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domingo, 8 de novembro de 2009

MUDE de ideias: converta-se ao caos


Desde a primeira linha deste desabafo, será preciso levar em conta que eu não me informei acerca do historial do objecto em causa – o novo Museu de Design e de Moda - MUDE, em plena baixa de Lisboa – até ao momento em terminei de escrevê-lo.

Fi-lo, propositadamente, para que o relato das minhas sensações e comentários possa ser livre do contágio próprio das coisas que cheiram a polémica e à inevitável polarização de opiniões.

Lá fui, Rua Augusta acima, buscando a única referência espacial que tinha. Ainda no Terreiro do Paço, naquele espaço tão aberto ao rio e tão fechado de ideias (credo! outra polémica… fujamos daqui!), pus-me a pensar onde raio se enfiaria um museu em plena baixa pombalina. Conheço bem a arquitectura daqueles prédios, que teimam pela seriação da sua construção – vãos idênticos e hierarquizados segundo a primazia das ruas, pés-direitos relativamente baixos (se comparados com o que era habitual nas casas civis do século XVIII), normas de conservação extremamente rígidas que raramente permitem alterações significativas por parte do município.
Não tive que esperar muito para esbarrar na resposta: logo ao segundo quarteirão, lá está ele, nas antigas instalações da agência da Caixa Geral de Depósitos, denunciado por um imenso avental de tela que forra integralmente a fachada do prédio, quase ao jeito de Christo and Jeanne-Claude. Logo ali adiantei a minha primeira dedução que veio a ser certeira – o interior do edifício já havia sido alvo de obras, durante as menos informadas e altamente destrutivas décadas de 60 e 70 do século passado, no que toca ao património arquitectónico e arqueológico.

A falta de regras camarárias sérias, ateadas por uma fraca consciência pública da importância do património histórico, permitiu uma delapidação irreversível na herança cultural que se deixaria para as futuras gerações. Só assim se compreendem - sem contudo se justificarem - as enormes alterações que alguns destes edifícios seculares receberam, a começar pelos enormes vãos das montras ao nível do rés-do-chão e por vezes também do primeiro andar, na maior parte das lojas desta artéria e que tão simplesmente destruíram por completo o ritmo da fenestração e a pureza da leitura do alçado da rua. Acerca deste assunto, hei-de pronunciar-me mais profundamente mas por ora gostaria de adiantar que não sou defensora da imutabilidade dos contextos da arquitectura mas muito mais pela adequação honesta e sensata do universo pré-existente ao progresso das actividades humanas.
No interior, duas agradáveis surpresas: está fresquinho e é grátis. O que dá sempre jeito em Agosto, a primeira, e em qualquer mês do ano, a segunda.
Num vislumbre, deu para perceber que o local vai gerar polémica. Ali, como no Gughenheim, a colecção é o que menos importa. Mas por motivos completamente diversos. Não é obra de um arquitecto de renome – pelo menos, desde o Eugénio dos Santos, deve ter havido ali intervenções de mais uns cinco ou seis tipos - não necessariamente arquitectos. E estão lá todas à vista, as intervenções. Ah pois! Do pombalino às sancas de tectos dos anos 50, dos painéis de mármore verde completamente sixtie’s aos balcões torneados dos 70’s, tudo ainda resiste.
E convivem de forma… Ah-ah! Pensava que ia dizer “harmoniosa”? Não, não. Completamente invulgar, desarrumada, suja mesmo. Está lá tudo: entulho nos estafes dos tectos, restos de cofragens de lajes e pilares, tijolos por rebocar, até arcaicas marcações de pontos de luz com os condizentes erros ortográficos dos serventes de electricista.
No meio daquele cenário de guerra, onde quase tudo é cinzento e anárquico, naturalmente sobressaem as peças da colecção em si. Simplesmente pousadas sobre paletes de madeira pintadas de branco, suavemente iluminadas. E vivem, claro. Tirando um conjunto de gavetas desconcertadamente amontoadas, pouco mais me tocou, mas isso é outro assunto até porque estive muito mais atenta aos comentários do público.

“Isto deve ser provisório, não?” e “Que pena…Tudo desfeito. Não poderiam ter dado uma pintura?” não foram de todo os comentários que ouvi, embora o meu preconceito esperasse isso dos três velhotes minhotos que gabavam a juventude ao Freitas do Amaral à data do cartaz da AD.
Penso que a cidadania está a tomar contornos interessantes em todas as camadas da sociedade, sendo um deles a consciência de que a arquitectura tem razões para existir como forma de expressão da cultura actual de um povo. O CCB, foi o primeiro passo nesse sentido, acho. Os Jerónimos não ficaram zangados, aos lisboetas passou-lhes a birra e os turistas nem deram por nada. A Expo ‘98 veio cimentar essa consciência. E, com os anos, as intervenções arquitectónicas na província, por meio de centros culturais e fluviários, vieram familiarizar as populações com novos formatos, materiais e soluções arquitectónicas diferentes das que estiveram habituadas pela dieta letárgica que o Estado Novo impôs, ao reforçar os aspectos seculares da arquitectura e esquecendo o seu elemento fundamental – a contemporaneidade.
E o Gughenheim é contemporaneidade. Curiosamente, o MUDE não. O MUDE é uma memória de arquitecturas mortas. De facto, aquele espaço está moribundo. E contudo move-se. Desde o pombalino ao momento actual, apresenta um pouco de tudo, o que produz um efeito tão interessante quanto inovador e que é a total ausência de uma baliza temporal que o possa claramente identificar como protótipo da arquitectura de uma era – mal de que padece a grande maioria da arquitectura pós-moderna. Veja-se o Aldo Rossi e aquilo tresanda a anos 80. O próprio Frank O. Gehry é bastante datável. O MUDE, por seu lado, sendo inqualificável quanto ao estilo, indescritível quanto à forma e incompreensível quanto ao conceito, torna-se, por isso mesmo, muito mais intemporal e, muito possivelmente, poderá perdurar no tempo sem grande mácula - posso arriscar - quase sem risco de apodrecer fora de moda. É tão improvável achar-lhe um estilo como um autor que o tenha assinado.

Este aspecto peculiar da casca do museu traz imensas mais-valias à exposição em si, como é fácil calcular. Vive no meio do caos apático, sobressai pela cor e aprumo, sem concorrência à altura, e assim obtém um protagonismo que nem o Richard Serra consegue com esculturas do tamanho de campos de voleyball dentro de Bilbao. E era isso que se queria, ou não era?

Moira de Trabalho

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A arte de não ser artista

É fácil confundir conhecimento com cultura.
Decorar nomes e debitá-los numa vernissage
não nos faz cultos. Faz-nos parvos.
Especialmente
porque estamos convencidos do contrário.

Aqui há dias falava com um vizinho, no balcão do café, acerca de filmes.
Não se lembrava de um único nome de realizador, de actor, de director de fotografia; e no entanto, falava com imenso vigor acerca dos planos de filmagem; defendia com unhas e dentes que a câmara só deve mexer quando se justifique, e não daquela maneira blockbustiana que acompanha os olhos do protagonista, mesmo quando só está a existir.
Fiquei convicta da sua paixão pela arte – no caso, o cinema; não porque a procurou em livros e revistas para fixar termos técnicos – mas porque procurou dentro de si a razão das suas emoções ao ver um filme. E achou-a.
Quando Marcel Duchamp apresentou Fonte – um urinol de cerâmica, invertido e assinado
R. Mutt – na exposição da Sociedade para Artistas Independentes de Nova Iorque, em 1917, o presidente da sociedade terá então comunicado à imprensa que Fonte «não era uma obra de arte, sob qualquer definição».
Apesar de não ter sido aceite na exposição – ou talvez por isso mesmo – a obra de Duchamp serviu, como nenhuma outra até então, para pôr em causa o conceito de arte.
Escreveu-se, a propósito, na revista The Blind Man, sob o título «O caso Richard Mutt»:
É irrelevante que o Sr. Mutt tenha ou não
feito a fonte com as suas próprias mãos.
Mutt ESCOLHEU-A.
Pegou num objecto vulgar do dia-a-dia,
colocou-o de modo a que o seu significado
útil desaparecesse sob o novo título
e perspectiva – criou um novo
pensamento para esse objecto.

Portanto, uma coisa é certa: foi tão difícil há 100 anos como é hoje uma nova assimilação do conceito de arte.
Um exemplo muito actual disso é a arte urbana – graffiti – que muitos consideram simplesmente ‘lixo visual’.
O conceito de que a obra de arte tem de ser produto das mãos do artista, ou que tem de ser esteticamente bela e tocante, ou ainda que tem que demonstrar mestria do autor face a habilidades que “os outros” não conseguem dominar [o tal ‘jeito para o desenho’ que tanto me irrita, por exemplo] está, então, pelo menos 100 anos desactualizado.

Nas definições mais recentemente debatidas, arte passou a ser um fenómeno filosófico, ou pelo menos intricadamente relacionado com a filosofia do pensamento actual – de qualquer tempo - especialmente no que toca à reformulação de ideias e conceitos, o questionar de temas, [re]lançar novas perspectivas sobre assuntos geralmente intocáveis. Não confundir, no entanto, com provocação pura e simples.

A arte, quer nos entre pelos olhos ou pelos ouvidos, é uma coisa sentimental. Definitivamente, entra-nos pelo coração e, por isso mesmo, difícil de justificar. Eu sei muito pouco sobre arte. Daquela que se decora, se calhar até sei, mas não o suficiente para fazer boa figura nos jantares de sexta-feira. Mas o que eu queria mesmo era ser artista. Eu sei que isto pode soar a sonsice, uma vez que os meus desenhos têm sido entusiasticamente elogiados. Mas, são desenhos, sabem? São retratos, paisagens, objectos urbanos que reproduzo como os vejo, ou os sinto. Aqui e acolá procuro novas plasticidades mas não têm alma de arte. São cópias.

Aqui há tempos, porém, sucedeu algo extraordinário. Pintei o meu primeiro quadro. Para quem o vê, este sim, é uma cópia. Para mim, é a expressão artística na sua forma mais pura: a intervenção sobre um mundo pragmático, procurando a subversão do evidente e a discussão dos temas sociais mais prementes. Dito assim até parece arte…




Moira de Trabalho
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quarta-feira, 3 de junho de 2009

A linha riscada ou A volta ao Tejo em 16 desenhos


Numa linha bem delgada,
Ponta fina e aparada,
Faz do risco uma meada
Ora lisa, ora engelhada.

Sempre a mesma linha, coitada,
Que deve estar, pois, cansada,
Leva a margem e a estrada
Juntas na mesma penada

Passa a ponte bem esgalhada,
Pl’os barcos no porto, à entrada,
Armazéns e carros na parada
Que já foi, em tempos, d’ Armada.

Faz do vento montada
Foge à estação numa rabanada
Que a leva seca, não molhada,
À outra margem, a de Almada.

E sem se dar conta é chegada
Ao mesmo ponto da largada,
Lá começa de novo, bem riscada,
A linha sem fim, e ainda assim, acabada.

Moira de Trabalho

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O novo Terreiro do Paço

vira o disco e toca o mesmo
«A mim, preocupa-me não os revestimentos do chão,
nem tão pouco o trânsito em redor da praça;
tão unicamente, a caracterização e utilização
da praça como espaço urbano “de estar”,
assim como uma grande sala.»
In Público (2/4/2009) Ana Henriques
«Arquitecto responsável pela remodelação da Praça do Comércio apresentou ontem os seus planos à Câmara de Lisboa. Não haverá calçada portuguesa no terreiro. (…)
É um Terreiro do Paço dividido ao meio por um corredor entre o arco da Rua Augusta e o rio, aquele que o arquitecto responsável pela remodelação da praça, Bruno Soares, ontem apresentou à Câmara de Lisboa.(…)

Mas pelas explicações dadas pelos autarcas à comunicação social percebe-se que abdicou de soluções mais tradicionais, como a calçada portuguesa.
Bruno Soares optou por um pavimento amarelo-ocre onde surgem alguns losangos de basalto negro a contrastar com o chão cor de terra. Em redor da estátua de D. José haverá mármore verde a chamar a atenção para o monumento de bronze. "Achei a solução bastante interessante e arrojada. Mas vai dar discussão", preveniu a vereadora independente Helena Roseta. Acima de tudo, agradaram aos autarcas os detalhes técnicos: a praça vai ser infra-estruturada para receber espectáculos - que serão pontuais - e a drenagem das águas pluviais também não foi esquecida. De resto, é o que já se sabia: passeios mais largos e o trânsito a passar apenas nas ruas paralelas ao rio.
A Rua do Arsenal fica reservada aos transportes públicos e a Ribeira das Naus aos automóveis. Nas laterais da praça não haverá trânsito - apenas esplanadas e eventualmente comércio debaixo das arcadas, no rés-do-chão dos ministérios. "Parece-me uma proposta muito consistente", declarou ainda Helena Roseta. O tipo e a cor do pavimento servirão também para distinguir os vários usos da praça. Assim, o tal corredor entre o arco da Rua Augusta e o rio, feito num material diferenciado do restante, servirá para assinalar um percurso pedonal de fruição do local. A área do cais das colunas terá igualmente um pavimento próprio.
Árvores, como já ali existiram noutros tempos, não haverá. Bruno Soares disse que quando for preciso criar zonas de sombra por causa do calor será preferível montar toldos. A solução não é consensual: "Não sei se não seria melhor haver árvores", observou a vereadora comunista Rita Magrinho. (…) Já o independente Carmona Rodrigues vê com bons olhos a divisão do Terreiro do Paço ao meio pelo corredor em direcção ao rio: "Um dos problemas da praça é a sua dimensão quase excessiva". A ser aprovada, esta solução deverá estar concretizada em Outubro 2010, para as comemorações do centenário da República. »
É sempre uma questão de ponto de vista.
Com certeza vai gerar celeuma, ou não fosse hábito as opiniões divergentes dos portugueses em geral e dos alfacinhas em particular.
Acho até que é uma das nossas melhores característica: expressar opiniões, de preferência contra.
Eu também sou pelas árvores, se tecnicamente possível (p. ex. se houver cota suficiente de terreno abaixo do pavimento, para as raízes).
Gosto muito de ver a Praça nas fotos antigas quando ostentava árvores e que, além de sombra, conferem sempre um ar de coisa viva ao cenário.
No entanto, parece-me má ideia optar por soluções só porque em tempos já foi assim: quer-se calçada portuguesa porque já ali existiu e é típica da cidade.
Se formos por aí, então ergam-se novos pelourinhos para queimar bruxas que também já lá estiveram.
Temos que reconhecer que apesar de muito bonita e característica, a calçada portuguesa não é de todo confortável para caminhar e, devido à consistência multifacetada da sua superfície, tem tendência para criar depressões e abrir buracos.
E depois acrescem os custos de manutenção.
A mim, preocupa-me apenas e só uma coisa: não os revestimentos do chão, nem tão pouco o trânsito em redor da praça.
Tão simplesmente a caracterização e utilização da praça como espaço urbano “de estar”, assim como uma grande sala. Essa preocupação deverá, em meu entender, estar no topo dos objectivos que ali se devem atingir ou a praça permanecerá “às moscas”, como tem sido habitual, ou mais raramente “aos barris”.
Há petróleo no… Terreiro!
É certo que não podemos comparar o Terreiro do Paço à Plaza Mayor ou mesmo a Trafalgar Square, simplesmente porque este nosso quadrado urbano tem um lado aberto ao rio – que ali mais parece mar. Portanto, as intempéries serão, seguramente, imprescindíveis de controlar, seja de que forma for [vide Estação do Oriente].
Diversas utilizações foram, por isso mesmo, dadas à praça ao longo dos anos de modo a não incluírem o termo “estar” mas sim “de passagem”.
E os carros estacionados foram, durante anos, o mais claro exemplo dessa política.
Sinceramente, não me parece que toldos possam cumprir essa função.
Depende da sua configuração mas, já que estamos com as mãos na massa, porque não aproveitar para retirar o ar de parque de estacionamento vazio à praça?
Sei lá, umas construções artísticas, mais ou menos fixas, que pudessem dar nova interpretação à volumetria urbana e, em simultâneo, albergassem espaços de estar.
Esse “estar” podia ser tão amplo como ‘esplanar’, deitar na relva, abrigar sob uma árvore, percorrer instalações sazonais ou qualquer outra interpretação que se queira dar ao verbo. Lembrei-me do Richard Serra e das suas esculturas habitáveis.
É que esta coisa do limpinho e lisinho irrita-me.
Mais descaracterizado não há.
Os técnicos chamam-lhe “espaço expectante”.
Não tem lá nada para que qualquer coisa possa ser ali colocada no futuro e depois, coisa nenhuma surge, não vá conspurcar a brancura do cenário.
Antes os carros lá estacionados! A praça ficou feia, é certo, mas ao menos tínhamos
o parque de estacionamento mais bonito da Europa!
Moira de Trabalho

terça-feira, 28 de abril de 2009

As Mulheres da minha Vida

O desenho do corpo humano é o último
na pirâmide da gratificação.
É compor e reproduzir,
com o grau de semelhança que se quiser,
o mais perfeito e fascinante objecto.
E, ainda por cima, fala!

É um lugar-comum dizer que não se é nada se não fossem as mulheres que fizeram parte da sua vida: a mãezinha, uma avó extremosa, a professora primária que lhe ensinou o gosto pelas letras, a tia viúva que o introduziu nas artes do amor…
É um pena, mas não é o caso.
As mulheres da minha vida, sendo de carne e osso, são afinal de grafite e carvão, no papel.

Desenho, com hora marcada, todas as terças feiras à tarde, mulheres nuas.
Não é um fetiche; é uma aula.
O curso é técnico.
O Design quer-se uma disciplina séria, com parâmetros rígidos de actuação; matérias matemáticas e condimentos técnicos são o alimento do jovem estudante de Design (por favor, leia-se disain e não désain, como tantos insistem…). Pelo menos, é assim que os meus directores
querem vender o curso.





Eu não podia estar mais em desacordo.
Se acredito que foi preciso, a seu tempo, deslindar o Design das Belas-Artes, para se perceber que o designer é um acatador de encomendas, por oposição ao artista que cria a seu bel-prazer, hoje, perante as matérias tão técnicas que nos invadem as universidades, acho mais que oportuno reclamar a Arte para o Design.
A discussão do que é, ou não é, Design já não se coloca; a forma segue a função, neste sentido e não no antónimo, é uma máxima que tem sido apreendida pelo comum dos mortais. Já se percebeu que quando não funciona não há design e que uma peça não pode ter mais design que outra: ou tem, ou não. Pode é ser mais bonita, agradável, apetitosa, que outra. Mas lá está, se não funcionar…
A Arte, por seu lado, não se explica. Não tem função aparente e no entanto as maiores civilizações da história desvendam-se pela sua arte. O artista é um pária e, não obstante, imensamente adulado nos círculos da arte, especialmente depois de morto; a Arte é gratuita e desinteressada e, ainda assim, é ver obras custar o equivalente ao PIB de uma pequena república africana.
O que tem de bom, então, a Arte? A meu ver, a liberdade.
Do artista e do observador (não gosto do termo apreciador que lhe confere um estatuto elitista). Livre de criar, livre de lhe emprestar significados; livre de conceitos, livre de preconceitos; vem de dentro e retorna, noutro corpo, para dentro, para a alma.
Agora digo-vos: é imperioso que se ensine jovens universitários a despertar para o tema da observação e representação através do desenho, com sentido artístico; usam-se modelos nus. Prefiro a mulher pela sua inquestionável superioridade em relação ao homem – é mais bonita, mais poética, sedutora; é a ninfa dos poetas e a musa dos escultores.
E tudo isto acontece no decorrer de um curso supostamente técnico.
Faz sentido? Todo.
O desenho do corpo humano é o último na pirâmide da gratificação.
É compor e reproduzir, com o grau de semelhança que se quiser, o mais perfeito e fascinante objecto.
E ainda por cima, fala!
Tem personalidade, tem carácter, tem autonomia.
E tudo isso pode o desenho captar.
Têm dúvidas?
Olhem para as mulheres de Ingres e sintam a sua sensualidade; deliciem-se com a melodia que cantam as mulheres de Matisse; deixem-se envolver no bailado das mulheres de Degas e, por fim, viajem com as nativas de Gauguin.
A técnica não se suporta por si.
É sustentada pela estética, pela arte.
Caso contrário os projectos de arquitectura seriam feitos por engenheiros!
… Ãh? São?!... Estão aqui a dizer-me que sim,
que os projectos de arquitectura podem ser assinados por engenheiros... Sabiam disto?
Será que explica a qualidade de alguma arquitectura que alcatifa Portugal, de norte a sul?
Eu disse “alguma”? Foi benevolência minha.
Seguramente diferente de desenhar um carro - que adoro de paixão - ou uma paisagem que sempre me arrebata, não poderei nunca comparar o prazer que sinto ao desenhar o corpo de uma mulher a qualquer outro que já tenha experimentado.
E ainda fico com uma recordação do momento.
Quem pode gabar-se do mesmo?
Ei! Polaroid não vale!!

Moira de Trabalho

terça-feira, 14 de abril de 2009

A Casa da Música (des)afinada

Como peça de arquitectura
parece-me um exercício egoísta:
“projectei assim porque sou capaz!”
é o que me diz toda a peça arquitectónica,
à medida que percorro
os seus insondáveis caminhos.
Mas se calhar sou eu que estou a ouvir mal…

Muito já se escreveu sobre o tema: as derrapagens orçamentais, os prazos largamente excedidos, entre outros temas quentes.
Não sei se aqui no Galo o assunto já foi debatido. Além da preguiça avassaladora em pesquisar no histórico de posts, achei que, se encontrasse algo provavelmente isso iria demover-me deste e por isso, nem procurei. Bendita ignorância, uns dirão; “Por que no te callas?”, dirão outros.
E assim me atrevo:
A minha visita a este espaço cultural deixou-me com a boca a saber a papel de música – passe o pleonasmo.
Querem acreditar que não consigo ter uma opinião formada quanto à estética do edifício?
Qualquer miúdo de 6 anos sabe se gosta ou não; eu não sei.
Esta súbita ignorância que me brindou enquanto ainda desenhava adveio disso mesmo: o facto de se estar a desenhar algo “à vista” força-nos a que estejamos sempre a questionar as opções tomadas no desenho. Passo a explicar: esta linha está com a mesma inclinação daquela? Até onde vai esta curva? O tecto está direito? As linhas de perspectiva das juntas da pedra estão convergentes para o horizonte?

Acontece que, por razões óbvias, neste local os arquétipos são, na sua génese, díspares, isto é, não há muitas concordâncias de espaço. A inclinação do tecto não corresponde à do chão; as juntas da pedra são propositadamente oblíquas; os corredores são declives, as janelas trapézios.
Perante isto – e para se continuar no rigor pelo desenho – começa-se a “copiar por cima”. Parece batota mas não é. Trata-se de olhar para o objecto e desenhá-lo como se de um produto abstracto se tratasse. Esqueçamos que aquilo é um tecto e isto é uma janela; desenhemos, pois, rectângulos, trapézios e todos os polígonos que vemos como isso mesmo – apenas polígonos.
Confusos? Imaginem, então, que não falam uma palavra de sueco. Se precisarmos de aprender rapidamente a dizer “olá” não vamos aos livros; ouvimos o vocábulo nativo e tentamos reproduzir o som. Por vezes até inventamos uma grafia – mesmo que mental - que corresponda a esse som, para que saibamos repeti-lo. Pois bem, essa grafia é este tipo de desenho – “o copiar por cima”, desligando-se da matriz real e dando-lhe outro[s] significado[s].
Já repararam, certamente, que muitas vezes me incluo no desenho que faço. Este é o caso em que, ao inserir-me no contexto, contribuo para acrescentar alguma ‘realidade’ ao objecto desenhado. E um ponto de referência, também.
Nestes precisos desenhos eu necessitei mesmo de me incluir neles pois estava de tal forma abstraída na cópia do emaranhado de formas que facilmente me distanciei do desenho
– e quase me perdi.

E foi isso que também me aconteceu lá, na Casa da Música, ao percorrer todo aquele emaranhado de espaços – perdi-me. Não exactamente no sentido geográfico mas mais precisamente no sentido da assimilação e compreensão da arquitectura. A abstracção foi para mim, demais; distanciei-me do propósito do edifício; ausentei-me da sua lógica e perdi-me.




Agora, não sei se gosto ou não dele.
Apenas posso assegurar que dentro dele dá para fazer uma infinidade de desenhos desafiantes.
E, ah, isso eu gosto!

Moira de Trabalho

terça-feira, 7 de abril de 2009

Desalinho na Linha


Fui ao Porto, no Alfa.
O charme do comboio (TGV para quê mesmo?) não chega para apagar a impressão com que se fica em 2/3 da paisagem rural e urbana do centro/norte.
Desabafo como o escrevi, na altura.
Que me perdoem os puristas da métrica, da sintaxe, da rima e até de Portugal!


Tão feio que é este portugal
Que viaja comigo, à janela
Linha fora, a paisagem que era bela
Num horror desalinho sem igual

Casinhas aos magotes, sem eira
Nem beira, sem traça, que desgraça…
Alpendres de azulejos, castanhos!, como se quer
Bidés, antenas, fardos nos telhados
Tudo vale neste salve-se quem puder

É ver hortas nos quintais
E nos sótãos, pombais
E pelas couves ladra um cão
Sempre à corrente, nunca pela mão

Sucatas, bidons, galinhas e sei lá que mais!
Espantalhos de lata dão milho aos pardais

Tudo isto é vê-lo desfilar, sem descanso
Impondo-se como regra, constante desafio
Onde vale mais: fazer da terra ranço
Ter a casa habitada de bafio
Fazer sala na barraca do quintal
Ter tudo pintado cor de breu
Tomar banho e ainda assim cheirar mal!
A não ter nada a que chamar seu…

Moira de Trabalho

segunda-feira, 30 de março de 2009

A Paisagem da Vizinha

O caminho da arte é sempre duro,
sinuoso e, por vezes, inútil.
Mas uma vez percorrido, é ver ali
uma auto-estrada de oportunistas,
buscando dividendos
e apregoando mecenatos.

Paisagem: do francês Paysage.
Extensão de território que se abrange num só lance de vista;
panorama; vista;
espaço geográfico com determinadas características.

"...Já morei em vários locais, sempre na mesma cidade.
Também passei infâncias e adolescências em casas de férias,
de avós ou, mais recentemente, minha.
Em qualquer uma delas, habituei-me a olhar pela janela
e chamar ao que via paisagem.
Pode ser um risco essa decisão, vim a perceber mais tarde,
quando confrontei o conceito geográfico de paisagem
com aquele retrato ambíguo,
emoldurado pela janela do meu quarto.
É que a definição sugere uma certa, se não harmonia,
pelo menos unidade; refere “determinadas características”
que, tomadas de levezinho podem, de facto, ser quaisquer umas.
Mas se formos mais puristas não é estranho concluirmos
que essas características deverão ser definidoras
de uma certa matriz, envolvendo objectos, floras, arquitecturas,
aparentadas entre si, como uma família.
Os conceitos são apreendidos, com frequência
mais intuitivamente que racionalmente.
Os novos conceitos surgem-nos muitas vezes
por explicações objectivas, concretas: mobbing, microcrédito,
deflacção, sustentável.
Estes são recentes; chegam pelo noticiário da noite,
geralmente explicados por um trio de peritos que debitam
umas frases-bomba e que passam depois em rodapé,
com direito a parangonas.
Já os conceitos que assimilámos de forma intuitiva raramente
nos foram explicados – e quase nunca os pomos em dúvida.
Não me recordo de ter perguntado o que era a Felicidade,
ou de ouvir nos bancos da escola a noção de Pobreza.
E também assim foi com Paisagem. Entranhou-se e pronto.
Não admira, pois, que a Paisagem tenha sido um elemento
tão preponderante no trajecto das Belas Artes
– principalmente na Pintura, Literatura
e, mais recentemente, na Arquitectura.
A sua indubitabilidade recheada de encanto, ora bucólico,
ora urbano, tem sido ponto de partida
– e por vezes também de chegada – no percurso de artistas,
que pela pena ou pelo pincel, tentam captá-la,
dominá-la, homenageá-la.
Não raras vezes saí de casa, de caneta em riste e bloco à bandoleira,
procurando paisagens à espera de serem desenhadas.


Algumas estão ali mesmo, em pose. São inequívocas. Ostentam todos os pequenos galardões próprios ao título: o riacho serpenteante, as montanhas em fundo, com sorte a casinha de pedra, rústica como se quer; outras são menos óbvias. Haveria que ter um olho clínico mais treinado para as [des]encantar. Normalmente urbanas, fecham-nos os horizontes e enchem-nos de preconceitos. Pode o Cacém ser um manancial de recantos desenháveis? Sempre gostaria de saber que tem Alfama a mais – ou a menos - que origina aquela nascente de portfolio dos artistas da Rua Augusta…
Estará a nossa cultura visual contagiada pelo preconceito social, ao ponto de nos toldar o discernimento na hora de escolher o desenhável? Pode esse preconceito estender-se a todas as artes, procurando o feio apenas para cenário de dramas e o bucólico para desenlaces felizes? A realidade imita a ficção, diz-se. E a arte imita a vida. Esta pescadinha de rabo na boca assume-se, portanto, perigosamente convincente e os telejornais têm-lhe dado razão.
Se assim for – e pela minha própria experiência diria que sim – importaria saber o que leva o artista a seguir convenções pseudo-sociais em detrimento de seguir o instinto observador que, em princípio lhe dá razão, e em fim lhe trará alento. O caminho da arte é sempre duro, sinuoso e, por vezes, inútil. Mas uma vez percorrido, é ver ali uma auto-estrada de oportunistas, buscando dividendos e apregoando mecenatos.














Eu não aspiro a ser artista. Tenho mais com que me preocupar, como a Paz no mundo, o tal Ferrari amarelo e, sobretudo, emoldurar na janela do meu quarto a paisagem da vizinha que será, seguramente, muito melhor que a minha."

Moira de Trabalho

quarta-feira, 18 de março de 2009

Tautologia

Morra o Dantas, morra! Pim!
Manifesto pró-figura-de-estilo
Há dias [atrás] quando postei [do bem português verbo “postar”]
no nosso blog [de origem grega, como se sabe, pois vemo-nos gregos
para lhe achar a origem semântica] uma colectânea [de um conjunto]
de desenhos acerca de uma viagem ferroviária [de comboio]
até à cidade basca de Bilbao [no País Basco],
um dos comentários, observado pelo Sr. Anônimo,
revelava assertiva e revoltosa indignação [sinónimos, por sinal]
devido ao facto de eu ter usado uma recorrente
e muy nobre figura de estilo da língua portuguesa: a Tautologia
ou, como melhor a conhecemos, o Pleonasmo linguístico
ou ainda, a popular Redundância.
[Já agora], quantas contou até aqui?
À boa maneira de Almada Negreiros, Poeta d’Orpheu, Futurista E Tudo,
não poderá este senhor ficar sem a resposta – que, neste caso,
roçando a desculpa, acaba por assumir-se mais como um manifesto,
um manifesto em defesa da figura de estilo!
Basta Pum, basta!!!
Eu sei que este marcador do Blog do Galo se denomina Figura sem Estilo,
mas também não havia necessidade de me atirar isso à cara l
ogo na minha estreia literária, não é, Sr. Anônimo?
Além disso, se aspiro a ombrear com os maiores da língua portuguesa
– sim, que pelos feijões não estaria aqui!
- não concordará o Sr. Anônimo que até comecei bem?
Se não, repare nos exemplos que lhe deixo:
“Perdigão perdeu a pena…” Luís de Camões. Fraquinho, dirá.
É só uma aliteração. A repetição de sons consonânticos.
Tem razão. Não se trata de uma redundância.
Esta repetiria, mais do que o som, a própria ideia expressa.
Temos, do mesmo autor, o famoso “Vi claramente visto o lume vivo”
[verso I, estrofe 18, canto V, “Os Lusíadas”].
Espere lá que aqui já temos mais qualquer coisa!
Não é que este malandro coloca uma aliteração [do som “V”],
um pleonasmo [repetição da ideia de ver] e até – imagine só!
– uma metáfora [lume vivo refere-se ao fenómeno marítimo
comummente conhecido como fogo de Sant’Elmo] na mesma frase?!
Ena pá! Isso é que não, ó Camões!
Não vês que estás a adulterar a língua portuguesa
para formatos inimagináveis?
Qq dia destex o pexoal n sab excrever nada d geito á tua konta, pá!
[calcule só que nesta frase escrevi
diversos erros ortográficos intencionais…].
“Vê-se claramente visto que há coisas que são ditas
não pelo sentido verdadeiro do que é dito,
mas antes por um estranho prazer de as dizer”. Nuno Furtado.
E eu concordo inteiramente com este senhor
[pelos vistos o Camões também].
E que prazer deve ter tido o senhor que se segue quando,
magistralmente, se saiu com este:
“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!”. Fernando Pessoa
Para terminar, uma oferta de paz, Sr. Anônimo.
Uma exaustiva colecta de fenómenos linguísticos,
todos eles pleonásmicos, redundantemente pleonásmicos.
Confesse, Senhor Anônimo, aqui no Galo que ninguém nos ouve,
que pelo menos por uma vez terá proferido
uma destas heresias da língua portuguesa, e, simultaneamente,
deliciosas figuras linguísticas.
Olha! Não é que fiz uma antítese?
Ou será um paradoxo??
- elo de ligação
- acabamento final
- certeza absoluta
- quantia exacta
- nos dias 8, 9 e 10, inclusive
- juntamente com
- expressamente proibido
- em duas metades iguais
- sintomas indicativos
- vereador da cidade
- outra alternativa
- detalhes minuciosos
- a razão é porque
- anexo junto à carta
- de sua livre escolha
- todos foram unânimes
- conviver junto
- facto real
- encarar de frente
- multidão de pessoas
- amanhecer o dia
- criação nova
- retornar de novo
- empréstimo temporário
- surpresa inesperada
- escolha opcional
- planear antecipadamente
- abertura inaugural
- a última versão definitiva

Moira de Trabalho ( Texto e Desenho)

segunda-feira, 9 de março de 2009

A Viagem de Penélope

Um Diário Gráfico é assim
uma espécie de máquina fotográfica
com o defeito de não captar
exactamente aquilo que lá está
mas aquilo que estamos a ver.
"...No tempo em que o ensino superior não era bolonhês
como o spaghetti, houve por vezes, tempo e espaço
para se reinventar aulas, neste caso, aulas de Desenho.
Sabemos por experiência que uma rotina semântica,
repetida à razão de um semestre sobre outro
pode rapidamente tornar-se enfadonha.
E unidades curriculares semestrais podem, por isso,
tornar-se desprovidas de encanto e apelo.

E assim, certa vez para quebrar a rotina, em vez de salas de aula, habitámos por 12 horas in-a-row o mítico comboio Sud Express, rumo a Bilbao, com o propósito de elaborar um Diário Gráfico de viagem.
Um Diário Gráfico é assim uma espécie de máquina fotográfica com o defeito de não captar exactamente aquilo que lá está mas aquilo que estamos a ver – produto da nossa presença no espaço, da nossa visão, da experiência e vá lá, se quiserem, na nossa aptidão.
Esta última – vulgarmente designada de “jeito” – está, a meu ver, em definitiva concordância com a vontade do seu executante, pelo que aquele que persiste obtém e aquele que desiste sucumbe perante a facilidade de atribuir a um dom divino a capacidade de desenhar.
E isso é muito mais fácil fazer.


Só por si, as viagens de ida e volta neste regional trans-pirinéus, davam para encher os tags de um blog por duas semanas.
Em 24 horas assisti, como diz o povo, “com estes olhos que a terra há-de comer”, a:

…um casal de estrangeiros que viajava (por engano, acrescente-se) no nosso compartimento, foi algemado e obrigado a descer na fronteira de Vilar Formoso, mais as suas três enormes malas que viajavam sobre as nossas ingénuas cabeças – ainda hoje me arrepia pensar no seu insondado conteúdo;
…um pica-bilhetes espanhol que me chamava “chica” e “guapa” a toda a hora, não sem rolar os seus grossos dedos na minha desprevenida bochecha, perante o olhar incrédulo dos meus alunos que se apressavam a fazer uma espécie de cordão de segurança em meu redor;
… bandos de pequenos portugueses emigrantes – como os “pardais” da canção, se bem que estes todos maiores de idade – cujas bagagens se resumiam a imensas paletes de plástico de cerveja Sagres. Não deve existir em França, pensei…
Porém, antes da chegada ao destino já estavam todas deitadas abaixo, assim como os fiéis depositários do líquido dourado, com as típicas manifestações do tipo extroversão, particularmente evidentes quando tentei percorrer aquele exíguo corredor ao longo da carruagem – fugindo dos dedos grossos – pedindo licença a cada aglomerado de paletes e obtendo, em troca, além de pouco espaço, alguns aconchegos verbais que incluíam, quase sempre, menções a Nosso Senhor, elogios à minha mãezinha e convites, mais ou menos decentes, a compartilhar o espaço em sua companhia. “Qual espaço?” perguntava-me eu…









.

Chegados a Bilbao, debatendo-nos com o frio molhado daquelas latitudes, estávamos mesmo, em outro mundo.
Como podem cerca de 1000km fazer tanta diferença?
Não me venham com cantigas de que a Europa já anda a uma só velocidade.
Aquela cidade existe para além da provinciana Lisboa como Paris já o fez na mesma medida há 200 anos atrás.
Não cobiço o estrangeiro por mania, apregoando-lhe todos os predicados, enquanto repudio a minha terra.
Não, de todo.
Simplesmente, há fenómenos sociais e culturais que saltam aos olhos – tendo quase sempre como pano de fundo a cidadania e o civismo.




Um meu aluno, ao aperceber-se na rua de inúmeros casais homo, homens e mulheres, perguntou à jovem recepcionista do nosso hotel se haveria uma qualquer parada gay por aquela altura.
Pois haviam de ver o olhar curioso da menina buscando nas ruas, sei lá, algum folclore e aparato colorido típico desses corsos.
Só encontrou, claro, casais de mãos dadas,
como todos os dias, independentemente do seu género. Não havia notado nada. Pois claro!
Nunca lhe foi dada a conhecer outra realidade que não aquela.
Cresceu e foi educada na diversidade e isso fez daquela menina uma jovem cosmopolita onde a palavra “diferença” se aplica apenas às opiniões e aos gostos – e nunca à discriminação
Noutra ocasião fomos surpreendidos por uma educadíssima funcionária da companhia dos carros eléctricos que, percebendo na Central alguma atrapalhação nossa em recuperar o troco na máquina de venda automática de bilhetes existente em qualquer paragem, veio ao nosso encontro, em plena carruagem e, dirigindo-se certeiramente a nós por entre várias dezenas de passageiros, devolveu-nos o dinheiro que havia ficado retido na máquina, juntamente com um sorriso e um tímido “Have a good day!”.














Ainda hoje me pergunto
como diabo aquela senhora nos encontrou no meio de tantos iguais(?) a nós?”. Prefiro pensar que haveria um registo vídeo na paragem e que, dessa forma, pudera observar-nos e, consequentemente, identificar-nos na carruagem.
Senão, sou levada a crer que o provincianismo não se vê pelas cidades per si, mas principalmente pelos seus naturais.
Os japoneses “vestem” máquinas fotográficas ao pescoço;
e nós, portugueses, o que vestiremos nós?
nota final: Penélope, a fiel e paciente esposa de Ulisses, permaneceu no seu lar enquanto o marido se metia em trabalhos, aquando do regresso da guerra de Tróia.
E se Penélope tivesse partido à aventura, pergunto eu?
Teria desenhado muito?"

Moira de Trabalho

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Moira de Trabalho strikes again...

Comecem por clicar no primeiro link para entenderem bem tudo o que a Moira de Trabalho, esta rapariga é mesmo uma moira de trabalho, tem para nos mostrar, desta feita.

http://www.youtube.com/watch?v=fEXhsNMiLnw

"...Trata-se da minha humilde participação (Mentira! É auspiciosa embora possa não soar!) no concurso do Google 10 to the 100 no qual se pretende premiar a ideia que possa ajudar mais pessoas no mundo inteiro (eis o link oficial: http://www.youtube.com/watch?v=NgSRwOZtDQ8).

No vídeo só eram permitidos 30 segundos de edição mas no formulário de apresentação da ideia tive oportunidade de expor exaustivamente o projecto.
Aqui, sucintamente, para que fiquem a par, o meu conceito trata de utilizar um tipo de plástico até há pouco tempo não reciclável (embalagens de víveres de supermercado) e que os brasileiros descobriram um meio de o reciclar, fazendo “tábuas de plástico” (ver http://www.youtube.com/watch?v=dibC9M-AFr8).

Aproveitando essa tecnologia, eu proponho toda uma estrutura, a nível dos municípios ou juntas de freguesia, com pontos de recolha desse tipo de plástico e transporte às oficinas das próprias autarquias/juntas de freguesia.
Aí, através de simples processo de moldagem, seriam fabricados os contentores BabilonYa, sendo depois distribuídos gratuitamente à população/fregueses.

A ideia é utilizar as coberturas planas dos prédios das cidades, pátios, quintais ou mesmo varandas como pequenas hortas privadas onde cada um cultivaria produtos hortícolas, pomares, flores ou simplesmente relva.

A ideia não é nova. Já a Quercus lançou um repto designado Hortas Urbanas. Os benefícios são por demais evidentes: cultivo mais barato, economia doméstica, troca de produtos entre vizinhos, menor dispêndio de energia no cultivo e transporte(!) de víveres para o interior das cidades, etc., etc..

A junção dos conceitos Reciclagem + incentivo dos Municípios + Horta Urbana é que, no conjunto, pode resultar em algo novo.

O nome que escolhi, é evidente…
O pormenorzinho do Y maiúsculo reporta-se à imagem de uma árvore.
Mariquices de designer… "

Moira de Trabalho

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A apresentação da Moira de Trabalho

A Moira de Trabalho, nickname que tem muito a ver com ela,
é uma jovem arquitecta portuguesa que, a partir de agora,
vai começar a colaborar com o"Galo" através da sua escrita
e dos croquis dos imensos diários gráficos, que transporta para todo o lado.
Enquanto não chega esse material e, pregando-lhe uma rasteira,
aqui fica o último mail que me enviou.
Espero que o pequeno filme anexo sirva para elevar a nossa auto estima colectiva.

"...Vejam este excerto de notícias da CBS sobre o desenvolvimento de energias alternativas em Portugal – esse mesmo, o nosso.

http://www.cbc.ca/mrl3/8752/news/features/durham-portugal081020.wmv

Viva!!!
Já não somos os homenzinhos baixotes de boina

e as mulheres de lenço preto e bigode!!
A imagem que estamos a projectar de nós, Portugal, está a mudar.
Esta é a nossa nova identidade.
Acreditemos nela e cada um sairá mais confiante e orgulhoso da sua parte neste trabalho.

Para ser franca, estou cansada de dizer mal: da crise, do Sócrates, da economia em regressão.
Na verdade, que estou eu a fazer para mudar esse estado de coisas, além de continuar a trabalhar com afinco?
Estou a enviar este e-mail aos meus amigos para me lembrar que o meu país também é meu nas horas difíceis; dizer mal “deles” – essa entidade mística que representa grosseiramente os autores das desgraças – não me está a levar a lado nenhum. O “nós” será sempre muito melhor que o “eles”.
Eu quero acreditar num futuro melhor. Eu quero fazer parte desse futuro.

Uma boa vida para todos vós!"

Moira de Trabalho