugiaram-se na ordinarice e no humor brejeiro e vulgar,
a qualidade do público seguiu a mesma orientação,
restaurantes fecharam, a sujidade de todos os tipos
invadiu as já precárias intalações, um pouco como o que ia acontecendo por toda a cidade.



E então, à boa maneira portuguesa, começaram a surgir os Projectos - um subdotado, mas com manias de grandeza, sugeriu o nome de Frank Ghery para um espaço pequeno e enclausurado entre um Hotel, um Consulado e um Jardim.
Gastou-se uma fortuna no Projecto ficou tudo em águas de bacalhau...
Um sobredotado, desculpa EPC, sugeriu que se seguisse o exemplo parisiense do Marais.
Para quem não saiba, o Marais é um quartier
de Paris muito maior que o Bairro Alto,
com dezenas de Ruas, Lojas de todos os tipos, Restaurantes, Galerias de arte, Praças, eu sei lá...
Claro está que este Projecto também não seguiu para a frente mas, pelo menos neste caso, não se delapidou o erário público.
E entretanto o Parque Mayer lá está, sujo, deprimente, feio e sem esperança, como quase tudo neste País.









Sem qualquer custo adicional,
o "Galo" deixa aqui o seu Projecto:
- 1 Hotel de Charme, cada quarto criado por um designer português.
Esse Hotel terá um Restaurante Gourmet orientado por um dos jovens chefs de sucesso.
- 1 Sala de Espectáculos polivalente, para Teatro, Musicais, Dança e outras actividades.
- Galerias de Arte e Ateliers para Artistas, de várias áreas.
- Restaurantes temáticos, com suschi, italiano, nova cozinha portuguesa, mas também alguma fast food, bares, cervejarias, a serem rentabilizados durante o dia com os visitantes mas, também, com os empregados dos escritórios e bancos, da zona.
- 1 Loja Museu para venda de souvenirs relativos aos Espectáculos, às Artes e aos Artistas.
- 1 Livraria tipo Taschen ou mini Fnac
- 1 Pista de Patinagem, Gelo no Inverno, Normal no Verão
...et voilá, está apresentado o novo Central Parque Mayer!!!

Lost in Translation (Apêndice 1)

Hoje de madrugada, no meio de uma insónia terrível, vi de novo o Lost in Translation ( ver post já colocado anteriormente) num qualquer canal de Cinema, por cabo.
Talvez porque a minha situação, de não conseguir dormir, me tenha ajudado a identificar com os protagonistas, ou, então, porque é um Filme de que se gosta cada vez mais... a verdade é que dei por mim a agradecer o estar acordado às quatro da manhã, para ver alguns dos silêncios mais preenchidos e os curtos diálogos mais inteligentes, que alguma vez escutei.
Como é costume nestes casos, devem repetir a passagem do Filme noutros horários, nos próximos dias. Se puder, aprecie-o num canal perto de si, vai ver que não perde nada com a tradução...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Louis Armstrong&Danny Kaye

Uma Dupla da Pesada...

The Last Movie Star

Não sei se George Clooney será um grande Actor, penso até que não, mas que tem o charme, o glamour e o carisma das antigas Movie Stars de Hollywood, lá isso tem...
E além disso o "Galo" não pode ter só louraças ou morenas, um grisalho também fica bem, de tempos a tempos.



Clooney nasceu em Kentucky,
em 1961, filho de
um apresentador de TV
e sobrinho da cantora
Rosemary Clooney
e do actor José Ferrer.
Um primo seu é, o também actor,
Miguel Ferrer.






















Georges Clooney tornou-se conhecido do grande público,
através do seu papel na série de Televisão, Serviço de Urgência,
onde permaneceria até 1999.
No Cinema, participou em Filmes de qualidade muito variada
como Aberto até de Madrugada, Batman e Robin, Romance Perigoso,
Três Reis, Confissões de uma Mente perigosa ou Solaris.


O seu sentido de humor proverbial, basta ver os anuncios Nexpresso a que dá a cara, a sua educação e simpatia, e, claro está, a beleza viril com que foi dotado, grangearam-lhe grande popularidade, as capas das revistas mais diversas, prémios como Sex Symbol, contratos milionários de Publicidade e a oportunidade de mostrar o seu talento noutras áreas da actividade cinematográfica, como a Produção e a Realização.









Seguiu-se a série Ocean 11/12/13, em que Clooney se rodeou de actores como Julia Roberts, Brad Pitt, Andy Garcia, Matt Dammon, entre outros.
O Bom Alemão e Boa Noite, Boa Sorte, com Realização sua, viriam a seguir, tendo este último sido indicado para o Globo de Ouro e para o Óscar de melhor Realizador. Nada mau, para uma carinha laroca...




















Vendo o seu estilo muitas vezes comparado ao dos velhos sex symbols como Cary Grant, Clark Gable ou mesmo, Humphrey Bogart, Clooney tem tido a inteligência de se ajustar aos nossos dias mantendo sempre um ar cool e bem disposto.



Em simultâneo, as causas que
tem defendido publicamente,
os temas que escolhe para as suas
produções e realizações,
e o que transmite nas entrevistas que dá,
mostram bem que
para além do cinzento dos cabelos,
também abunda massa cinzenta na sua cabeça.
Os seus 47 anos de idade, permitem pensar
que muito haverá ainda a esperar
na sua carreira.



















Tendo já recebido um Óscar, pela sua actuação em Syriana, para além de três nomeações, Clooney ganhou também 2 Globos de Ouro.


Mas nem só de êxitos é feita uma carreira.
Com Batman e Robin, George Clooney
ganhou o Framboesa de Ouro
para a Pior Dupla do ano







Talvez George Clooney não fique na História do Cinema como um monstro sagrado, mas a sua passagem bem disposta, inteligente
e auto-crítica deixará, de certeza,
muitas admiradoras... e admiradores.

Adeus até ao meu Regresso ( Guerra Colonial - Parte III)


Em Nampula, no Quartel General onde eu estava, ouvíamos, durante todo o dia, os helicópetros a chegarem com os evacuados.
Mortos, mutilados ou, nos casos mais felizes, feridos apenas.
Esta melopeia constante das hélices, transmitia-nos uma angústia que, dependendo da pessoa, tinha que ser acalmada.
Para uns através do álcool, outros nos muceques com as índigenas locais, ou para alguns, como era o meu caso, com fugas de fim-de-semana para as paradísiacas Ilha de Moçambique e Praia das Chocas. O grupo dos que escolhiam essa terceira opção era sempre restrito, dado que poucos militares tinham amigos civis. Eu, desde o início, tinha desenvolvido amizade com vários naturais de Moçambique, muitos de quatro e cinco gerações que, com a Independência, tiveram que deixar essa terra que tanto amavam e que, no caso do Mário Cabaço, militante da Frelimo, tinham ajudado a libertar. Bem, mas isso é uma conversa que poderá ficar para outra altura...
Os 200Km que separavam Nampula do litoral eram feitos em picada, por entre uma floresta, frondosa e exuberante. Um dia ficámos com o carro atolado, no meio de uma tempestade tropical, com relâmpagos e raios constantes e uma chuva diluviana. Nunca eu, ou os meus companheiros de viagem, o António, a São, o Mário ou o Pedro, nos iremos esquecer dessa sensação de tentarmos libertar o veículo, com as roupas empapadas, e o perigo eminente de um raio nos cair em cima. Aventuras tropicais...
A chegada à Ilha de Moçambique fazia-se através de uma ponte rudimentar com 3Km , construida nos anos 60, só que depois de a ultrapassarmos esqueciamos, de imediato, tudo o que tinhamos sofrido durante a viagem.
A ilha com 3 Km de comprimento e entre 300 a 400m de largura, de origem coralina, forma com as ilhas irmãs de Goa e Sena, ou das Cobras, a Baía de Moçambique.
O nome da ilha, segundo os nativos Muipiti, deriva de Mussa Bin Bique, ou Mussa Al Mbique, personagem de quem se sabe muito pouco.
Cidade de Pedra e Cidade de Macuti são as duas partes em que a ilha se divide, em função dos materiais utilizados na construção das casas.














Nas minhas visitas, e foram muitas, a esta ilha , uma das coisas que mais me incomodava era ver os sargentos lateiros ou os chicos, anafados e luzidíos, acompanhados pelas esposas, a serem puxados nos tradicionais ricoxós, por um franzino indígena local. Se a mim me causava revolta, imaginem a ele...






Os habitantes da Ilha de Moçambique eram, na sua maioria, de religião muçulmana , como atesta a Mesquita ao lado, e exímios artífices em prata, criando jóias muito cobiçadas pelas dondocas de Nampula.
A minha amiga São, Espadanica como eu lhe chamava, mulher do já mencionado Mário Cabaço , era uma compradora compulsiva dessas peças.









Na Fortaleza de S.Sebastião, construida totalmente com as pedras que constituíam o balastro dos navios, e que é a maior da África Austral, roubei uma bala de canhão ( esfera de ferro com cerca de 10cm de diãmetro) e que, a partir daí, me acompanhou para todos os lados onde o Destino me levou , Estados Unidos, Brasil, de novo em Portugal. Acabaria por deixá-la, numa das contracurvas da Vida, de que já aqui falei, nem sei bem onde...


Durante séculos, o principal comércio da Ilha
foi o envio de escravos para o Brasil,
o que com a independência deste, terminou, voltando a Ilha
a um marasmo de que nunca recuperou.
Mas era mesmo esse marasmo, tranquilidade
e a ausência do ruído das pás dos helicópetros que eu, e os meus amigos, procurávamos
quando passeavamos nas ruas silenciosas
ou nas praias tranquilas.

Foi de propósito que guardei a Praia das Chocas para o fim...
Águas quentes de um azul turquesa, cardumes de peixes, golfinhos e tartarugas.
Acham que já chega? Mas há mais...
Perto do Porto de Nacala, com a sua areia branca muito fina, emoldurada por coqueirais e outras árvores, a Praia das Chocas é uma das praias mais bonitas em que eu tive a oportunidade de estar.
E já estive em muitas, na Ásia, na Américas do Sul, Centro e Norte, e também, noutros pontos de África...
É obra ficar no Top, mesmo assim.













Por 20$00, cerca de 10 cêntimos actuais, comprávamos uma lagosta assada, um cacho de bananas e um ananás. Depois, acompanhando com uma bazuca, garrafa de cerveja de litro, era ir preguiçando na areia ou na água, até chegar a malfadada hora do regresso...
Não me posso esquecer que tinha, então, vinte e poucos anos, todo o tempo do Mundo, para o salvar e mudar, enfim...
...mas que estas recordações magníficas, ninguém mas pode tirar, lá isso é verdade.