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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Era uma vez um Homem

Mini Série de 8 Episódios ( 8/8)

Quando retomei a consciência olhei à minha volta.

Estava, de novo, na sala de reuniões da Agência. Os outros sete participantes da reunião olhavam-me com um ar entre o espantado e o interrogativo.
Arthur King, meio soerguido, no cadeirão Stark de cabedal preto, parecia mesmo ir perguntar-me alguma coisa.

Num ápice, tomei uma decisão.
Deixei cair, com ênfase, o dossier que andara a preparar tão cuidadosamente e dirigi-me a todos os presentes, olhando na direcção dos representantes do Cliente.

“Queremos que esta Campanha entre nos anais da História da Publicidade.
Que ganhe todos os Prémios que há para ganhar. Que seja falada no dia a dia das pessoas, nos cafés e nos empregos, nos transportes públicos, nos blogs e nas redes sociais mas, principalmente…queremos que Excalibur se torne líder de Mercado e que vocês”
olhos nos olhos com o Cliente” alcancem lucros fabulosos!”
Senti que tinha agarrado a pequena audiência ( só o da Media, o Tavares, é que apresentava um ar de reprovação), por isso continuei, falando enquanto percorria a sala parando junto a cada um dos sete espectadores.

“ A campanha será dividida em 7. Sete filmes para Televisão, sete anúncios para Imprensa, sete outdoors…” as ideias surgiam-me em catadupa “os Actores serão sempre os mesmos, mas desempenharão papéis diferentes em épocas e situações muito distintas.”
E após uma breve interrupção, de segundos” Começaremos numa Agência de Publicidade, mas a seguir viajaremos até Camelot, à Corte do rei Artur e dos seus cavaleiros da Távola Redonda.”
Comecei a vislumbrar os primeiros sorrisos de aprovação” Passaremos depois por Miami, na actualidade, pelo Mundo do Boxe nos Anos 60, viajaremos ao Futuro, ao dia a dia de um astronauta, retrocederemos no tempo, até ao Faroeste e à Paris boémia dos Pintores famosos.”

O Director de Cinema e TV, não resistiu a aplaudir-me. Continuei…
“ Com Excalibur leve no bolso, de Presente, o Futuro…e o Passado!”
Agora, foi a vez do meu boss soltar um “Bravo!”. Agradeci.

“ Excalibur a Robustez de um Pugilista, a Tecnologia de um Astronauta, a Diversidade de um Playboy, a Rapidez de um Pistoleiro, o Cromatismo de um Pintor, a Nobreza de um Cavaleiro…a Criatividade de um Publicitário !”
Agora sim, todos os presentes ( todos, não, o ruço olhava para as unhas) se levantaram, clientes incluídos e deram-me os mais calorosos parabéns.

Com ar modesto, concluí “ Exacalibur o touch screen com 7 vidas !”

Depois dos representantes terem dado a sua aprovação incondicional à Campanha e terem saído, reiterando os seus aplausos, fiquei sozinho na sala com o Administrador delegado que me informou, em primeira mão, ir regressar à sua terra natal e ir-me propor como seu substituto.
“Até hoje estava na dúvida entre si e o Zé Tavares, da Media, mas esta sua apresentação mostrou uma segurança , um brilhantismo que fez pender o balança, sorry, a balança para o seu lado. Congratulations…”

Quando saí da sala, meio atordoado com tanta agitação deparei que a minha secretária, a Cláudia, tinha um sorriso de orelha a orelha ( ouvira, certamente, tudo o que se passara pelo intercomunicador que tinha na secretária).
Um pouco mais afastada, Mrs. Guinny King, a mulher do meu Administrador quase deitada num sofá de pele, mostrava as sua longas pernas que me lembravam, perturbantemente, as da Belucci.

Nesse momento, foi como se todas as luzes explodissem em miríades de pirilampos, senti um arrepio percorrer-me a espinha, uma vertigem e…

Quando retomei a consciência olhei à minha volta.
Encontrava-me deitado na minha cama king size, tendo à minha direita a jovem Cláudia numa esplendorosa nudez …
...enquanto, do lado esquerdo, a madura Guinny em iguais preparos, deslizava cama abaixo.

Senti um arrepio…

Francesco Vecchio

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Era uma vez um Pintor

Mini Série em 8 Episódios ( 7/8)

Quando retomei a consciência, olhei à minha volta.

Encontrava-me num atelier cheio de quadros de vários formatos e em variadas fases de gestação.
Telas brancas, encostavam-se, serenas, num dos cantos mais escuros do estúdio.
Outras, apenas esboçadas, outras quase terminadas, amontoavam-se prestes a invadir as demais divisões da casa.
Por uma pequena janela via-se a cúpula do Sacré Coeur. Montmartre, portanto…

Senti, então, a presença de uma outra pessoa.
Dei um pulo quando vi a minha secretária (…mas seria ainda esse o seu papel?) vestida, ou despida, como veio ao mundo!
Ao reparar no cesto com maçãs sobre a mesa e na postura forçada que a jovem ostentava, apercebi-me que a bela posava para algum trabalho que eu estaria a desenvolver.
Olhei o cavalete. Gostei do que vi...até que eu tinha talento.

O nu vigoroso, em tons quentes de carne, as formas voluptuosas, o rosto alongado, as pupilas em branco…reconheci o estilo, sem me lembrar do nome. Mas, foi por pouco tempo.
“Mestre Modigliani, passa-se alguma coisa?" perguntava-me a bela Cláudia, sem falsos pudores e mostrando uma beleza de formas que eu já há muito imaginava, sem ter tido, infelizmente, provas concludentes.
Antes, mesmo, que eu pudesse responder ouviram-se umas fortes pancadas na porta da entrada.
A minha modelo, embrulhou-se num roupão achinesado e perguntou-me, maliciosa:
“Quer que abra a porta, Mestre?”e piscando-me o olho “ deve ser o seu amigo Brancusi...quando eu estou a posar, aparece sempre…”

Mas afinal não se tratava do escultor.
À frente vinha o “meu” amigo e marchand Leopold Zborowski que fez as apresentações.
“Arthur LeRoy, grande colecionador de Arte, e que pretende adquirir alguns quadros do meu amigo Modi.”
O eventual comprador, não era outro senão o PDG/ Rei Artur/ xerife and so on, como já seria de esperar, que me apertou a mão de modo vigoroso, enquanto olhava a bela Cláudia, Claudette no caso, que já deixara tombar o roupão, e olhava com um desdém olímpico para o outro elemento feminino recém chegado – Madame Guy de La Fontaine, que me fez lembrar uma mistura de estrelas de cinema que, todos vocês, já estão carecas de saber...
A balzaquiana figura, mulher madura e com aspecto de ter muita rodagem, de vestido coleante em lamê dourado e um falso sinal pintado no colo alvo, e abundante, olhava com ar guloso os nus espalhados um pouco por todo o lado.
Pendurando-se no tal Arthur LeRoy, perguntou-lhe, dengosa” O chéri não acha que aqui o Amadeo me podia pintar o retrato?.”

Foi nesse momento que o até então mudo último visitante se apresentou, quase cuspindo as palavras, por entre um riso escarninho e um esgar que lhe torcia, ainda mais, a cara já de si pouco atraente..
“ Apresento-me, Kandinsky ao seu serviço “ e penteando a melena ruça” eu, sim, pintor à séria…
Parecendo, então, esquecer a minha presença, voltou-se para a La Fontaine, despindo-a com os olhos “…e terei imenso prazer em fazer o seu retrato !”

Pelo ar de enfado com que Madame Guy lhe voltou as costas, via-se que não era a primeira vez que o russo pintor ruço (?) lhe fazia tal proposta.
Entretanto, Leopold Zborowski encaminhava Arthur LeRoy para junto dos quadros já terminados e um grupo de esculturas que permaneciam há muito, sem comprador, na outra extremidade do atelier.

Aproveitando a distracção dos dois homens e sem ligar nenhuma ao tal pintor nem à minha modelo, a mulher mais velha aproximou-se de mim e murmurou, com voz rouca.
“ Posso passar por cá mais tarde? Para vermos isso do retrato?” e riu-se, insinuante…

Nesse momento , comecei a ver as telas a girarem como se de um carrossel se tratasse, senti um arrepio percorrer-me a espinha, uma vertigem e…

Francesco Vecchio

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Era uma vez um Pistoleiro

Mini Série de 8 Episódios (6/8)

Quando retomei a consciência olhei à minha volta.

Estava deitado numa rua poeirenta, ladeada por uns toscos casinhotos de madeira.
Levantei-me e sacudi o pó que me cobria de alto a baixo.
Calçava botas pontiagudas em cabedal lavrado, tinha safões por sobre as calças de sarja, um colete com franjas e um chapéu de abas largas que me devia dar um ar de Roy Rogers, herói da minha adolescência.
Preso à cintura, um cinturão pejado de balas e com dois colts de punhos em madrepérola.

Ainda cambaleante, empurrei umas portadas que davam entrada ao edifício mais imponente, melhor dizendo, menos miserável, da rua, e que ostentava uma placa com “Saloon” pintado a vermelho.

A minha súbita aparição teve o condão de suspender todas as conversas.
Numa lenta panorâmica, percorri a meia dúzia de mesas ocupadas por uma vintena de pessoas.
Lá no fundo, cinco ou seis fulanos, jogavam um poker animado, a julgar pelo monte de dinheiro que tinham à frente.
Noutro canto, um típico pistoleiro todo vestido de preto, e de cabeleira ruiva olhou-me semicerrando os olhos. O fulano da Media, again…
Raparigas de mau porte, vestidas como que saídas do Moulin Rouge, partilhavam lugares e afagos vários, com pesquisadores de ouro, fazendeiros e simples vaqueiros.
Uma morena de olhos verdes, Lady Guinevere? Gui?com as saias puxadas para cima e o decote, repuxado para baixo, lançou-me um olhar demorado…

Avancei até ao balcão, atrás do qual a já esperada Cláudia, que aqui adoptara o nome de Calamity, limpava uns copos com um pano meio cinzento.
Enquanto bebia o meu bourbon, servido num copo lascado, senti que alguém se aproximava por trás. Embora alerta, não me voltei.
“ Se não és o cobarde que eu julgo que és, volta-te e saca das pistolas, Billy the Kid !!!” a voz inconfundível, e irritante, era do ruço, que me perseguia no tempo e no espaço. Mas, ao menos, tinha-me dito qual o meu actual papel e personagem…

Emborquei com tranquilidade o resto da bebida, e, nesse momento, ouvi a voz da tal morena esplendorosa, com a sensualidade da Bellucci, o corpo da Johanssen, e já nem sei o quê da Alba, que era, afinal, a dona do Saloon “ Põe-te a mexer ó Red Snake, senão nunca mais metes os butes aqui dentro”.

Já voltado para o centro da sala, embora mantendo os cotovelos sobre o balcão, verifiquei que, a estas ajuizadas palavras, o meu eterno inimigo fazia orelhas moucas.
Pelo contrário, os braços ligeiramente arqueados, e os dedos tremelicando a centímetros das coronhas dos revólveres, indiciavam que o saque estava para breve.
Desencostei-me, enquanto escutava o suspiro ( …de medo? Excitação) que a barwoman emitia, nas minhas costas.

Foi nessa altura, que as portas de batente se abriram, de novo.
O xerife, para além da estrela indicativa, tinha uma farta cabeleira branca, assim como um bigode e uma pêra que me trouxeram à memória, o lendário Bufallo Bil.
Mas não, desta feita tratava-se de Texas King, antigo assaltante de bancos, que se passara, a troco de um indulto total, para o outro lado da Lei.
A Winchester que empunhava era suficientemente dissuasora, mas não para o ruivo bronco que, julgando-me distraído, quis aproveitar do efeito surpresa.

Depois, precipitou-se tudo
Ouvi os disparos das minhas armas, das do ruivo e, julgo eu, o deflagrar violento da carabina do representante da Lei, que já fora, ou viria a ser, o meu patrão, um rei em Camelot, um apostador cubano ou um elemento preponderante da máfia norte americana,

Em simultâneo, escutei gritos de mulher,
cadeiras a caírem no soalho de madeira e até o ruído
de uma garrafa a estilhaçar-se…

Nesse momento, foi como se tivesse sido atingido
por dezenas de projécteis, senti um arrepio
percorrer-me a espinha, uma vertigem e …

Francesco Vecchio

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domingo, 27 de dezembro de 2009

Era uma vez um Astronauta

Mini Série de 8 episódios (5/8)

Quando retomei a consciência, olhei à minha volta.
As quatro paredes da divisão onde me encontrava estavam cobertas por imagens holográficas que representavam uma multidão a assistir à morte de cristãos, num qualquer circo romano.
Ainda, perturbado pelo combate de boxe, apoiei instintivamente o dedo na caixa de comando, que tinha à minha frente.
O cenário que me envolvia a 360º mudou, instantaneamente, para uma paisagem gelada reproduzindo os picos dos Himalaias
Embora toda a casa tivesse uma temperatura ambiental de 24º centígrados, como se podia ler no visor do tal painel, senti-me invadir pelo frio.

Cliquei de novo, no comando, e fui apreciando os sucessivos motivos plásticos, a invadirem-me as paredes, quais hordas de bárbaros.
E hordas de bárbaros, comandadas por um colérico Gengis Khan, eram mesmo um dos motivos, que substituí, rapidamente.
Corridas de automóveis e de cavalos, bailarinas de hula hula, em que me demorei mais uns minutos, vistas aéreas da Grande Muralha da China, jogos de Futebol, e, finalmente, o Carnaval do Rio, com umas esplendorosas mulatas em 3D, a minha opção final.
"Olha a cabeleira do Zézé..." era a música ambiente, quando me levantei para vasculhar o resto da casa.

Não tinha ainda percorrido três metros, quando senti uma presença atrás de mim.
Voltei-me e vi-me perante uma aparição divina - a minha secretária Cláudia, vestida com uma indumentaria de criadita francesa, redesenhada pela Susanne Sommers, olhava-me sorridente.
"O Master deseja alguma coisa?"
O tom metálico da voz levantou-me a primeira suspeita, e o olhar fixo, o andar mecanizado, confirmaram essa minha desconfiança.
Esta nova Cláudia, esplêndida, na sua vestimenta de sonho erótico, não passava de um robot, o CLA27, para sermos mais exactos.
"O Master deseja mais alguma coisa?" papagueava ela, uma vez mais. E perante o meu silêncio "Comida? Leitura? Massagem? Sexo?"

Pelo sim, pelo não, optei pela comida...
"Bife de Avatar? Ostras de Neptuno? Amêijoas à Bulhão Pato?"
Senti-me mais à vontade com as amêijoas...
Quando vi as duas cápsulas castanhas, percebi que talvez não tivesse sido a escolha correcta.
O sabor até não era mau. Uma das cápsulas era o prato principal e a outra era um Pera Manca gelado, que ajudou a comida a deslizar.
Quando a Cláudia, ou a CLA, neste caso, me perguntou"Café? Digestivo?" respondi, sem hesitar"Café, mas com cheirinho!"

Nesse momento, as imagens carnavalescas da parede central apagaram-se momentaneamente e, após um zumbido irritante, foram substituídas por um grupo de três pessoas, estando ao centro o meu Director Geral, aqui como KA134 de barba e cabeleira azuis metalizadas, sua mulher, a sempre bela e pouco vestida GUI42 e o tal da Media, o RED54.
"Olá astronauta Buck Rogers" dirigiu-me o meu superior "temos uma missão de resposta imediata."
Permaneci, em silêncio, sem saber o que responder.
" Meta-se no seu foguetão de serviço e vá salvar a 3ª galáxia, quem vai de cá, 2ª para quem vem de cima!"
Continuei mudo e quedo. O ancião deve ter interpretado mal o meu silêncio"Ah, é claro que receberá ajudas de custo e subsídio de alimentação. GO !!!"

Enquanto a imagem se desvanecia em fade out dando lugar, de novo, a uma brasileira rebolando-se com as cores da Mangueira, pareceu-me vislumbrar o piscar de olho da sua companheira e o esgar de ódio do russo malvado. Mas talvez tudo não passasse de uma rasteira da minha imaginação...

Após breve hesitação, perguntei a uma estática CLA27 que se colocara num dos cantos da sala
" Foguetão?"
Quando a vi avançar para mim e começar a despir-me achei que teria percebido mal a pergunta mas, como estava a gostar, deixei que continuasse.
Afinal, o diligente autómato estava só a trocar a minha roupa prática, de trazer por casa, por outra indumentaria mais própria para ir salvar uma galáxia.

Cinco minutos mais tarde , com um elmo transparente colocado e um fato de borracha pressurizado, que me cobria da cabeça aos pés, fui levado até ao interior de um veículo espacial, o Smart XPTO143, onde me sentei num banco ergonométrico que se adaptou automaticamente a todas as reentrâncias e saliências do meu corpo.

Olhei o painel de comandos que se encontrava à minha frente. Frugal na sua simplicidade.
Constituído por três botões, de cores diferentes.
Azul, verde, amarelo...
Como era o verde que piscava, premi-o.

Nesse momento, foi como se o foguetão se tivesse partido em milhões de partículas, senti um arrepio percorrer-me a espinha, uma vertigem e ...
Francesco Vecchio

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Era uma vez um Pugilista

Mini Série de 8 Episódios (4/8)

Quando retomei a consciência, olhei a minha volta.
Estava estirado no chão de um ringue de boxe.
Debruçado sobre mim, um árbitro de rosto congestionado e lacinho no pescoço contava de forma bem articulada:
" ...Seis...sete...oito..."
Soergui-me e ouvi uma forte ovação, por parte do público que enchia o pavilhão.
O Madison Square, como se podia ler nas faixas que atravessavam a sala.
"Cassius!!! Cassius!!!" gritavam homens e mulheres num histerismo colectivo, que me fez erguer e colocar em posição defensiva.

Entretanto, o meu cérebro explodia numa sucessão de pensamentos.
Então agora era um negro? Boxeur? Cassius Clay? E, se ainda não mudara o nome para Muhamed Ali, o que ocorreria em 1964, então a época deveria ser o início dos anos 60...

Não continuei a colocar perguntas desencontradas, porque o meu adversário aproximava-se perigosamente de mim.
Só então atentei naquele rosto pleno de bestialidade sádica - era o media planner da Agência, o ruivo de olhar esgazeado.
Joe Red Devil, como a parte da multidão que o apoiava, gritava a plenos pulmões.

Vi-me, eu que nunca antes pisara um ringue, a saltitar à volta do meu competidor como um autêntico profissional e a aplicar-lhe jabs, seguidos de cruzados.
Comecei, até, a achar graça à situação.
Objectivo, estratégia, meios...

Nesse momento, um gancho, hook para os mais puristas, bem aplicado pelo Red Devil, ia-me levando, de novo, às lonas.
Fui salvo pelo gongue e , enquanto sentado no meu canto, recebia toda a atenção da minha equipa técnica, tive tempo para dar uma olhadela aos espectadores VIP da primeira fila.

O primeiro casal a chamar-me a atenção era constituído por uma ancião alto, de farata cabeleira branca e um charuto preso entre os dentes e um mulherão que unia o corpo da Monica Bellucci, com a sensualidade da Jessica Alba e a falsa candura da Sacarlett Jonhassen ( onde é que eu já ouvira isto?).
...Aqules, não eram?
"Aquele é o Mambo's King, Artur El Cubano, que apostou uma verdadeira fortuna no teu adversário...e ela é uma putéfia, a Miss G, que faz strip nos lugares da moda..."
A tal Miss G. de decote explícito e sardas múltiplas constelando-lhe os ombros, sorria-me de modo convidativo.

Nessa altura, uma soberba morena mostrando, no centro do ringue, um cartaz com o número 8, despertou-me o olhar. Cláudia, de novo.
O toque para o início do 8º rounde, obrigou-me a levantar, num salto.
O ruivo da Media, o cavaleiro, o guarda-costas, ou lá o que era, avançou para mim, com ar de quem queria resolver o assunto em poucos minutos.
Esquivei-me de um cruzado de direita e apliquei-lhe um directo ao estômago que o fez inclinar-se para a frente.

Era o momento que eu esperava. Atacar o alvo, no timing preciso, com a técnica adequada...
Um uppercut encaixado, na perfeição, na mandíbula do ruivo, fê-lo voar para trás, num quase perfeito flic flac.

O estrondo que fez, ao cair de costas no estrado do ringue, deixava pouca margem para dúvidas.
O combate terminara e o vencedor era...

Nesse momento, pareceu-me que a multidão enlouquecida tinha começado a girar à minha volta, senti um arrepio percorrer-me a espinha, uma vertigem e...
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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Era uma vez um Playboy

Mini Série de 8 episódios (3/8)
Quando retomei a consciência, olhei à minha volta.
Encontrava-me numa praia imensa e muito limpa, com um mar azul turquesa lá em baixo.

Uma morena, mistura da falsa candura da Johanssen, como o corpo da Bellucci e a sensualidade da Jessica Alba, avança na minha direcção.
Antes de falar, humedece os lábios com uma língua rosada.
"Hi, I'm Gui!" declara ela, com uma voz que faria levantar um morto.
Saúdo-a, erguendo o meu Dry Martini.
Estende, então, a toalha felpuda, sobre uma espreguiçadeira, ao lado
da minha e, em poucos minutos, fico a saber que é a sua primeira
visita a Miami, que mora em Houston, Texas, e que o seu marido,
octogenário e multimilionário, em partes iguais, deverá passar
toda a tarde a jogar golf. Um mundo de promessas...
"My husband is the very well knouwn K.A. the III, you know? Isn't that funny?"diz-me a bomshell, enquanto lhe passo o óleo bronzeador no bem torneado corpo, mantido em forma à base de personal trainers variados, e sabe-se lá o que mais.

É a vez da entrada em cena, de novo clone da minha secretária Cláudia.
Desta feita, veste um maillot vermelho, talvez inspirado no Baywatch, e traz uma bandeja com outro Dry Martini e um Mojito para a minha nova friend.
O olhar incendiário, que me lançou, juntava reprovação, promessas lânguidas e um ciúme feroz. Reconheçamos que é muita coisa para um simples olhar.
Fixei-a, por sobre os óculos Ray-Ban e contemplei-a com o meu mais dardejante sorriso, estratégia utilizada em muitas campanhas internacionais, com objectivos bem definidos e índices de satisfação, sempre muito elevados.

Nesse momento, a gringa soltou um gritinho "Oh, look, my husband!"
Na realidade, vindo do lado onde os edíficios se recortam como skyline em tons pastel, avançava um estranho grupo com intenções que, à primeira vista, não pareciam muito amigáveis.
À frente o tal octogenário, gémeo do meu Administrador Arthur K., mas, também, uma cópia envelhecida do King Arthur da Távola Redonda, o tal famoso milionário K.A. the III, tropeçava na areia, apoiado por dois gorilas King Size que me lembram a dupla desavinda que tinha tentado reconciliar nessa mesma manhã(?) enquanto um ruivo, todo vestido de branco, com o riso sardónico do meu colega da Media a arrepanhar-lhe o rosto, apontava na minha direcção.

Levantei-me, lentamente, tentando manter a compostura.
Gui, para complicar ainda mais a situação, escondera-se atrás de mim com as longas unhas esmaltadas, cravadas nas minhas costas.
A única vantagem era que os seus seios, avantajados e firmes, acrescente-se, pareciam querer entrar por mim a dentro, o que me transmitia uma sensação bem agradável.

A poucos passos de distância, a empregada do bar, sósia da Cláudia, mas que ostentava"Claudette" no dístico preso ao fato de banho, olhava-me irónica com uma expressão que parecia dizer"É bem feito, comigo não tinhas corrido perigo nenhum e ficavas muito mais bem servido."

Estava eu nestas conjecturas, quando o grupo chefiado pelo velho marido enciumado, chegou ao pé de mim.
"Rubirosa, you mothe' fucker, this time I'm going to kill you!"
E, antes que eu encontrase um argumento de venda,
minimamemte plausível,
senti um punho cerrado acertar-me em cheio, em pleno nariz...

Nesse momento, foi como se um meteorito me tivesse caído
em cima, senti um arrepio percorrer-me a espinha,
uma vertigem e...
Francesco Vecchio
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Era uma vez um Cavaleiro

Mini Série de 8 episódios (2/8)

Quando retomei a consciência, olhei à minha volta.
A mesa de reuniões mantinha-se, mas transformara-se numa enorme superfície redonda.
Os meus companheiros estavam, agora, vestidos com cotas de malha sobre armaduras reluzentes.
Muitos deles apresentavam barbas e bigodes façanhudos.

À minha frente, olhando-me inquisitivo, sentava-se Arthur K. que ostentava agora, uma coroa reluzente.
"Prossiga, Sir Lancelot, estava a dizer-nos?"
Sem entender nada do que se estava a passar, apercebi-me que a sala onde me encontrava, era toda em pedra e que, pelas esguias seteiras, se via, lá em baixo, a barbacã que rodeava o castelo, pois de um castelo se tratava, estava certo...
Comecei. Titubeante. Sem saber bem o que dizer.
"A estratégia que imaginei, hum...É uma ataque maciço em várias frentes, com todas as armas de que dispomos..."
Vi que todos os cavaleiros, sentados à volta da mesa redonda, escutavam atentos, em silêncio.
Só um ruivo, que se assemelhava estranhamente ao Media Planner da Agência, me interrompeu, num tom de voz irritado.
"E o alvo? Qual vai ser o alvo a atacar?"
Sorri, para mim próprio. estudara bem aquela resposta.
"O nosso grupo-alvo são os quadros superiores. Elementos da Classe A , num grupo etário entre os 35 e os 55 anos..."

Nesse momento, fomos interrompidos por uma jovem que entrou na sala com uma grande bandeja repleta de canecas com uma bebida fumegante.
Pisquei os olhos. A donzela, de longo vestido brocado e véus esvoaçantes, era cara chapada da minha secretária Cláudia.
Ela pareceu ler-me os pensamentos, porque concedeu-me um sorriso aberto e uma visão generosa do seu decote, quando se debruçou sobre a mesa, para me entregar a caneca de, apercebi-me depois, vinho quente polvilhado com canela.
Aproveitando o coffee break, ou melhor dizendo, o wine break, os meus companheiros de armas entretiveram-se a contar feitos guerreiros, sob o olhar complacente do Rei Artur, assim se chamava o nosso PDG, para usar uma expressão mais habitual do meu dia-a-dia.
Após o breve intervalo, sentámo-nos de novo, e recomeçámos a discutir estratégias.
Achei interessante a analogia com as campanhas publicitárias, a que me dedicara durante grande parte da minha vida.
Meios, veículos, armas, concorrência, alvos, zonas de influência e, até, slogans...
Era isso mesmo que Sir Galahad, um cavaleiro com ar efeminado, que era a cara de um cantor meu conhecido, que fazia jingles, declarava, no momento.
"Devemos ter um grito de ataque.
Um grito de vitória..."
e, perante o silêncio geral, expectante.
"Pela Terra e pela Grei!
Por Artur, o nosso Rei!"
Senti-me, entre a minha gente. O pessoal era criativo, gostava de dar luta e tinha os egos emplumados, quais pavões.

Nesse momento, um pajem de collants cor-de-rosa, o paquete dos recados? anunciou:
"Sua Majestade, Lady Guinevere..."
A mulher que entrou na sala era um autêntico deslumbramento.
O corpo da Monica Bellucci, a sensualidade da Jessica Alba e a falsa candura da Scarlett Johanssen.
A quadra soltou-se-me, sem pensar.
" Vossa coragem é a rodos
E a valentia, sem fim.
O Rei Artur para todos
... a Rainha só p'ra mim!"
Percebi, de imediato, o deslize de etiqueta ao ver todos os cavaleiros levantarem-se, num gesto só, e levarem as mãos aos punhos das espadas.

Nesse momento, foi como se um relâmpago tivesse atravessado a sala, senti um arrepio percorrer-me a espinha , uma vertigem e...
Francesco Vecchio
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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Era uma vez um Publicitário

Mini Série em 8 Episódios (1/8)

A manhã começou normal, igual a quase todos os dias.
Acordei por volta das sete, sem precisar de despertador.
O poker da véspera, em casa da Paula, reflectia-se numa ligeira dor de cabeça.
O chuveiro, na potência máxima, seguido de uma auto massagem com luva de crina, ajudou-me a voltar ao mundo dos vivos.
Escolhi uma camisa azul da Façonable, um fato Cerutti de corte tradicional, também azul, mas escuro, e hesitei entre uma gravata com riscas e uma lisa, mais actual, mas vulgar. Optei pela primeira.
Duas aspirinas e um café forte depois, estava já preparado para a rotina diária.
Trinquei, distraído, uma torrada, enquanto lia no laptop o resumo da imprensa diária.
As habituais quezílias entre Governo e Oposição, mais um escândalo, desta feita, no mundo da construção, um artigo virulento do Soares, a prisão de uma antiga estrela de um reality show, enfim, nada de invulgar ou muito estimulante.

Desci à garagem do prédio e olhei o meu BMW Z4 cinza metalizado que era, de momento, a menina dos meus olhos. Alisei a capota hard top, antes de me sentar e sentir o forte cheiro do cabedal genuíno.
O motor ronronou satisfeito quando iniciei a marcha que me levaria, em menos de 15 minutos, da Nova Campolide, onde moro, até ao Parque das Nações, onde trabalho.

A Agência de Publicidade que me paga um chorudo salário, há cerca de três anos, para usufruir do meu talento como Creative Director, ocupa todo um prédio, de desenho arrojado, com vista para o rio.
Subi ao último piso, onde se situa o meu gabinete, com duas novas colegas Account Junior e o Director do Departamento de Media, um ruivo, alto e desengonçado, com que não vou à bola.
A minha secretária, uma recém licenciada em Comunicação, recebeu-me com a habitual simpatia e jovialidade.
Sou um defensor acérrimo de que não se deve misturar prazer com trabalho, mas a Cláudia, assim se chama a minha mais chegada colaboradora, já me fez pensar, várias vezes, em esquecer esse princípio básico, que sempre orientou a minha vida profissional.
Mas, rapidamente, esqueci esses pensamentos menos próprios quando comecei a resolver os problemas que, todos os dias, se me deparam, neste mundo violento e sem complacências que é a selva da Publicidade.
Uma reunião com uma dupla em que visualizador e redactor andavam de candeias às avessas, por causa de um rabo de saias da Contabilidade, a análise do portfolio um novo fotógrafo, dezenas de telefonemas de, e para, clientes, fornecedores e free lancers, a leitura dos inúmeros mails que, diariamente, inundam o meu computador, manteve-me ocupado até quase ao fim da manhã.
Por fim, ao meio dia, começou o que iria ser o ponto alto da minha jornada de trabalho ( nem eu sabia o quanto...) - uma reunião alargada a vários elementos da equipa criativa, dois representantes do Cliente e o Chairman da Agência, para discutirmos uma nova Campanha, de budget quase ilimitado...
A sala, de dimensões avantajadas, estava decorada com aquele estilo minimalista e despojado, que transmite uma primeira ideia de frieza mas que, quando observado ao pormenor, mostra que tudo é da máxima qualidade, a começar pelos quadros.
Numa das paredes um enorme tríptico de madeira do Pedro Calapez, do período quase monocromático deste artista, dava o mote para o colorido da sala em que os negros, cinzas e castanhos escuros pontificavam.
No topo da divisão, dois trabalhos de Julião sarmento, sobre papel, emitiam, com quase displicência, um erotismo incómodo que deixava desconfortáveis os empresários mais conservadores, que nos visitavam.

O primeiro dos oito participantes da reunião a falar foi o nosso PDG, um inglês, há já seis anos em Lisboa, com um português fluente, arranhado só nalguns ditongos, que depois de agradecer a todos, fez um resumo rápido do que se pretendia decidir neste meeting - delinear as linhas força de uma mega campanha que incluiria Televisão, Rádio, Imprensa, Outdoors, mas, também, as redes sociais, direct mail, acções de ponto de venda, com o objectivo de transformar Excalibur, assim se chamava o novo produto, num líder do sector.
Esse era, pelo menos, o objectivo.
Depois das breves, mas elucidativas, palavras que proferiu, Arthur King, passou-me a palavra, com um breve aceno de cabeça.
Levantei-me, cumprimentei, uma vez mais, todos os presentes e preparei-me para a presentação que andara a burilar há mais de uma semana.

Nesse momento, foi como se as luzes da sala se tivessem apagado.
Senti um arrepio percorrer-me a espinha, uma vertigem e...

Francesco Vecchio

Nota do Tradutor: Nesta altura, uma explicação se impõe. Optei, deliberadamente por aportuguesar o texto, adaptando a Lisboa ( Nova Campolide, Parque das Nações, rio) tudo o que, no texto original, nos fazia reportar a Milão. Fiz o mesmo com os Pintores italianos que decoravam a sala de reuniões. Achei que esta era a forma de tornar a acção mais próxima do Leitor. A este e ao Autor, as minhas desculpas pelo eventual abuso...
Post relacionado:
http://ogalodebarcelosaopoder.blogspot.com/2009/12/uma-mini-serie-seria.html

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Uma mini série, à séria...

Durante esta época das Festas, a partir de amanhã
e até ao Ano Novo, vamos apresentar uma série de 8 episódios,
da autoria de Francesco Vecchio
http://intercultura.ning.com/profile/francescovecchio
com tradução minha. Espero que vos agrade...