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quarta-feira, 28 de abril de 2010

Portugal - A História e o 25 de Abril - Fernando Pinto

Não valerá a pena contar toda a história de Portugal, de triunfos e fracassos, de venturas e desventuras, de vitórias e derrotas.
São quase 900 anos de eventos, uns bons e outros maus, se nos quisermos cingir só ao tempo que nos separa do nascimento da nacionalidade.
A verdade é que se Portugal então nasceu é porque já alguma diferenciação germinava, alguma coisa nos distinguia dos outros povos peninsulares.
Fomos assim, paulatinamente e com o feliz naco de Mundo que nos calhou em sorte, construindo uma entidade forjada em etnias e cumplicidades várias, construindo qualidades e defeitos muito nossos, muito enraizados nesta estranha maneira de ser à beira-mar, à beira-Mediterrâneo-já-Atlântico plantados.
E nesta duplicidade de sermos o norte do Sul e o sul do Norte temos vivido.
Cedo, muito cedo mesmo, batemos o pé ao “rei dos Reis” que era então o papa, reivindicando para o Portugal nascente e para o primeiro rei que escolhemos, nascido Afonso filho de Henrique, o seu reconhecimento.
E também o reconhecimento do primeiro bispo, o célebre bispo negro que seria, aparentemente, um mouro converso do Algarve de aquém-mar.

Depois, quando por iniciativa própria nos lançámos em frágeis cascas de noz feitas de dionisinos pinheiros que fixavam as areias de Leiria, voltámos a impor a nossa vontade, na divisão do Mundo em duas metades.
A linha divisória foi por nós definida em acordo directo com o nascente Reino de Espanha, mesmo contra a vontade do castelhano papa Alexandre VI.
Ele terá tido a percepção de que, a partir desse momento, o poder de decidir quais e de quem eram as terras deste mundo lhe fugia definitivamente das mãos.
Aproveitou-nos durante quase um século.

Em 1580, e depois de mais de cem anos de tentativas de unidade ibérica sob a coroa portuguesa, D. Sebastião, o imberbe e impulsivo rei-menino, não gera descendência e tudo deita a perder nas areias do Algarve de além-mar, em Alcácer-Quibir.
Perdeu-se o rei sem que nenhum nevoeiro no-lo trouxesse de volta, mas mais, perdeu-se o reino e a independência.
A tecitura de laços para que as coroas ibéricas nos caíssem no regaço tinham urdido uma realidade contrária, e era em Madrid que então se encontrava o herdeiro dos dois impérios dos novos mundos do Mundo.
E por lá ficaram, durante 60 anos, as rédeas conjuntas dos dois impérios então filipinos.
Não sei se por bem, mas porque grandes naus geram grandes tormentos, em 1640 a independência caiu-nos no colo quase sozinha.
Bastou um simples abanão num tal Miguel de Vasconcelos para defenestrar o poder espanhol. Por muito que se diga, tal só prova que a identidade portuguesa tinha forjado, mais do que uma autonomia de que se podia prescindir, um país e um povo com querer próprio.
E o império português lá seguiu viagem!

Pouco mais de cem anos depois, o maior sismo de que há memória na Europa sacode Lisboa, o Algarve, Portugal.
Enterrados os mortos, os portugueses começam a fazer renascer das cinzas uma pujante Lisboa pombalina que impõem ao Mundo como a grande metrópole moderna, vontade insofismável de um povo que se quer triunfador.
Seria sol de pouca dura, pois a Inquisição logo afugentou quem não era cristão e com eles o dinheiro e o comércio do ouro, dos diamantes e das especiarias.
Ainda hoje, para ver esses antigos judeus portugueses, basta ir à velha Flandres e lá estão eles, com o resplandecente comércio de sempre.

É portanto um país pio, católico, apostólico e romano mas mais pobre, que cerca de meio século depois, volta a tremer, agora sob a ameaça de uma nova vaga francesa inspirada na jovem independência americana.
Prometia repúblicas, liberdades e direitos iguais para todos. “Liberté, Égalité, Fraternité”, clamava-se então na Comuna, agitando reis, clero e nobres de toda a Europa.
A onda rebelde tudo contagiava numa Revolução Francesa que se originava na nascente burguesia mas que alastrava aos sans-cullotes, aos pés-descalços dessa Europa faminta e sem direitos.
É no remoinho dessa agitação que, interpretando-se a si próprio melhor que à Revolução, Napoleão toma o poder, toma a França e decide tomar a Europa.
Explorando a confusão entre revolução popular e ditadura populista de um revolucionário, avança contra reis e regentes em todas as direcções.
Foi quando olhou para Poente que o rei de Portugal, com o tempo que lhe dava a distância de Paris, decidiu deslocalizar-se para uma parcela mais segura do império.
E o Rio de Janeiro passou a ser a capital deste Reino de Portugal de áfricas, índias e brasis, com um pezinho na Europa.
Quinze anos volvidos lá chega o rei de torna viagem, deixando um império chamado Brasil nas margens do Ipiranga.

E a vida correria, ora remansosa ora agitada, ora progressiva ora conservadora, durante todo o resto do século, já sem escravos mas com um diligente e pouco cultivado povo a trabalhar com afinco.
Viram-se chegar os comboios e as estradas e partir grandes fatias do império: a Índia reduziu-se a Goa, de África ficou Angola e Moçambique sem mapas de qualquer outra cor e no Pacífico resistiu Timor.
Portugal redimensionava-se, enquanto monarquia constitucional, à força que julgava ter.
Afinal, a Comuna de Paris e a "Declaração dos direitos do Homem e do Cidadão" não tinham sido completamente em vão e pelo parlamento passavam monárquicos, republicanos, socialistas e liberais, numa policromia intelectual que ilustrava o pensamento que se construía mas que não chegava à rua.
Na rua, era o Portugal da Severa e do Conde de Vimioso, da boémia e da pobreza, das emigrações em massa para os brasis e dos aristocráticos Vencidos da Vida.
Tudo denunciava a já clara obsolescência do regime monárquico que veio a desembocar na proclamação da República, faz agora cem anos.

Tal como os seus mentores, a República nasceu burguesa e assim se manteve, enredando-se nas polémicas caseiras dos seus dirigentes e definhando pela indefinição de um claro campo social. Foi dessa fraqueza confusa que emergiu, qual mítico e sebastiânico salvador, um professor de Coimbra, inquisidor demoníaco e lúgubre ditador que fez do nosso país a cadeia e a cadeira onde por quase meio século se sentou até partir.
Sem deixar o mais leve vestígio de saudade.

E tudo recomeçou numa radiosa madrugada de Abril, porque tudo acontece de madrugada. Saídos da guerra fratricida nas colónias para a urgência da luta fraterna nos novos países, os militares redimiram uma peleja velha de séculos e devolveram os novos mundos ao Mundo. Com eles, povo em armas deste país, se acertaram as contas com a história e se fez de cravos uma revolução que ficou nos anais da história do Mundo!
Mais uma vez o Mundo era o nosso palco.
Mas a generosidade não conseguiu contrariar a castração que a caricata ditadura nos tinha incutido e onde tudo era decidido por um só homem e por pequenos poderes.
Não se extirpou essa gangrena e hoje aos pequenos poderes somam-se os grandes rancores e as incompetentes invejas.
Por acomodação ninguém é capaz de ser responsável e a culpa morre solteira. E virgem.
O que se diz e o que parece é mais importante que o que se faz.

Já se espera um Sebastião que a tudo e todos haveria de salvar, esquecendo que só nós nos podemos salvar.
É em nós, só em nós que reside a esperança.
É em nós, só em nós que reside o futuro.
Nós somos o nosso próprio 25 de Abril, ciclicamente renovado.
Assim o prova a nossa História.
Viva o 25 de Abril! Viva Portugal!

Fernando Pinto

sexta-feira, 26 de março de 2010

"Há só uma Terra!" ou a teoria da borboleta! - Fernando Pinto

Já aqui disse e repeti que a crise só será ultrapassada quando nós, todos nós, mudarmos de hábitos, de tipo e de ideal de vida.
Se não o exprimi com estas palavras, foi com outras que queriam dizer exactamente o mesmo. Tudo isso implica responsabilizar não só o Governo, como parece ser tão do nosso agrado, mas responsabilizar todos e cada um de nós, Governo incluído.
O que quer ainda dizer que não é só o Governo que tem de mudar; nós também.
E as mudanças podem e devem ser grandes, mas também podem ser pequenas porque, não nos iludamos, é o nosso estilo de vida, incluindo o sistema de gestão e utilização de recursos, que é insustentável.

“Há só uma Terra!” é uma frase em que, de tão repetida, deixámos de pensar.
Repetimo-la como se fosse uma evidência (que é), que outros (e não nós) ainda não tivessem compreendido, mas a verdade é que nós já nos esquecemos do seu verdadeiro conteúdo: tornou-se uma frase feita.
E a realidade é precisamente essa: há mesmo só um planeta Terra e é ele que tem de dar para todos.
Compete-nos a nós trabalhar nesse sentido e com essa consciência, alterando o que houver que alterar.
É impossível que todos possamos ser “Carlos Slim”, o mexicano que é, este ano, o homem mais rico do planeta Terra, mas tal não significa que todos tenhamos de morrer à fome, de ser escravizados ou de ter uma existência abjecta, como têm milhões de seres humanos um pouco por todo o planeta Terra.
Será algures no meio, que deverá estar a virtude.
Há que gerir recursos em nome do planeta, de todos nós e de todos os seres vivos (animais e plantas) que a ele têm tanto direito quanto nós.
Nascemos neste e planeta e dele somos um produto, tanto quanto um embondeiro de África ou um pinguim da Antárctida.
Antes do aparecimento da Humanidade já o Planeta Terra existia e seguramente depois do seu desaparecimento, continuará a existir.
Compete-nos a nós tornar a nossa existência o mais agradável e harmoniosa possível, mas isso não pode ser feito hipotecando o futuro dos habitantes da Terra, dos filhos dos nossos filhos ou, a continuarmos nesta espiral frenética, já dos nossos filhos.
Tornemos a nossa existência no Planeta Terra uma verdade tão duradoura e equilibrada quanto possível.
“Pois”, parece-me que estou a ouvir dizer “isso é tudo muito bonito, mas como?”
Imaginemos, por exemplo, que os horários das lojas, das fábricas, dos departamentos de Estado, das câmaras, se desfasavam.
Não precisava ser um grande desfasamento.
Bastava que os horários de entrada fossem, por exemplo, entre as 8 e as 10 da manhã, com os consequentes desfasamentos da saída do almoço e da tarde. Seria a grande confusão? Parece-me que não.
Era tudo uma questão de se saber a que horas funcionavam uns e outros e ter horários de sobreposição para que pudessem comunicar.
Que se ganhava com isso? Provavelmente, menores engarrafamentos em estradas e ruas, e maiores desdobramentos em autocarros, metros, comboios, eléctricos, trolleys, etc.
De alguma forma, racionalizava-se a utilização dos transportes facilitando a circulação de pessoas, e deixava de ser tão premente a utilização de carros privados.

Desconcentrando a utilização de transportes públicos pela sua dispersão no tempo, abria-se a possibilidade da redução do número de veículos, que assim também circulariam melhor e portanto com menores consumos.
Passaríamos ainda a ter “picos” de consumo de energia menores porque mais alargados no tempo, o que implicaria uma melhor rentabilização da rede eléctrica, cuja ampliação ou reforço passaria a ser menos premente.
Utilizando a imaginação e a teoria do caos (aquela do bater das asas da borboleta num lado do Mundo), poder-se-á chegar a hipóteses fantásticas. Imaginemos também que o preço dos produtos variava com a sua distância desde o local de produção até ao local de venda ou consumo, assim como se existisse um “imposto de poluição de transporte”.
Tal implicaria que se transformaria num luxo consumir alho chinês (coisa muito mais frequente que o que você pensa) e que as produções hortícolas nacionais seriam muito mais frequentes nos nossos supermercados.
Quem ganharia? Todos! A agricultura nacional (de qualquer país) passaria a ser mais forte e menos vulnerável às produções agrícolas externas, ajudando ainda à diminuição do desemprego; o terreno agrícola seria revalorizado; a construção tenderia a ocupar os terrenos menos produtivos, equilibrando o mercado.

Cada tema em que se pega é um mundo de falta de senso e portanto de possibilidades de se poderem optimizar as actuais formas de utilização desses mesmos meios e de se equacionem novas formas de vida mais amigas do ambiente e do Homem.
Só como ironia e provocação, lembremo-nos que, em muitas cidades, as pessoas correm para os ginásios, stressadas e velozes nos seus carros poluentes, que estacionam em parques sobrelotados (que logo depois se esvaziam por períodos mais longos que os de utilização), para praticar corrida em passadeiras rolantes eléctricas…
Então uma corridinha num parque urbano, entre árvores e arbustos, não seria muito mais retemperadora e ecológica?
Isto para já não falar da diferença de custo de cada uma das actividades.

O disparate é livre, tal como a imaginação: imagine você também como pode optimizar os seus actos mais gastadores e inimigos do ambiente, porque a imaginação tem asas.

Fernando Pinto

sexta-feira, 19 de março de 2010

Primavera, bom tempo e outros temas - Fernando Pinto

Creio que nunca uma primavera foi tão desejada quanto esta!
Ainda Dezembro não chegara e já o tempo era de Inverno. Assim, este foi o Inverno mais extenso e também mais rigoroso de que me lembro: o sol não aparecia, a chuva fazia-se diariamente presente, o vento levava à frente tudo o que podia, o frio apertava.
A Terra, completamente encharcada, cansada de água, esgotada de neve e gelo, protestava em silvos contínuos que anunciavam tragédia.
As derrocadas eram uma ameaça diária e as catástrofes sucederam-se na Europa, em África e nas Américas, em particular onde a gula dos homens tinha usurpado o espaço da Natureza.
Por cá, tocou-nos a Madeira.
Andar por Portugal hoje, é ver campos onde cada pequena depressão regurgita água, terrenos mal sustidos invadiram estradas, povoações e casas, estufas de culturas de inverno parecem antigos recintos de batalhas campais.
Felizmente, há barragens repletas, geradores eólicos que giram sem parar e, agora, o sol brilha! Antigamente, dir-se-ia que este iria ser um grande ano agrícola mas o que se come já não é, em grande parte, cá produzido.
A importação parece ser a única actividade agrícola nacional enquanto muitos campos e muitos homens descansam, sem querer, de anos de trabalho.
Também o “Fabricado em Portugal” já viu melhores dias e hoje, indústria que se preza, actua preferencialmente na exportação enquanto que nós consumimos, de braços cruzados, espanhol, chinês, tailandês ou brasileiro.
Diga-se que nada tenho contra estes povos mas, igualmente, também nada tenho contra o meu. A acrescentar a (ou será “por causa de”?) tudo isto, o desconforto de uma crise anunciada, salários a que sobra mês, meses a que não sobra nada, gente que se amontoa às portas do desemprego.
E depois, conceitos de justiça (leia-se injustiças) que não se entendem, opções de desenvolvimento pouco explicadas, decisões de investimento que parecem fora do tempo.
Pode ser que tudo tenha uma razão de ser, que tudo tenha uma justificação, que tudo deva ser assim.
Mas então que seja explicado o porquê, o como, o quando.
Por exemplo, não entendo porque se querem comprar submarinos, se navios oceanográficos e navios de patrulha das águas territoriais seriam muito mais eficazes e rentáveis no controle e fiscalização da nossa imensa Zona Económica Exclusiva.
Não entendo porque não se vai adaptando a rede ferroviária nacional à bitola europeia (facilitando a circulação dos produtos portugueses), em vez de se concentrar todo o esforço de investimento no TGV.
Não entendo porque se querem privatizar empresas estatais portuguesas que estão bem administradas e geram lucros, e se injecta dinheiro dos contribuintes em bancos privados com antigos administradores detidos ou sob suspeita.
Olhado para tudo isto como se não fosse o meu país, eu diria que Portugal tem tudo para ser um país tranquilo e feliz, só que parece não querer.
Parece estar à espera de descobrir petróleo ou diamantes ou qualquer outro “Sebastião” que o tire de apuros, sabendo desde já que esse salvador não existe.
O outro, o verdadeiro, o que realmente existiu, também não nos salvou de nenhum perigo. Portugal terá de compreender que só ele se pode salvar mas que, para isso, só pode contar consigo, isto é, com todos nós.

Claramente, o sol, quando nasce, é para todos mas, no caso português, ele beneficia mais uns que outros, o que nos leva a descrer na igualdade perante a lei e perante o Estado.
Fosse “o sol português” mais equitativo e tudo seria mais fácil ou, no mínimo, menos penoso. Mas esse sol só pode existir se nós assim o decidirmos e nós, até agora, ainda não o decidimos. Esperemos que o sol que agora já se vê signifique nova força mas também nova equidade.
Assim todos nós o queiramos, assim todos nós o decidamos, e o futuro será o que construirmos.

Fernando Pinto

sexta-feira, 12 de março de 2010

Portugal:Produtividade e Competitividade vs. Criatividade, Inovação, Capacidade de risco e Coragem- Fernando Pinto

Vivemos tempos tristes e confusos.
A qualidade e a produtividade dos operários e outros trabalhadores portugueses sempre foram internacionalmente reconhecidas e enaltecidas.
A qualidade do trabalho produzido nos inúmeros países para onde os portugueses emigravam sempre manteve abertas as portas a novas vagas de emigrantes portugueses.
Não era sem algum orgulho que, nas férias de verão, eram acolhidos “franceses”, “americanos”, “brasileiros”, “angolanos” e “venezuelanos” de torna viagem, para só citar alguns, ostentando o sucesso que por lá tinham conquistado e que o torrão natal lhes negara.
Não se desmentirá o duvidoso gosto que muitas das casas por eles construídas testemunhavam, mas também não se pode desmentir a vontade de mostrar, no país de origem, aquilo de que eram capazes.
Os que cá ficaram dificilmente tinham possibilidades de ombrear com os “estrangeirados”: parecia que, não obstante o seu esforço, o trabalho por cá não rendia.
Nunca ouvi dizer a nenhum emigrante que em Portugal se trabalhava menos que nos outros países, mas sim que se trabalhava pior.
Internamente, nunca a produtividade foi nessa altura um problema que se levantasse, vá-se lá saber porquê…
Talvez porque aumentar a produtividade implicaria novas e melhores ajudas, em máquinas e organização, aos operários ou seja, investimento; no dizer de então, “gastar dinheiro”. Provavelmente por isso a produtividade não era um problema que se colocasse: os salários eram muito baixos e o lucro sobre o produto final compensava sempre.
E assim se ia vivendo. Depois, coincidindo com o 25 de Abril, veio o fim das grandes correntes emigratórias.
Alguns ficaram por lá (onde quer que esse “lá” fosse) porque já tinham lançado à nova terra filhos e raízes, outros voltaram transplantando indemnizações ou reformas mais generosas que as que por cá se viam (quando se viam…).
E o país recomeçou o desenvolvimento de que tinha sido arredado por 48 anos de obscurantismo e tacanhez, acabados em 13 anos de uma guerra que significou sangria de força, de inteligência e de recursos.
Portugal arriscou finalmente a democracia e o parlamentarismo verdadeiro e dotou-se de condições mínimas para reentrar no “concerto das nações”.
Cidades, vilas e aldeias iluminaram-se com a electricidade levada até onde ela antes não existia, a água foi canalizada até quem tinha sede e os telefones e a televisão ligaram ao Mundo quem antes dele estava isolado.
Portugal passou a ser um país mais moderno, solidário e sorridente, menos antiquado, solitário e macambúzio. Era a revolução.
Novas indústrias e novas tecnologias foram introduzidas por novas empresas estrangeiras, novos métodos de trabalho foram testados pela internacionalização do país e do capital.
Portugal entrou na competição pela incorporação de trabalho nacional em produtos de empresas multinacionais e para cá vieram muitas fábricas que o passaram a utilizar. Competitivamente. Nunca essas empresas se queixaram de falta de produtividade, nunca nenhuma deixou o país por falta de competitividade do trabalho nacional.
Hoje, vemo-nos a braços com “faltas de produtividade” e outros chavões que desmoralizam qualquer cristão e que nos prenunciam tempos ainda mais difíceis e penosos.
Quem então não promove a produtividade? Quem então não proporciona meios para que se atinja a competitividade pretendida? Que meios são necessários para se obter a produtividade de outros países?
Não creio que se possam culpar os trabalhadores que, desde sempre, se esforçaram por merecer o dinheiro que recebem.
Acho que deveremos procurar outras causas. A falta de motivação parece ser um dos grandes factores de desalento, tal como a falta de perspectivas de futuro.
Nas empresas, os métodos de organização do trabalho são por vezes empíricos e obsoletos.
Tal como a maquinaria utilizada.
Na verdade, a capacidade de produção do Mundo ultrapassa, numa parte substancial, a capacidade de consumo deste mesmo Mundo.
O resultado é que os produtos nem sempre encontram escoamento e, para se tornarem vendáveis, têm de ser concorrenciais e das duas, uma: ou têm características particulares, ou têm de ser mais baratos.
Por cá, apostou-se no que era mais efémero ou seja, no fazer mais barato á custa dos salários pagos e da falta de investimento em equipamento mais eficaz.
A entrada da China no Mundo do comércio anulou estas vantagens de “produtividade” e hoje só se safam os produtos que têm características particulares, porque contra eles não há concorrência.
É por isso que só os produtos que são únicos ou que têm imaginação incorporada singram na exportação.
Veja-se o Vinho do Porto ou alguns produtos ligados à computação e aos telefones celulares, por exemplo.
Mas para isso têm os patrões, os designers, numa palavra, quem exerce a “massa cinzenta”, que puxar por ela e integrá-la nos produtos a exportar, tornando-os únicos e/ou mais eficazes que os outros.
Não acredito que o fascismo, serôdio e letárgico, tenha anulado as capacidades de inovação e inventividade que os portugueses demonstraram ao longo dos séculos e em particular nas Descobertas: desde sempre que o mar estava aí para todos mas foram os portugueses que, arriscando, inovaram e deram “novos mundos ao Mundo”.
Ouvindo muitos, é certo (a célebre “Escola de Sagres, cheia de árabes, judeus, mouros e cristãos), mas decidindo pela sua própria cabeça, os portugueses estavam na frente.
Sabe-se que as Descobertas exigiram criatividade, inovação, capacidade de risco e coragem. Tudo coisas que os portugueses têm e sabem utilizar, assim o queiram os donos do dinheiro.
Mas isso exige esforço e demora algum tempo: exactamente o tempo que Portugal demorará a sair da crise.

Fernando Pinto

sábado, 6 de março de 2010

Cuidemos melhor do nosso território - Fernando Pinto

Parece que a chuva não nos larga.
A chuva, o vento e o frio fustigam Portugal, a Europa e o Hemisfério Norte de uma forma inusitada.
Basta ver televisão para nos darmos conta que o fenómeno não é só português.
Por toda a partes, os campos estão alagados, os rios transbordam dos seus leitos tradicionais, tudo está empapado em água.
Poderão dizer o que quiserem, mas será muito difícil não associar tudo isto às alterações climáticas para que os meteorologistas e os ecologistas nos têm vindo repetidamente a alertar. Estamos habituados a que nos falem destas coisas e que imediatamente, nada aconteça.
É que os avisos têm sido oportunos e enquanto tal, feitos com antecedência suficiente para que mudássemos os nossos hábitos e práticas.
Feliz ou infelizmente, o nosso planeta tem o seu próprio tempo de reacção e as repercussões só aparecem quando os factores em presença (os previstos e eventualmente outros que ainda não medimos) se conjugam. É por isso difícil prever a dimensão que as coisas tomam.
Isto, para além das perturbações geradas pelo próprio planeta: não esqueçamos que o potente sismo do Chile da passada semana terá provocado um desvio do eixo terrestre de cerca de oito centímetros.
Isso são coisa que não se podem (pelo menos por agora) prever e muito menos controlar.
Mais: não podemos sequer prever quais as repercussões que tal desvio poderá vir a ter nas condições ambientais da própria Terra, nem quando.
Aqui vivemos e esse é o preço que temos de pagar.
E seria só esse, se a espécie humana, graças à sua incrível inteligência, curiosidade e capacidade de transformação, não tivesse ela própria originado alterações incomensuráveis, à escala do próprio planeta.
É por isso que os desequilíbrios ecológicos se fazem sentir mais onde as condições ambientais foram mais fragilizadas.
Vejamos a Ilha da Madeira onde parece ter sido prática corrente a ocupação do leito de cheia das ribeiras: enquanto não há chuvas anormais, isto é, enquanto os leitos de cheia não são precisos, tudo se passa no melhor dos mundos.
É quando as condições são anormais, como este ano, que a tragédia bate à porta: impossibilitada de ocupar todo o leito de que necessita para dar vasão a toda a água que choveu, porque este foi indevidamente ocupado, a água salta fora dele e transforma-se num monstro disforme, imprevisível e incontrolável.
Claro que aí já não estamos só em presença de água, mas de uma massa de água misturada com terra e tudo o que de indevido foi construído nesse território que não podíamos ocupar porque fazia parte do sistema de defesa da própria Terra.
O mesmo aconteceu em França há dias: perguntam-se os franceses porque é que lá há mais de setenta mortos e em Portugal e Espanha, com exactamente a mesma tempestade, só houve um total de três.
Acho que têm de se ser um pouco mais precisos e perguntar por onde passou a tempestade e que condições físicas encontrou por onde passou.
Tal e qual como na Madeira: que saibamos, embora tenha chovido o mesmo por toda a ilha, foi sobretudo na baixa da cidade do Funchal, e na Ribeira Brava (este nome deve querer dizer alguma coisa…) que houve os mais graves problemas.
Valerá então a pena perguntar porque não aconteceu no resto do território e creio que a resposta se encontra na transformação desregrada da Natureza provocada pelo Homem.
Ou seja, não foi só de chuva que se fez a catástrofe, mas da incúria e da inconsciência transformadora do próprio Homem.
E é com isso que é urgente aprender, ou os mortos de agora terão morrido em vão.
A melhor forma de homenagear os que perderam as suas vidas ou as viram irremediavelmente transtornadas, é aprender com os erros cometidos.

Exija que todo o território seja coberto por regras de ordenamento paisagístico.
Exija que existam planos de ocupação e utilização do território.
Cumpra e faça cumprir as regras urbanísticas.
Cumpra e faça cumprir as regras de construção dos edifícios.
Se não entende porque existem as regras que estão em vigor, pergunte porque existem e exija respostas claras e completas.

É para salvaguarda de todos nós que o deve fazer.
É sobretudo para salvaguarda das condições de vida e segurança física dos filhos e netos que nos seguirão que deve exigi-lo.

Temos de viver em harmonia com a Natureza e o planeta que habitamos porque, já o sabemos, se houver guerra, é ele que ganha.

Fernando Pinto

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A Madeira avisa: cuidemos melhor do nosso território - Fernando Pinto

Era para mim impensável deixar passar em claro a tragédia da Madeira.
As vidas humanas não têm preço, diz-se, e na verdade não é de preço que se fala: todas as vidas que desaparecem significam perdas incalculáveis, dramas indizíveis, famílias destroçadas.
Era por isso impensável não discorrer aqui sobre este drama, de que apenas nos apercebemos dos contornos imediatos.
Os que ficam terão de enfrentar a destruição, o vazio, a alteração súbita e violenta dos seus ambientes de vida, mesmo se conseguiram passar fisicamente incólumes por esta provação. Sente-se, subjacente aos relatos jornalísticos, a necessidade quase inconsciente de encontrar um responsável, um bode expiatório para tanta desgraça.
Parece ser essa a prática normal nos tempos que vão correndo, em substituição de uma mais coerente e consistente análise dos factores em jogo.
Há, em primeiro lugar, que aceitar desde já que a queda de água foi excepcional.
Poderemos procurar nas alterações atmosféricas causadas pelo aquecimento global uma razão para isso, mas a verdade é que a ciência ainda não conseguiu compreender tudo o que se passa no Universo (e ainda bem!).
Continua a haver lugar ao inexplicado, que por enquanto se mantém como inexplicável.
E aqui abre-se espaço para respostas mais ou menos esotéricas, mais ou menos divinatórias (no que a palavra tem de divino e de adivinhação), mas não é por aí que valerá a pena ir.
O que sabemos é que estes fenómenos excepcionais ocorrem em ciclos bastante longos, mas ocorrem. Há até uma expressão consagrada que é a “cheia dos cem anos”.
Isso, sabemo-lo de ciência vivida! Também sabemos que já se começam a fazer sentir alterações climáticas que serão fruto da poluição global e de outros factores cuja origem tem sido atribuída à actividade humana desregrada e excessiva.
Tem-se dito ainda que as alterações não chegarão de rompante (assim como o comboio que chega ao fim da linha), mas surgirão através de agravamentos sucessivos das condições actuais. Traduzindo tudo isto, e a atribuir o que agora se passou à alteração global das condições climatéricas, será de prever que situações semelhantes se venham a repetir num futuro menos longínquo que o que estávamos habituados.
O “ciclo dos cem anos” para cheias e fenómenos semelhantes, parece estar a encurtar o seu ciclo. Em consequência, surgem outros factores: se o risco de uma cheia de 100 anos era uma coisa que poderia até ser aceite, o encurtamento deixa de o ser.
Pretendo com isto dizer que, a verificarem-se as condições tradicionais, poderia ser tentador voltar a construir sobre o “leito de cheia dos cem anos”, pois só daqui a cem anos poderiam ocorrer condições semelhantes, e entretanto o edifício teria cumprido o seu ciclo de vida.
A questão é que com o previsível encurtamento dos ciclos, com o agravar das condições, essas cheias podem vir a acontecer com muito mais frequência e em plena vida dos edifícios.
Do ponto de vista das povoações por onde passam as ribeiras e levadas, a questão é ainda pior: entravar a natural fluidez dos leitos dos rios e das suas margens alagáveis provoca o transborde das águas.
Uma vez saídas dos seus leitos, as águas tomam ímpetos imprevistos e causam destruições tão grandes quanto desnecessárias.
Haverá portanto que reanalisar todos os pressupostos do planeamento e do desenvolvimento dos centros urbanos, de modo a precaver pessoas e bens da fúria das águas que saltam dos seus leitos sem aviso prévio ou complacência, causando dor, destruição e morte.
Se esses não foram os pressupostos no passado, que o sejam no futuro.
Poderá ninguém será culpado agora, mas passará a sê-lo se não aprender com o sucedido. Gostaria que o trágico exemplo da Madeira fosse tido em conta também no Continente.
O que ocorreu lá pode facilmente ocorrer cá também. Os pressupostos do desenvolvimento urbano são os mesmos, e o desrespeito consentido é exactamente igual: somos portugueses uns e outros (mesmo ao arrepio do que alguns dizem).
Do ponto de vista dos poderes públicos (em especial das câmaras municipais), haverá que ser mais exigente na definição dos planos directores e mais rigoroso no seu cumprimento, nomeadamente através da cuidada análise dos pedidos de construção.
E deve-se justificar cada decisão positiva ou negativa, porque elas não podem nem devem ser aleatórias nem ficar-se nas justificações ”que só os técnicos compreendem”.
É que há locais aparentemente fantásticos onde tem de ser proibido construir, por exemplo, porque são leitos de cheias de 100 anos, ou porque são bacias de infiltração que não podem ser impermeabilizadas, ou por mil outras razões nem sempre são fáceis de perceber, é certo, mas que têm de ser explicadas.
A verdade é que a pressão pública para “a asneira” é grande e muitas vezes, não só os grandes mas também os pequenos poderes e as pequenas corrupções, deitam a perder anos de trabalho e de controlo do território de que tanto precisamos e de que tanto dependemos.
“O meu caso” é sempre excepcional (pelo menos para quem o apresenta) mas muitas excepções tornam-se regra e assim tudo é deitado a perder.
Não pode haver excepções. O território tem de ser usado com parcimónia, tratado com cuidado e gasto com moderação porque, não o esqueçamos, o território é um recurso não renovável.
Caso contrário, todos perderemos, como agora ficou bem patente na Madeira.

Fernando Pinto

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Fernando Pessoa, Salazar e a Coca-Cola

Uma arreliadora avaria informática na crónica que tinha escrito deitou o ficheiro a perder. Ficheiro irrecuperável. Foi tudo para o lixo, na impossibilidade de o abrir. Com ele, foi também a minha paciência e até o tema que abordara. Porque aconteceu, como e quando, são para mim mistérios: eu sou apenas um mero utilizador. Assim, e já “para lá do prazo”, vejo-me na contingência de ter de voltar a alinhavar uma meia dúzia de linhas para que esta semana, a pena continue a correr. Não sei se os leitores do Blog dariam por ela, mas eu daria com certeza: este vício de escrever, como diria Fernando Pessoa, “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Já agora, e segundo li, Fernando Pessoa inventou esta frase quando, tal como tantos outros escritores portugueses enveredou pelo mundo da publicidade. Ele terá sido só o primeiro (e provavelmente o maior) dos nomes grandes da literatura portuguesa que por aí tentaram buscar sustento, que o país iletrado que éramos (e funcionalmente ainda somos) não permitia a quem dependia da caneta (esferográfica, lápis, máquina de escrever e, mais modernamente, computador) de sequer levar uma vida digna. José Carlos Ary dos Santos e Alexandre O’Neill são só outros dois.

Mas, voltando à frase de Fernando Pessoa, devo dizer que, por ignorância, não sabia que a frase era dele, e ainda menos, qual a sua génese, a sua origem. Pois o Fernando Pessoa ele próprio (que nisto de Fernando Pessoa, há que ter cuidado de quem se fala) tentou inventar uma frase que apelasse ao aumento do consumo de… Coca-Cola em Portugal! Imagine-se, a grande bebida americana, na altura, em expansão, socorreu-se da imaginação de Pessoa para a sua expansão no mercado português. Corria o ano de 1928 e a frase é sem dúvida de grande qualidade. A bebida já se vendia bem, mas sabemos quanto a Coca-Cola aprecia e promove a sua própria publicidade. No entanto, como é sabido, a sua venda durou pouco: a Direcção Geral de Saúde decidiu proibir a nova bebida, argumentando que seria tóxica. Para isso, apoiou-se até na frase de Pessoa, argumentando que o slogan é ele próprio o reconhecimento da sua toxidade… Já era Salazar que por aí andava, novinho em folha e enganando alguns, entre os quais o próprio Pessoa, que inicialmente apoiou a ditadura. Mas o apoio de Pessoa foi muito efémero: os princípios salazaristas não se coadunavam com a sua maneira de ser nem com os seus princípios.

Não surpreende portanto que o mesmo Pessoa, passado algum tempo escrevesse sobre Salazar:

António de Oliveira Salazar
Três nomes em sequência regular...
António é António
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está tudo bem.
O que não faz sentido
É o sentido que isso tudo tem.

E como ele tinha razão!

Fernando Pinto

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Um Pinto a cantar no "Galo"...

A partir de hoje, e sem qualquer periodicidade, o Fernando Pinto, 'Amigo do Galo' há muitos anos, arquitecto de profissão e apaixonado( ..pela Vida, entenda-se!) por adopção, passará a enviar as suas 'Crónicas ao correr da pena'. Aqui está a primeira...

AS BURQAS QUE NOS ENFIAM

Quando há anos, no norte do Paquistão (em Peshawar), fui confrontado com o uso generalizado de burqas, esteticamente, não gostei do que vi.
Em particular, chocaram-me as burqas que encerram toda a mulher, incluídos os olhos, dentro de uma redoma opaca, que funciona como um fragmento ambulante da sua própria casa.
As ruas tornam-se estranhas procissões de drapejantes vultos, que se esgueiram de uma porta para outra, de uma loja para o interior de um automóvel, em pequeníssimos bandos de curtíssimos percursos.
Também se vêm duos ou trios carregando crianças, diligente e respeitosamente atrás de um homem, trajando “ocidental” ou igualmente enroupado e de turbante, mas de cara descoberta.
Deduz-se que serão as esposas (e os filhos) do todo-poderoso homem que as precede e conduz.
É um mundo desconfortável, de caras barbadas ou “não-caras” num oceano de panos, pálidas bandeiras esvoaçantes que rumorejam ao sabor do vento.
Eticamente, também não posso ser partidário de um traje que, em nome de uma prática religiosa, limita os movimentos, dificulta a vida e, sobretudo, estigmatiza a mulher como algo de que um homem se pode apropriar.
A partir desse momento (a puberdade), a imagem da mulher desaparecerá do Mundo e só existirá para e em função do seu “proprietário”.
Todo o panorama é indício de uma sociedade desigual, moldada em princípios que não são os nossos mas dos quais não estamos tão distantes quanto gostaríamos de estar.

Para tanto, basta lembrarmo-nos (os que têm mais de cinquenta anos e memórias de há quarenta) das aldeias da nossa infância, em que as mulheres andavam no seu dia-a-dia e iam para as igrejas enroupadas e veladas em preto, num luto que ia desde a morte dos entes mais queridos até ao fim das suas vidas.
As freiras de hoje em dia são talvez as últimas representantes (e, mesmo assim, muito mais “leves” no seu trajar) do que então era a imagem corrente da mulher portuguesa (e italiana, e grega, e…), sobretudo do meio rural.
Não imagino o que então aconteceria se então uma lei as tivesse proibido de andar assim trajadas, ou de serem obrigadas a entrar numa igreja sem véu.
Ou, pelo contrário, num acesso igualitário, um qualquer governo promulgasse que, a exemplo das cotas para deputados, o número de padres e restante hierarquia religiosa deveria ser ocupado em pelo menos 30% por mulheres.

Recordo que a revolta da Maria da Fonte, que acendeu todo o norte do país e fez cair governos, começou com a hoje óbvia proibição dos enterramentos dentro das igrejas.
Tantos outros exemplos poderiam ser dados do que é a força da mobilização popular face a coisas aparentemente pouco significativas, e que não lesam os outros.

É por isso que não compreendo a decisão do governo francês de proibir o uso da burqa e do niqab às mulheres islâmicas residentes em França, quando andarem nos transportes públicos ou se dirigirem aos serviços da administração pública.
Se bem que se diga que tal medida é tendente a aumentar a segurança pública francesa, porque debaixo de uma burqa se pode esconder um (ou uma) terrorista, a verdade é que não me recordo, até hoje, de qualquer atentado islâmico levado a cabo na Europa cometidos por mulheres.
Mesmo em atentados cometidos por mulheres em outros pontos do Mundo, não recordo que alguma vez tenha sido citada uma burqa como disfarce.
E de que é que adiantaria uma burqa, se a maioria dos atentados é suicida?
Não vejo, portanto, mais que uma medida prepotente de afirmação nacionalista que irá exacerbar os fundamentalismos islâmico e cristão, criando mais fracturas que consensos e promovendo a discórdia.
E logo no país que, em 1968, apregoou ao Mundo o célebre “É proibido proibir!”

Mais, Nicolas Sarkozy, presidente da França e filho de emigrantes, tem repetido que o uso daquele traje islâmico que cobre todo o corpo e rosto das mulheres “não é bem-vindo” em França.
Aparentemente, é uma frase que poderá ser interpretada como “aquele traje e tudo o que com ele é relacionado”.
Haverá seguramente quem a queira interpretar assim.
Entendo, por exemplo, que Osama Bin Laden tem, a partir de agora, e por muito demagógicos que possam ser, mais argumentos para seduzir descontentes.
Penso que a burqa é um meio de submissão da mulher ao homem, à luz de uma leitura do Corão que nem sequer é universalmente aceite.
Acho contudo que não é assim que essa submissão se combate.

O combate de ideias faz-se através da discussão dessas ideias e não através da imposição da lei pelo mais forte.
Precisamente por isso, critico também a obrigatoriedade de utilização do shador pelas mulheres ocidentais que visitam alguns dos países de maioria islâmica.
Creio que a razão se perde quando se legisla da mesma forma, porque se assemelha a desforra ou retaliação.
Extremam-se posições e criam-se zonas de fractura que só beneficiam quem pretende dividir para reinar.
Ao proibir-se o uso da burqa em França, embora (ainda) só nalguns locais, somos todos nós que a estamos a enfiar, e não as mulheres islâmicas que estão a ser forçadas a tirá-la.

Oxalá (o Insh´Allah que tomámos emprestado do Islão e que quer dizer “Queira Deus”) eu me engane.

Fernando Pinto