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domingo, 16 de maio de 2010

José Régio - Soneto quase inédito

Em memória de Aurélio Cunha Bengala

Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno “sacrifício”
De trinta contos – só! – por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.


JOSÉ RÉGIO

Enviado pela Contessa

domingo, 9 de maio de 2010

Poema da Despedida - Mia Couto

Não saberei nunca
dizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.

Mia Couto

terça-feira, 4 de maio de 2010

Sophia

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Amar - Carlos Drummond de Andrade

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 22 de março de 2010

Acidente cerebral - Tião Martins

na dúvida entre o sinal
aberto ou fechado
meu pobre poema
morreu atropelado

esquecido na pista
nem respira
coitado
se eu soubesse
ah se eu soubesse

nem tinha acordado.

sábado, 20 de março de 2010

Poesia carioca - Cacau Rodrigues


Boa noite, damas e valetes!

Venho aqui me apresentar.

Eu sou a fala fácil, macia, arrastada;

A fala que brinca, "na marra",

Meio deitada...

Eu vivo nas bocas da noite,

No sereno sem capa,

No palavriado dos malandros da Lapa;

Sou a poesia carioca.

Vou de chapéu de palha,

Terno de linho branco...

Levo a vida "na malha",

No fio da navalha...

"Aê, me'rmão!" Vê se não espalha,

Mas eu sou a fina flor do Rio de Janeiro!

Vivo "na moral", mas sem moral,

Que moral demais atrapalha.

"Jogo pesado" na esquina,

Mas falo baixinho no ouvido da mina...

E encanto pra "dedel"!

Mas "desencano" é no motel...

Falo alto, beijo, brigo, brinco, faço um "escacel"!

E me "amarro" numa literatura de "bordel"...

Eu sou a poesia carioca.

Cariocamente livre,

Cariocamente feliz,

Cariocamente linda,

Cariocamente...

Carioca mente?

Mente.

Carioca mente.

Ca-ri-o-ca-men-te...

Mas diz a verdade na lata!

Dá a mão, mas mete a pata!

E faz a festa!

É samba, praia, futebol e cama...

Chama na "xincha" quando ama...

Tira onda na boa,

Tira sarro da 'boa'...

Meta a beca do verão:

Boné, chinelo, camiseta e bermudão...

Carioca faz a própria moda;

Carioca é fffogo!

Mas a maioria é MENGO!

Porque o Flamengo é o carioca,

E o carioca é Flamengo.

Eu rolo na vida desse povo,

Que não tem medo de nada

Porque não adianta;

Que cai, levanta,

E vai pra luta de novo...

Eu saio da mente rica do poeta

E da cabeça cheia do trabalhador...

Não babo em romantismos,

Mas quando quero sei falar de amor.

E dou sempre uma olhadinha

Lá pro Cristo Redentor,

Porque afinal de contas

Eu não sou de aço;

E essa cidade é maravilhosa,

mas é um terror...

Tô na área, nêga!

Se derrubar é pênalti...

E como esse povo é grande batedor,

Não inventa não, que vai ser gol!

Eu sou a poesia carioca.

Você vai me encontrar em cada canto que você passar...

No brilho do sol

Ou na luz do luar...

Todo mundo me conhece;

Um sotaque chiado, malandro, maneiro,

Do gingado brasileiro,

Que à 'garota de Ipanema'

coube imortalizar.

Eu sou "marrenta" mesmo!

Esse é o meu jeito de falar.

E é como eu digo:

Eu sempre venço no final.

Até quando perco, eu venço;

Ninguém derruba o meu astral.

Eu sou mais eu!

Sou a poesia carioca.

Sou uma poeta carioca.

Vai encarar?

Nem tenta, valeu?

Nem tenta.


Cacau Rodrigues

segunda-feira, 1 de março de 2010

Primeiras Flores

— Ah! as primeiras flores, como são perfumadas!
E como em nós ressoa o murmúrio vibrante
Desse primeiro sim dos lábios bem-amados!

Paul Verlaine, in "Melancolia

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

As minhas gavetas

Não tenho por hábito andar a vasculhar nas gavetas do passado.
E, muito menos, arrumá-las.
Com algumas, tenho mesmo o cuidado de nunca as abrir.
As teias de aranha e pó acumulado poder-me-iam provocar alguma alergia, é melhor que se mantenham assim. Fechadas.

Também não tenho curiosidade em ir espreitar as gavetas do futuro.
Não me interessa saber o que vai acontecer amanhã.
O que vou fazer, onde vou estar, e como, daqui a dez anos.

Por isso, mantenho-me nas gavetas do presente.
Com essas tenho uma relação permanente.
Que passa pelo fabrico de novas gavetas quase todos os dias.
Ideias que tenho que guardar.
Projectos em fase de criação, gestação ou realização.
Gavetas com sonhos, que são as mais leves e ficam colocadas na parte de cima da cómoda.
Gavetas com preocupações, mais pesadas, que ficam lá em baixo, quase junto ao chão.
Algumas cheias de cor, luz e gargalhadas.
Outras mais sombrias, escuras e frias.
Gavetas com sentimentos, com afectos, com amor e amizade.
Só de tocar-lhes ficamos com as mãos, e a alma, aquecidas.
Gavetas de gestão corrente. De dias de festa.
Gavetas profissionais, com arquivos de folhas A4.
Muitas com livros, fotos e receitas.
Todas com pedaços de vida.
Da minha Vida, que transborda das gavetas, que escorrega pela madeira da cómoda, que corre em direcção ao rio, ao mar.
Que se evapora para as nuvens, em busca do sol.
Da minha Vida, que nunca consegui prender em gavetas...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O valioso tempo dos Maduros - Mário de Andrade

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver
daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.


Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas.
As primeiras, ele chupou displicente,
mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.


Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.


Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas,
que apesar da idade cronológica, são imaturos.


Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram
pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.


Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...


Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver
ao lado de gente humana, muito humana;
que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos,
não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,


Só há que caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,


O essencial faz a vida valer a pena.


E para mim, basta o essencial!

Mário de Andrade

Enviado por Contessa

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Autobiografia - Rosa Lobato Faria

"...Quando eu era pequena havia um mistério chamado Infância. Nunca tínhamos ouvido falar de coisas aberrantes como educação sexual, política e pedofilia. Vivíamos num mundo mágico de princesas imaginárias, príncipes encantados e animais que falavam. A pior pessoa que conhecíamos era a Bruxa da Branca de Neve. Fazíamos hospitais para as formigas onde as camas eram folhinhas de oliveira e não comíamos à mesa com os adultos. Isto poupava-nos a conversas enfadonhas e incompreensíveis, a milhas do nosso mundo tão outro, e deixava-nos livres para projectos essenciais, como ir ver oscilar os agriões nos regatos e fazer colares e brincos de cerejas. Baptizávamos as árvores, passeávamos de burro, fabricávamos grinaldas de flores do campo. Fazíamos quadras ao desafio, inventávamos palavras e entoávamos melodias nunca aprendidas.

Na Infância as escolas ainda não tinham fechado. Ensinavam-nos coisas inúteis como as regras da sintaxe e da ortografia, coisas traumáticas como sujeitos, predicados e complementos directos, coisas imbecis como verbos e tabuadas. Tinham a infeliz ideia de nos ensinar a pensar e a surpreendente mania de acreditar que isso era bom.

Não batíamos na professora, levávamos-lhe flores.

E depois ainda havia infância para perceber o aroma do suco das maçãs trincadas com dentes novos, um rasto de hortelã nos aventais, a angustia de esperar o nascer do sol sem ter a certeza de que viria (não fosse a ousadia dos pássaros só visíveis na luz indecisa da aurora), a beleza das cantigas límpidas das camponesas, o fulgor das papoilas. E havia a praia, o mar, as bolas de Berlim. (As bolas de Berlim são uma espécie de ex-libris da Infância e nunca mais na vida houve fosse o que fosse que nos soubesse tão bem).

Aos quatro anos aprendi a ler; aos seis fazia versos, aos nove ensinaram-me inglês e pude alargar o âmbito das minhas leituras infantis. Aos treze fui, interna, para o Colégio. Ali havia muitas raparigas que cheiravam a pão, escreviam cartas às escondidas, e sonhavam com os filmes que viam nas férias. Tínhamos a certeza de que o Tyrone Power havia de vir buscar-nos, com os seus olhos morenos, depois de nos ter visto fazer uma entrada espampanante no salão de baile onde o Fred Astaire já nos teria escolhido para seu par ideal.

Chamava-se a isto Adolescência, as formas cresciam-nos como as necessidades do espírito, música, leitura, poesia, para mim sobretudo literatura, história universal, história de arte, descobrimentos e o Camões a contar aquilo tudo, e as professoras a dizerem, aplica-te, menina, que vais ser escritora.

Eram aulas gloriosas, em que a espuma do mar entrava pela janela, a música da poesia medieval ressoava nas paredes cheias de sol, ay eu coitada, como vivo em gran cuidado, e ay flores, se sabedes novas, vai-las lavar alva, e o rio corria entre as carteiras e nele molhávamos os pés e as almas.

Além de tudo isto, que sorte, ainda havia tremas e acentos graves.

Mas também tínhamos a célebre aula de Economia Doméstica de onde saíamos com a sensação de que a mulher era uma merdinha frágil, sem vontade própria, sempre a obedecer ao marido, fraca de espírito que não de corpo, pois, tendo passado o dia inteiro a esfregar o chão com palha de aço, a espalhar cera, a puxar-lhe o lustro, mal ouvia a chave na porta havia de apresentar-se ao macho milagrosamente fresca, vestida de Doris Day, a mesa posta, o jantarinho rescendente, e nem uma unha partida, nem um cabelo desalinhado, lá-lá-lá, chegaste, meu amor, que felicidade! (A professora era uma solteirona, mais sonhadora do que nós, que sabia todas as receitas do mundo para tirar todas as nódoas do mundo e os melhores truques para arear os tachos de cobre que ninguém tinha na vida real).

Mas o que sabíamos nós da vida real? Aos 17 anos entrei para a Faculdade sem fazer a mínima ideia do que isso fosse. Aos 19 casei-me, ainda completamente em branco (e não me refiro só à cor do vestido). Só seis anos, três filhos e centenas de livros mais tarde é que resolvi arrumar os meus valores como quem arruma um guarda-vestidos. Isto não, isto não se usa, isto não gosto, isto sim, isto seguramente, isto talvez. Os preconceitos foram os primeiros a desandar, assim como todos os itens que à pergunta porquê só me tinham respondido porque sim, ou, pior, porque sempre foi assim. E eu, tumba, lixo, se sempre foi assim é altura de deixar de ser e começar a abrir caminho às gerações futuras (ainda não sabia que entre os meus 12 netos se contariam nove mulheres). Ouvi ontem uma jovem a dizer, a revolução que nós fizemos nos últimos anos. Não meu amor: a revolução que NÓS fizemos nos últimos 50 anos. Mas não interessa quem fez o quê. É preciso é que tenha sido feito. E que seja feito. E eu fiz tudo, quando ainda não era suposto. Quando descobri que ser livre era acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais.

Depois foram as circunstâncias da vida. A alegria de mais um filho, erros, acertos, disparates, generosidades, ingenuidades, tudo muito bom para aprender alguma coisa. Tudo muito bom. Aprender é a palavra chave e dou por mal empregue o dia em que não aprendo nada. Ainda espero ter tempo de aprender muita coisa, agora que decidi que a Bíblia é uma metáfora da vida humana e posso glosar essa descoberta até, praticamente, ao infinito.

Pois é. Eu achava, pobre de mim, que era poetisa. Ainda não sabia que estava só a tirar apontamentos para o que havia de fazer mais tarde. A ganhar intimidade, cumplicidade com as palavras. Também escrevia crónicas e contos e recados à mulher-a-dias. E de repente, aos 63 anos, renasci. Cresceu-me uma alma de romancista e vá de escrever dez romances em 12 anos, mais um livro de contos (Os Linhos da Avó) e sete ou oito livros infantis. (Esta não é a minha área, mas não sei porquê, pedem-me livros infantis. Ainda não escrevi nenhum que me procurasse como acontece com os romances para adultos, que vêm de noite ou quando vou no comboio e se me insinuam nos interstícios do cérebro, e me atiram para outra dimensão e me fazem sorrir por dentro o tempo todo e me tornam mais disponível, mais alegre, mais nova).

Isto da idade também tem a sua graça. Por fora, realmente, nota-se muito. Mas eu pouco olho para o espelho e esqueço-me dessa história da imagem. Quando estou em processo criativo sinto-me bonita. É como se tivesse luzinhas na cabeça. Há 45 anos, com aquela soberba muito feminina, costumava dizer que o meu espelho eram os olhos dos homens. Agora são os olhos dos meus leitores, sem distinção de sexo, raça, idade ou religião. É um progresso enorme.

Se isto fosse uma autobiografia teria que dizer que, perto dos 30, comecei a dizer poesia na televisão e pelos 40 e tais pus-me a fazer umas maluqueiras em novelas, séries, etc. Também escrevi algumas destas coisas e daqui senti-me tentada a escrever para o palco, que é uma das coisas mais consoladoras que existem (outra pessoa diria gratificantes, mas eu, não sei porquê, embirro com essa palavra). Não há nada mais bonito do que ver as nossas palavras ganharem vida, e sangue, e alma, pela voz e pelo corpo e pela inteligência dos actores. Adoro actores. Mas não me atrevo a fazer teatro porque não aprendi.

Que mais? Ah, as cantigas. Já escrevi mais de mil e 500 e é uma das coisas mais divertidas que me aconteceu. Ouvir a música e perceber o que é que lá vem escrito, porque a melodia, como o vento, tem uma alma e é preciso descobrir o que ela esconde. Depois é uma lotaria. Ou me cantam maravilhosamente bem ou tristemente mal. Mas há que arriscar e, no fundo, é só uma cantiga. Irrelevante.

Se isto fosse uma autobiografia teria muitas outras coisas para contar. Mas não conto. Primeiro, porque não quero. Segundo, porque só me dão este espaço que, para 75 anos de vida, convenhamos, não é excessivo.

Encontramo-nos no meu próximo romance..."

(esta auto-biografia foi escrita por Rosa Lobato Faria há dois anos e publicada no Jornal de Letras)

Enviada por Miss Sixty

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Augusto Bier - O Humor gaúcho

Augusto Franke Bier, conhecido como Bier é um jornalista e caricaturista brasileiro que vive em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
Trabalhou no jornal O Interior (RS), publicou em O Pasquim (RJ), no Coojornal (RS) e em O Sul (RS).
É, também, autor de dois livros cujo personagem "Blau" é inspirado nos descendentes de imigrantes alemães do interior do Rio Grande do Sul.
Participou de várias coletâneas e exposições no Brasil e exterior.
Foi vencedor do Salão Internacional de Humor de Piracicaba e do Salão de Duisburg, na Alemanha.

E agora vejam a coincidência...no passado Domingo postei, pela primeira vez um cartoon deste autor.
Menos de meia hora depois, a filha, Marjorie Bier, passava casualmente, também pela primeira vez, aqui pelo"Galo" e deixava um amável comentário.

Yo no creo en brujas...pero que las hay, las hay...
























































E terminamos, por hoje, com uma poesia, também ela com aassinatura Bier.

SACRIFÍCIO
Tatuíras abrem alas
Mexilhões ejaculam aguinhas
Na sua passagem

Iemanjá ressentida
Afoga um cirurgião plástico
Só de inveja

Ao sair da água
Siris dependurados nos lacinhos
Tentam abrir seu biquíni

Quando ela se deita na esteira
O velho sol
Esbaforido
Procura o viagra extraviado
No bolsinho das moedas

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A imagem que veio do frio


(...)
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil
Enviado por Pedro Foyos

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Zero à esquerda

nenhuma palavra dá conta
de um sentimento

sinto muito

sem mais
no momento.


Tião Martins

http://tiaomartins.blogspot.com/

domingo, 3 de janeiro de 2010

Soneto da Separação - Vinicius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinícius de Moraes

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Ano Novo - Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris,
ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação
com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo,
que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come,
se passeia, se ama,
se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)
Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Pergunta de Hoje

"Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples
e tão puras como a água bebida na concha das mãos?"

Mário Quintana

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Ó Fernanda Canse-o !

Requerimento a Fernanda Câncio (namorada ou ex do nosso PM!),
por Euleriano Ponati, poeta não titular


Ó Fernanda, dado

que já estou cansado

do ar teatral

a que ele equivale

em todo o horário

de cada canal,

no noticiário,

no telejornal,

ligando-se ao povo,

do qual ele se afasta,

gastando de novo

a fala já gasta

e a pôr agastado

quem muito se agasta

por ser enganado.

Ó Fernanda, dado

que é tempo de basta,

que já estou cansado

do excesso de carga,

do excesso de banda,

da banda que é larga,

da gente que é branda,

da frase que é ópio,

do estilo que é próprio

para a propaganda,

da falta de estudo,

do tudo que é zero,

dos logros a esmo

e do exagero

que o nega a si mesmo,

do acto que é baço,

do sério que é escasso,

mantendo a mentira,

mantendo a vaidade,

negando a verdade,

que sempre enjoou,

nas pedras que atira,

mas sem que refira

o caos que criou.

Ó Fernanda, dado

que já estou cansado,

que falta paciência,

por ter suportado

em exagerado

o que é aparência.

Ó Fernanda, dado

que já estou cansado,

ao fim e ao cabo,

das farsas que ele faz,

a querer que o diabo

me leve o que ele traz,

ele que é um amigo

de Sao Satanás,

entenda o que eu digo:

Eu já estou cansado!

Sem aviso prévio,

ó Fernanda, prive-o

de ser contestado!

Retire-o do Estado!

Torne-o bem privado!

Ó Fernanda, leve-o!

Traga-nos alívio!

Tenha-o só num pátio

para o seu convívio!

Ó Fernanda, trate-o!

Ó Fernanda, amanse-o!

Ó Fernanda, ate-o!

Ó Fernanda, canse-o!


Euleriano Ponati
(poeta não titular)
Enviado pela Contessa

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Mia Couto - Poema da Despedida

Não saberei nunca
dizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.

Mia Couto

sábado, 12 de dezembro de 2009

Poemeu do verdadeiro Ambientalista - Millôr Fernandes

Vejo baleia nadando
Nada demais que navegue
E ela me vendo andando
Acha normal que eu trafegue
Se há poesia em baleia
Não excita minha verve
Não quero preservar ela
Nem que ela me preserve

Millôr Fernandes

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Pelo Sonho é que vamos - Sebastião da Gama

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama