sábado, 21 de março de 2009

A minha prima Vera, saiu-me cá uma safadinha...







Todos os anos, nesta altura , ela bate-me à porta.
Por isso há bocado quando ouvi a campainha,
não tive grandes dúvidas.
Levantei-me ainda estremunhado,
vesti o roupão à pressa, e lá me arrastei até à entrada.
Ao confrontar-me com ela,
abriu-me um sorriso do tamanho do mundo.
Achei-a diferente, menos provinciana,
apesar das rosáceas da cara
e das braçadas de flores, com que sempre me aparece.
O vestido muito colorido encheu o hall,
um pouco escuro, de uma luminosidade meridional.
Deixou cair o chapéu de palha. com uma fita de cetim azul.
Trazia uma cesta com pêssegos, a minha fruta preferida,
morangos pequenos, uvas de tons variados e figos lampos,
numa mistura de cores e aromas, que encheu a minha casa
de perfumes conhecidos, mas que o Inverno
me fizera quase esquecer.
Abraçou-me, com uma ternura repetida
e senti uma temperatura mais tépida e agradável
invadir-me o corpo.
Descalça, percorreu a casa com uma leveza de garça.
As paredes mudaram para tons mais vivos,
os cortinados ganharam ramagens,
nas molduras pássaros começaram a cantar
e cresceram trepadeiras até aos tectos.
Quando cheguei ao quarto, vi que já se despira...
O corpo tinha agora a elasticidade de um felino
e, quando se deitou, pareceu- me ouvir, ao longe,
um som de cascata.
Os lençóis ganharam textura de prado,
papoilas nasceram atrás das almofadas
e, até cogumelos, começaram a crescer
um pouco por toda a parte.
As andorinhas entraram pela janela aberta.
No roupeiro, dois beija flor coreografavam
uma dança de sedução.
A minha prima Vera, esperava-me com um sorriso malicioso.

Já sei que só me vou levantar da cama,
outra vez, lá mais para o Verão...







9 comentários:

  1. Sempre gostei da Primavera.
    Finalmente sei porquê...somos ambas bem safadas.

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  2. E eu que nunca tive uma prima que gostasse tanto de flores !!!!!!

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  3. Não quer trocar? É que tenho um matulão de um Inverno na cama e não há meio de saír...
    Belíssima prosa, a [des]propósito.

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  4. Gostei muito da escrita que me lembrou que, a partir de agora, é tudo paz e amor, mas o comentário da Moira( porque é que ela se mata a trabalhar?) não fica nada a trás.

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  5. Essa pergunta, Pedro, também eu me faço todos os dias!...

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  6. E ainda não é um Microconto...

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  7. Bem observado pela Contessa, podia estar entre os micro contos, com toda a justiça.
    Mas percebo que não queira canalizar toda a prosa para esse sector. Muito bom.

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  8. Margarida Ferreira dos Santos23 de março de 2009 06:54

    Quando chegamos a esta altura, lê-se, ouve-se tanta coisa sobre a estação e mesmo sobre a prima Vera que dificilmente encontramos algo de novo que nos inspire :(
    Felizmente há execpções, e este belíssimo texto, em criatividade e boa escrita, é uma delas!(pena o título,,,, não é da mesmma massa...)

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