quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

David Beckham, o seu a seu dono

Elena di Cioccio é uma daquelas apresentadoras televisivas que gosta de tomar a medida das coisas. Curiosa, aproveitou a recém chegada de David Beckham a Milão para tirar a limpo uma dúvida que a atormentava. Elena queria saber se "material" de David Beckham era mesmo como aparecia num anúncio de roupa interior da Armani ou se as imagens tinham sido manipuladas, como se especulou no passado.


Assim sendo, nada melhor que verificar. A apresentadora de Le Iene (As Hienas), que não brinca em serviço, equipou-se de luvas amarelas, integrou um grupo de jornalistas que ia entrevistar o médio inglês e colocou mãos na investigação, deixando o jogador assustado ( reparem no profissionalismo de um dos guarda-costas). Tudo para esclarecer dúvidas. Parece que tirou conclusões que contrariam as declarações de Victoria Beckham, que falou, em tempos, das "golden balls" do marido.

Ora assistam, então, à performance...

Trabalho


quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Foxy Lady


...Será esta a célebre Cristina Almeida, mais conhercida como ' Foxy Lady'?

Perdoar ou não perdoar...eis a questão


Uma jornalista perguntou a um coronel do BOPE (polícia de elite do Rio de Janeiro) se seria capaz de perdoar os traficantes que derrubaram o helicóptero da PM matando 3 policiais.

A resposta foi rápida:
"Eu creio que a tarefa de perdoá-los caberá sempre a Deus. ~
A nossa tarefa é a de promover esse encontro..."

Enviado por Maria Moura

Amália - José Manuel dos Santos


A sua vida foi a sua voz. Quando esta se ausentou, aquela seguiu-a - e ela começou a morrer. Esses dias do fim foram um rio sem água. Amália era o seu canto. Sem ele, sentia-se como alguém que tivesse perdido o rosto. Ela cantava, cantando-se. Era esse o seu cogito: canto, logo existo. Quando subia ao palco, procurava a salvação. Antes, ficava assustada, com medo de que ela lhe falhasse. Por isso, caminhava para lá com a ânsia de quem se dirige a um duelo. Ao cantar, as suas pulsações saltavam de oitenta para cento e oitenta. Só quando os aplausos surgiam, ela conseguia desfazer a sua aflição, destruir o seu pânico. Uma noite, Amália estava no palco. Olhei-a dos bastidores e vi uma cabeça a fazer ângulo com o mundo e um corpo atado às palavras que iam sendo cantadas. Ela sabia que, muitas vezes, se dava um milagre. Um dia, vi-a regressar ao camarim ainda trémula de transe.

As grandes vozes não têm antes, nem depois. Levam o instante à eternidade onde as ouvimos. Aí, tudo se fractura e funde num grito que não alcança o fim. As grandes vozes são um convite à perdição. Escutamo-las e deixamos de ser quem somos, ausentes de uma presença que já não nos pertence. As grandes vozes são animais selvagens que se atiram ao mundo para o tragar. São um sinal de que o homem não se esgota no homem - e de que o homem não esgotou o homem.

Uma grande cantora começa por estranhar a sua voz e o prodígio dela, para depois a tornar causa do martírio, razão do êxtase, confirmação do ser. Principia por achar nela a sua virtude e acaba por torná-la o seu vício. Ouve-a no milagre de acontecer - e, em si, todas as linhas convergem para esse ponto. Sabe que a voz é sua, mas ouve-a como se fosse alheia. Troca-se por ela. Cada grande voz é o espelho de quem a tem. Já sem voz, Maria Callas olhava o espelho vazio e, para se ver, passou os últimos anos da vida a ouvir, nas gravações que lha restituíam, essa voz perdida. Escutava-a como ela era antes de se terem traído uma à outra. Ouvia-a como quem só percebe o que perdeu depois de o ter perdido. As cantoras falam da sua voz com uma superstição mais forte do que o orgulho. Para elas, o prodígio torna-se sempre um presságio. Quando a voz lhes morre, ouvem-na como aqueles que olham nos céus os astros já mortos que continuam a brilhar na noite intacta.

Agora, lembro esse tempo em que os meus dias corriam para as minhas noites. À hora em que as luzes se acendem, eu subia a escada da casa da Rua de São Bento. Na sala, Amália estava no centro de um círculo de olhares. Com uma inteligência capaz de destruir e de construir, com uma astúcia apta a salvar ou a perder, tinha resposta para tudo, menos para o que lhe era longínquo ou indiferente. Nessa sala de azulejos, madeiras e veludos, tudo o que acontecia apontava para ela. Era lá que escolhia o que cantava, que contava histórias, que ouvia louvores. Era lá que não ouvia o que não queria ouvir. Essa sala podia ser tudo: salão aristocrático, casa de fados, acampamento de ciganos, círculo cultural, capela de aparições, consultório de vidente, camarim de intrigas, palco de teatro, onde ela fazia de Amália e nós de seus adoradores, porque menos do que isso não aceitava. Todos passavam por ali: santos e pecadores, aristocratas e plebeus, marialvas e feministas, reaccionários e revolucionários, inocentes e perversos, génios e medíocres. Ela resistia a todos, a tudo. A sua conversa era sempre uma passagem para o seu mundo. Mas só não lhe interessava o que não tinha interesse.

Costumo repetir as palavras que me dão o seu melhor retrato: Amália gostava de rir e de chorar. Tudo o resto lhe parecia inútil ou desnecessário. Ela afirmava: antes mal acompanhada do que só. Pagava por isso um preço elevado. Alcançavam-na e ela não se retirava. Levavam-na e ela deixava-se ir. Pediam-lhe e ela dava. Gostava que gostassem dela. Disse-me: "Que gostem às vezes de mim não chega. Preciso que gostem sempre. Mesmo quando não o mereço. É então que ainda preciso mais que gostem de mim."

A exposição "Amália Coração Independente", que está até ao final do mês no Museu da Electricidade e no Museu Berardo, é feita de imagens, sons, registos, documentos, objectos. De jóias, vestidos, vozes, memórias, testemunhos, obras de arte. Atravessamo-la e somos atravessados por ela. Aí a vemos perfeita e humana, jovem e idosa, encenada e espontânea, amada e caluniada, portuguesa e apátrida. Devolvida ou revelada, aí a recuperamos, a reconhecemos, a redescobrimos. Uma visitante dizia para uma amiga: "Ela era muito bonita quando era nova..." Uma espanhola, parada em frente dos diamantes, exclamava para o namorado: "Son las joyas de una reina!" Eu ouvi-as dizer isto e dei-lhes razão.

Amália era a sua voz e a sua voz era uma visão do mundo. O canto de Amália vem da morte para a vida. Nele, a ave da tragédia levanta voo e lança sobre o mar a sua sombra enorme.

José Manuel dos Santos colunista regular do "Actual"

Militares de serviço


Os 'oficiais de dia', hoje, à Capoeira são o Angeli, o Fortuna, o Langer, o Máucio. o Santiago, o Simch, o Uberti e o Bosc. Não se esqueçam de lhes fazer continência...

XVI - Na Praia do Abano


Encaixada entre os promontórios rochosos que antecedem o Cabo da Roca, a Praia do Abano é uma praia de pequenas dimensões.
Embora o curto troço entre o estacionamento do Bar do Guincho e o local onde nos encontrávamos não se apresentasse nas melhores condições, a Cristina Almeida, a Foxy Lady tinha afinal apelido, metera-se por ele adentro como se duma auto-estrada se tratasse.
Cada vez mais me convencia que a minha condutora era uma mulher intrépida, habituada a não parar perante obstáculos maiores do que os solavancos que, num carro baixo como o dela, me iam rebentando com a coluna.

Agora, com o mar violento frente a nós e a ouvir os assobios do vento, igualmente poderoso, iniciámos uma conversa que se iria prolongar por várias horas.
A ventania do local não impedia, contudo, que meia dúzia de naturistas, com um inconfundível aspecto nórdico, passeassem lá em baixo, pela areia, que eu sabia fina e branca, de outras vindas anteriores ao local.

“ Comecemos pelo princípio” iniciou a minha enigmática interlocutora, pegando em mais um cigarro, talvez o décimo, desde o início do nosso percurso conjunto.
Recostei-me no assento de cabedal. A conversa prometia ser demorada…
“ Embora a vossa cabecinha de adolescentes pervertidos tenha imaginado que eu seria uma qualquer 'dominatrice' em ambientes 'sado' ou uma madame num lupanar de luxo…” um breve intervalo para inalar profundamente o fumo do cigarro, em que eu me tentei encolher o mais possível, de modo a tentar passar despercebido”…na verdade eu sou uma head hunter especial.”

Estive quase para lhe dizer que caçadora de cabeças, amazona seminua a seleccionar machos para os cruzar com as suas companheiras, era, igualmente, uma imagem que agradava à minha
mente de ‘ adolescente pervertido’ mas, algo na firmeza do maxilar da minha companhia me fez manter calado.
“ Especializei-me em descobrir pessoas especiais. Tanto podem ser mercenários para enviar para um qualquer país africano ou da América do Sul, como falsificadores para quem um quadro do Matisse ou do Picasso não tenham segredos.”
“ E quem são os seus clientes?” a minha pergunta era mais de circunstância do que outra coisa e destinava-se a que a conversa não se tornasse um monólogo.
Cristina não se fez rogada ao responder “ Podem se milionários texanos a quererem ter mais ‘originais’ do que o vizinho multimilionário do lado, marchands da Place des Vosges , ditadores africanos, industriais a precisarem de quem lhes faça espionagem na concorrência, vedetas do cinema a quererem provas que diminuam o valor da pensão de alimentos, enfim, uma infinidade de gente espalhada um pouco por todo o Mundo…”
Reconheço que as perguntas que me ocorriam, não seriam das mais inteligentes “…vedetas?”
“Sim, ainda agora um dos membros do casal mais mediático da 7ª arte, envolvido num divórcio em que as verbas atingem os 240 milhões de dólares, conseguiu, graças a mim, condições muito favoráveis…”
Resolvi não mencionar, sequer, os dois nomes que logo me ocorreram…

Mas Cristina Almeida, já reiniciara a sua dissertação sem se incomodar muito com a s minhas interrupções.
“ Digamos que trabalho muitas vezes nas franjas da Lei, mas tenho o meu código de honra que respeito e que nunca, mesmo quando os honorários são muito elevados, ultrapasso.”
Pensei para comigo que código de honra seria esse que englobava mercenários, espiões industriais e falsificadores de Arte, mas mantive-me calado.

“ É claro que me surgem também outro tipo de pedidos…” como o cigarro chegara ao fim, acendeu outro, de imediato.

Entretanto saíramos do carro e descido as escadas até à praia.

Soube-me bem o vento forte a desenhar-me no rosto riscos de areia.

“Que outro tipo de pedidos?”mal perguntei, arrependi-me logo. E se ela me respondesse, assassínios por encomenda, atentados? Em que situação é que eu ficaria?
Mas a resposta apanhou-me igualmente desprevenido.
“ Por vezes pedem-me que encontre especialistas num determinado escritor…
Ou como é que pensa que o Comendador Salcedas chegou até si?”

Bom


terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A Capa do Dia


Perguntas com 'aspas':
Mais de cem exames mensais por violações, serão exames escritos ou 'orais'?
Obras Públicas, 97% entregues por ajuste directo, haverá 'robalos' para tanta gente?
Função Pública sem aumentos 'reais', e que tal aumentos 'republicanos'?
Portugal vai emprestar 140 milhões de euros a Angola, não será mais prático mandar depositá-los logo na conta da ' filha do Man'?

Bela garrafeira


"...Quando quiserem vir cá para beber um copo, estão à-vontade

Um abraço..."

Mário Ortet

Nota do"Galo": E num prédio, o vizinho de baixo, não se importará?

Depende da forma de tratamento


Tu ou Você?
Parece que não, mas há uma grande diferença
entre o tratamento por tu, ou por você,


O Director Geral de um Banco estava preocupado com um jovem e brilhante director, que depois de ter trabalhado durante algum tempo com ele, sem parar nem para almoçar, começou a ausentar-se ao meio-dia. Então o Director Geral do Banco chamou um detective e disse-lhe:
Siga o Dr. Mendes durante uma semana, durante a hora do almoço.
O detective, após cumprir o que lhe havia sido pedido, voltou e informou:
– O Dr. Mendes sai normalmente ao meio-dia, pega no seu carro, vai a sua casa almoçar, faz amor com a sua mulher, fuma um dos seus excelentes cubanos e regressa ao trabalho.
Responde o Director Geral:
– Ah, bom, antes assim. Não há nada de mal nisso.
O detective pergunta-lhe:
Desculpe. Posso tratá-lo por tu?
Sim, claro — respondeu o Director Geral, surpreendido.
Então vou repetir: o Dr. Mendes sai normalmente ao meio-dia, pega no teu carro, vai a tua casa almoçar, faz amor com a tua mulher, fuma um dos teus excelentes cubanos e regressa ao trabalho.

Enviado por Quimera / MF

Serviço público: aqui traduz-se - Ferreira Fernandes

Em 2007, a empresa britânica Today Translations, depois de ouvir mil tradutores, fez a lista das dez palavras do mundo mais difíceis de traduzir.
Ontem, Sá Pinto deu uma conferência de Imprensa com a sua versão da cena de murros com Liedson.
Ele disse que foi cordato até o jogador insistir no erro.
Eu recorro à lista da Today Translation para tentar traduzir-vos o que ouvi em directo pelas televisões. Essencialmente, Sá Pinto apresentou-se como um ilunga (da língua tshiluba, do sudoeste da República Democrática do Congo, a 1.ª palavra da tal lista).
Ilunga: pessoa que está disposta a perdoar tudo à primeira vez, tolera o mesmo pela segunda, mas nunca pela terceira. Foi chato que tivesse acontecido com Sá Pinto, já com um historial de murros: em 2.º lugar da lista, vem shlimazl, do ídiche, pessoa cronicamente azarada.
Sá Pinto lamenta muito: lembrei-me da 5.ª palavra, altahmam (árabe), um tipo de tristeza profunda. Isto tudo pode lançar o Sporting por maus caminhos (10.ª, klloshar, do albanês: perdedor).
No fim, Sá Pinto foi-se embora sem responder aos pochemuchkas da sala. Pochemuchka (russo, 9.ª da lista): pessoa que faz perguntas demais.
Por mim fiquei com saudade (português, 7.ª): coisa que me dá daquele tempo em que o futebol era com bola.


Ferreira Fernandes in Diário de Notícias

Tim Burton vai presidir ao júri do Festival de Cannes


O realizador norte-americano Tim Burton. autor da Noiva Cadáver, Eduardo Mãos de Tesoura ou Marte ataca presidirá ao próximo Festival de Cannes, a decorrer de 12 a 23 de Maio, e já se manifestou satisfeito por "viver um sonho transformado em realidade", anunciou hoje a organização do certame.

"Quando se pensa em Cannes, pensa-se em cinema do mundo. E como eu sempre vivi os filmes como sonhos, vou viver um sonho transformado em realidade", afirmou o cineasta, de 51 anos, numa breve declaração citada num comunicado do festival.

"Depois de ter passado a minha juventude a ver sessões triplas e a fazer maratonas de 48 horas de filmes de terror, sinto-me pronto para Cannes", gracejou o autor de inúmeros filmes em que uma poesia 'negra', se esta expressão existe, está sempre presente.

Segundo a agência Lusa

Sinceridade militar


Quino

XV - Passeio pela Marginal



Ainda não se tinha ultrapassado o impasse da tal dúvida lançada pela
Cristina( …mas se ela não sabia quem era a B., então estaria
a falar de quê?) quando , o Zeca Cabeleira, com
o estardalhaço do costume, fez a sua entrada triunfal na ‘Estrela’.

O Zeca é um dos meus amigos mais antigos e, embora muita gente lhe aponte defeitos como machismo primário, marialvismo e um sentido de humor que muitas vezes roça a boçalidade, considero-o como um irmão, um pouco desastrado e pouco polido, mas por quem tenho uma amizade fraterna.
Como seria de esperar, olhou à volta ( viria à procura da Rosinha? ) e quando me viu fez uma expressão de felicidade, que eu sabia ser genuína.
O que não estava à espera era da transformação que ocorreu quando o Zeca se apercebeu da pessoa com quem eu compartilhava a mesa.
A mão que habitualmente, e num tique antigo, utiliza para fazer um constante caracol no cucuruto da cabeça, baixou repentinamente com um estalar de dedos, em que os brasileiros são exímios, mas que eu, apesar das tentativas feitas, nunca consegui repetir.

O Zeca, porém, sempre que quer manifestar admiração ou aplauso perante uma mulher, bonita acrescente-se, faz esse gesto irritante, sublinhado pelo som do silvar dos dedos.

Depois aproximou-se da nossa mesa, inclinou-se para a minha companhia, como se eu não existisse e cumprimentou-a com a voz uma oitava abaixo que ele, e penso que mesmo só ele, considera sedutora e uma das maravilhas do mundo.
“ Permita-me que me apresente. José Cabeleira, Zeca…para as amigas !”
O olhar gélido que Cristina lhe lançou, poderá evitar o aquecimento global, durante as próximas décadas.

Antes mesmo que o meu amigo se sentasse, como fazia tenção
de fazer, ela sugeriu “ Se o Nuno não se importa, vamos dar uma
volta” e olhando à volta, englobando também a D. Rosa e o Telmo
“…este ambiente, hoje, não permite a privacidade
que a nossa conversa exige.”

Quando, depois de atravessar a rua, me tentava encaixar no lugar de pendura do BMW descapotável preto, what else?, da ‘Foxy Lady’, vislumbrei que à porta da ‘Estrela, se perfilava para além da dona do estabelecimento, do tipógrafo e do meu amigo, o sr. Campos agarrado à esfregona e, até, o Professor Meireles que, acabado de chegar, não resistiu também ao insólito da cena.

…Para onde é que aquela gaja vai levar o nosso Nuno?

Era também essa a pergunta que eu fazia a mim próprio mas, confesso, sem a mínima preocupação.
Com a entrada no bólide de linhas baixas a já de si curta saia de cabedal subira a níveis, digamos, explícitos, permitindo que as esguias pernas, subtilmente tapadas ou emolduradas por umas meias pretas com um sóbrio desenho de fantasia, se expusessem em toda a sua beleza.

O próprio blusão, mais aberto, mostrava o recorte de um peito alvo salpicado de sardas breves…
Um silêncio fechado instalou-se entre nós, durante largos minutos.
Cristina entregava-se à condução com a seriedade e empenho que, achava eu, deveria pôr em todas as suas actividades.
Só quando chegámos à Marginal e o trânsito, no sentido em que seguíamos, se tornou fluído, me dirigiu, de novo, a palavra.
“ Vamos até ao Guincho? Ou tem alguma coisa marcada para esta manhã?”

Bastou-me um telefonema para o Gabinete das Traduções a avisar que surgira um imprevisto, o que até era verdade, e que hoje, possivelmente, não poria lá os pés durante todo o dia, para ficar livre de compromissos.
Cristina não escondeu o sorriso, perante as minhas expectativas…

Passávamos pela antiga ‘Pérgola’, utilizada agora como centro de formação da McDonald’s, quando ela recomeçou a falar, como se, até esse momento, tivesse estado a analisar a informação recebida.
“ Essa tal B. deve ser alguma das suas namoradinhas e como deve calcular eu não sou pessoa para perder tempo e energia com problemas de cama” e, sorrindo” …principalmente se são dos outros.”

O sol espelhava-se no mar lá à frente e as curvas sucediam-se numa das vias litorais e urbanas que mais prazer me dá percorrer.
Também eu sentia um calor invadir-me. Seriam os raios matinais do astro rei ou a proximidade perturbadora daquela mulher, com uma sensualidade contida mas evidente?

Para evitar que eu entrasse em fase de ebulição a frase seguinte da Cristina arrefeceu-me repentinamente.
“ O assunto que me fez dirigir-lhe a palavra não tem nada a ver com as sua histórias passadas na horizontal“ e tirando os olhos da estrada sinuosa para me olhar fixamente” …embora o Nuno possa também terminal na horizontal…”

E de forma quase inaudível “…mas morto!”

Tragicómico


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Silent Monks singing Halleluia


Ora vejam AQUI este vídeo que o Zé Viegas Soares enviou...

Learn Something Everyday


O morto do Inverno - Clara Ferreira Alves

Como os pássaros, não fui para sul
e espero a chegada do verão.
Desconfio de gente que gosta do inverno. No meio de Agosto, quando sopra aquele vento da estiagem que cheira a terra seca e pó do deserto, o vento que dá na cara devagar, andam pelos cantos a esgalgar-se contra o verão e a pedir frio. Apontam a brancura esplêndida do ar como quem está no meio do inferno. Eu odeio, detesto, abomino com um sentimento enraizado, o inverno. Quem não gosta do verão está como em frente ao mar e aproveita para apertar os atacadores.

Os animais também não gostam do inverno. Nem os poetas. Basta ler o modo como T.S. Eliot usou, ou plagiou, no poema 'The Journey of the Magi', 'A Jornada dos Magos', a famosa frase "A cold coming we had of it. A cold coming we had of it/Just the worst time of the year/For a journey, and such a long journey/The ways deep and the weather sharp/The very dead of winter".

Este "the very dead of winter", o meio do inverno, o mais morto do inverno, o fundo sem fim do inverno, exprime o sentimento para com a estação. Percebem a ideia. "A cold coming we had of it" podia ser traduzido, liberalmente, democraticamente, um pouco estupidamente, incultamente: apanhámos com um balde de água fria, água gelada. É a minha sensação do inverno, um longo balde de água gelada que impede a viagem (the worst time of the year for a journey) e nos leva a prescindir de Belém e da estrela. No meio do inverno estão duas coisas absolutamente desinteressantes: o natal e a sua cauda de manifestações de cretinismo, incluindo o kitsch natalício e os saldos. Os saldos estão associados ao natal. São o brinde para quem sobrevive. Eliot não previu a jornada do consumidor global. No presépio, teriam que dar brindes; em vez de os Magos empreenderem a jornada da mirra e do incenso (qual a terceira oferenda? Ouro?) o menino punha anúncios e os pais enviavam sms. Em Belém, a 25 de Dezembro, não perca grandioso evento nunca visto, o filho de Deus vai nascer. O telemóvel acaba de tocar com um sinal de mensagem a oferecer descontos e percentagens, reparações mecânicas, faqueiros, malas de senhora. E por aí fora. Janeiro é isto.

Como os pássaros, não fui para sul e espero a chegada do verão. Alguém já reparou que os pássaros, não os grandes pássaros dos grandes poemas e sim os pardais modestos de jardim e quintal, deixaram de ir para sul? Com o calor retardado de outono esqueceram-se de voar e ficaram aqui à cata da minhoca e do lixo dos caixotes. Pardais plásticos urbanos, vítimas das alterações climáticas.

Perdi-me. Ia no inverno. Olho pela janela e chove há dias, chove há semanas. O frio é como uma noite sem luz. Uma floresta dos contos infantis. Faz tanto frio que o sem-abrigo da esquina desistiu de chamar as pessoas pelo nome, encostado às paredes, coçando os dedos avermelhados no casaco coçado. Nem um sem-abrigo aguenta a rua. Como não hão-de velhos morrer de frio? Os velhos são pássaros que deixaram de voar.

Há os que procuram epifanias no frio. Na Lapónia com as renas ou nas montanhas da Escócia com os veados e os lobos talvez houvesse epifania, a versalhada de bilhete-postal sobre o manto frio e branco e os regatos de gelo, as árvores petrificadas de neve e o céu de chumbo a pingar farrapos. E por aí fora. Eu nunca fui à Rússia por causa do inverno, e pressinto que deve ser a única altura do ano sem turistas no saldo do transiberiano.

No verão estive numa aldeia escocesa chamada Braemar. Braemar tem a distinção de ser um dos lugares mais frios no inverno. Vinte negativos. Em Agosto, oito positivos. Ao entardecer, que me colheu numa paragem de autocarro sem abrigo e ao lado de frondoso arvoredo e um regato (não concebo paisagem mais deprimente e prescindo do veado) fazia tanto frio que os nativos estavam enterrados no pub a beber whisky. E não se percebe o inverno escocês sem whisky e o russo sem vodka. Detesto whisky e vodka. Oito graus. E eu a sonhar com o Rio, o Calçadão a faiscar ao sol e as mulatinhas de Copacabana regadas por negros esqueléticos com camisetas que dizem nas costas "Fiscal da Natureza". Aquilo é que é um país. Pois em Braemar, agora, vinte e um abaixo de zero. Dizem que os lobos e os veados descem à aldeia à procura de comida. E caminham juntos pelas ruas.

E se querem saber porque é que o Eliot plagiou foi porque o inventor da frase "a cold coming we had of it", e outras, foi um tal bispo Lancelot Andrews, no dia de natal de 1622, em Whitehall, perante o rei Jaime I. "It was no summer progress. A cold coming we had of it. (...) The ways deep, the weather sharp, the days short, the sun farthest off in the solstitio brumali, the very dead of winter".

O "solstitio brumali" lixou tudo. O Eliot percebeu. É isto um poeta.

Clara Ferreira Alves in Expresso

Desmatamento


O desmatamento, ao abrigo de interesses, muitas vezes, obscuros, mereceu o interesse do Ronaldo, do Da Costa, do Turcios, do Uberti, do Dalcio, do Zlatkovsky, do Jean, do Langer, do Canini, do Biratan, do Juniao e do Santiago.