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Foi visualizando as linhas de força, os pontos de fuga.
Depois tentou passar as ideias para o seu bloco de croquis.
Primeiro a grafite, depois introduziu o colorido a pastel.
Rasgou muitos roughs até chegar a um que lhe agradou.
A seguir foi a definição do suporte.
Optou por uma tela de linho. Quadrada com 1,5m de lado.
Tinha chegado, por fim, a parte mais difícil.
A escolha da modelo.
Falou com outros colegas pintores.
Visitou ateliers e agências de modelos.
Esta era muito gorda, aquela muito magra.
Esta quase anémica, a outra muito escura.
As clavículas saídas, os olhos encovados, o cabelo ruivo,
os seios descaídos, os joelhos ossudos, os pés grandes,
a boca pouco voluptuosa, as ancas largas,
as nádegas descaídas, as órbitas arregaladas.
Tudo era motivo para a recusa.
A testa proeminente, as unhas lascadas,
as axilas peludas, o nariz saliente, o nariz pequeno,
o umbigo insignificante, o queixo muito másculo.
Esteve quase a desistir…
Até que um dia, quando subia a Rua da Atalaia, viu-a.
De altura mediana, esguia mas elegante, rosada,
rosto clássico, olhos castanhos, cabelo ondulado.
Meteu conversa, convidou-a para o trabalho.
Ofereceu-lhe um valor muito superior ao habitual.
Ela já o conhecia dos media.
Aceitou , desde que a mãe a pudesse acompanhar.
Um pouco contrafeito o artista acedeu.
E durante quase três meses, a modelo acompanhada
pelo seu chaperón visitou-lhe o estúdio todos os dias,
posando durante quatro intermináveis horas.
Depois de muitas emendas e correcções,
o pintor deu a sua obra por concluída.
E agora lá está o quadro. Na montra da Galeria.
Um quadrado verde cortado verticalmente por duas riscas.
Uma laranja. Outra amarela.
Ernesto E. Minguêi
Excelente sátira a, alguma, Arte Moderna.
ResponderExcluirMuito bom! Parabéns!
ResponderExcluirA importância de se chamar Ernesto...
Ai Ernesto, cresce água na boca e acabamos com duas linhas ?
ResponderExcluirEu sei que o quadro ficou bom e que até pode vir a ser adquirido pelo Jo Berardo...
Num estilo diferente de Hemingway, este nosso E. Minguêi dá-nos uma boa história sobre o percurso deste quadro: da cabeça do exigente pintor à montra da Galeria...esperando clientes exigentes, ou talvez não...
ResponderExcluirComo Conto com princípio, descrição e final inesperado este é, para mim, um dos melhores até à data. Vamos ver se continuamos a melhorar.
ResponderExcluirTenho que me esforçar mais para a próxima...
Gostei imenso, Ernesto!
ResponderExcluirRitmo em crescendo...sincopado até ao mistério e a nudez da verdade...( para uns, cada um tem a sua, para outros a montanha pariu um rato, para outros, ainda, a verdade está sempre tapada "pelo manto diáfano da fantasia").
Muito bom, MESMO!!!
Sarcasmo, ironia e crítica com grande economia de meios.
ResponderExcluirPode ter Minguado muita coisa, menos talento.
Também gostei bastante. O melhor até à data. Parabéns a todos!
ResponderExcluirUm micro-conto do tamanho da exigência do artista. Boa Ernesto. Parabéns
ResponderExcluirNão tenho qualquer dúvida, o melhor conto que o Galo publicou até à data.
ResponderExcluirA lembrar-me a peça Arte com o António Feio e amigos.