sexta-feira, 17 de abril de 2009

Avant que l'Ombre

Do alto daquele 239º andar, podia ver o topo das nuvens de poluição que envolviam toda a cidade de Lima. Aliás que envolviam, agora, todo o globo. As alterações climáticas faziam-se sentir não no sentido que os cientistas tinham previsto no final do século anterior mas exactamente no inverso e agora todo planeta mergulhava lentamente numa inevitável idade do gelo, uma vez que os raios solares não mais penetravam a atmosfera, fosse qual fosse a latitude.

Ansiava por um proibidíssimo cigarro, ali, naquele quarto de hotel, enquanto aguardava a sua vez de discursar no congresso mundial que decorria quatro pisos acima e que, mais uma vez, pretendia implementar novas e mais eficientes medidas para controlo da poluição da Terra.

Zé Tomás era o único representante da Ibéria desde que esta se tornara uma única nação. Estranha escolha, achava, uma vez que sendo agora o castelhano a língua oficial dos eventos políticos a nível mundial – depois de se ter descoberto que a falta de articulações verbais do Inglês estava a diminuir a capacidade cognitiva dos seus falantes, síndroma à qual se deu o nome de Bushismo – ainda não dominava inteiramente o idioma e poderia dar bronca. De qualquer forma, com o elevado número de oradores, todos os discursos tinham sido previamente distribuídos aos participantes, depois de numerados os parágrafos, e, quando subisse ao palco, apenas teria que proferir, com a eloquência possível, uma sequência de números para lembrar ao público as principais ideias da sua intervenção.

A América do Sul era agora uma espécie de metrópole do mundo, galvanizada pela vingança tardia mas eficaz da conquista de Lisboa por Madrid. De forma absolutamente épica, os Espanhóis montaram os seus belos cavalos de toureio e, ante o espanto e passividade do povo e das forças armadas portuguesas, tomaram de assalto os pontos nevrálgicos da capital e daí passaram a governar uma península inteira e meio continente à distância. Mudaram o nome a algumas avenidas, trocaram o Sebastião José por um Cristóbal Colón, mantiveram o nome do Centro Comercial e tudo passou a ter o prefixo Real: Real Sporting Clube de Portugal, Real Cervejaria Portugália e por aí fora.

Os espanhóis, empolgados pelas facilidades concedidas na capital lusa, ainda tentaram a mesma investida além Pirinéus mas ficaram detidos numa fila de espera encabeçada por milhares de camionistas em greve, uma colossal parada hetero e 50 mil agricultores, de tractor, cujos ruidosos motores puseram em fuga os assustadiços cavalos dos cruzados espanhóis.

Aproximava-se a hora do seu discurso e Zé Tomás sentia-se cada vez mais angustiado. A visão daquela neblina interminável e o saber que era mesmo interminável. Olhava os pés, tão perto da beira da varanda e sentia-se impelido a saltar. Porém, com os suicídios cada vez mais frequentes, sabia que também aquele hotel dispunha do sistema anti-queda de corpos, que accionava pequenas redes na fachada quando células fotoeléctricas detectassem movimento vertical descendente. Desta forma os hotéis já puderam evitar muitas visões desagradáveis de corpos dilacerados no passeio da entrada e todo o impacto negativo que isso provocava na sua imagem.

Arredou-se da janela e foi para a casa de banho. Olhou-se no espelho, apertou o nó da gravata e vestiu o casaco de bombazine sintética verde, com cotoveleiras de napa – uma espécie de ícone dos Kyotistas – grupo remanescente dos ecologistas que décadas antes protagonizaram a pioneira cimeira da cidade japonesa e que viria, mais tarde, a originar uma braço armado bastante violento, cujos principais alvos eram, não as megalómanas empresas poluidoras mas precisamente os animais em vias de extinção, com a desculpa de que abatê-los lhes pouparia o sofrimento da extinção a conta-gotas. E assim, ursos-polares, tigres asiáticos, rinocerontes e pandas eram agora uma memória do passado, sem lugar sequer nos zoo’s pois foi precisamente por aí que os Kyotistas começaram a atacar.

Zé Tomás não era, no entanto, um Kyostista, apesar de simpatizante com os seus ideais mais pacíficos. As suas preocupações ambientalistas eram genuínas e sinceras. Estava no limiar da idade de ainda achar que poderia mudar o mundo. E ao olhar-se pálido ao espelho reviu num relance mental a última vez em que, ainda miúdo, fora à praia; lembrou-se do par de jeans a estrear que vestiu no dia do seu 16º aniversário e o cheiro inconfundível a algodão e anil.

Agora, como pandas, também isso estava extinto; a praia, além de poluída, não tinha sol. As únicas pessoas bronzeadas eram os ricos muito ricos que tinham forma de pagar os preços exorbitantes dos solários que se haviam tornado produtos de luxo. Quanto aos jeans, não mais era possível produzir algodão, pela falta de sol, naturalmente; e desde que a rainha de Inglaterra, neta de Harry, trocara o seu manto de veludo vermelho por um de ganga azul – pelo elitismo e singularidade da peça – era de facto absolutamente proibitiva a aquisição daquele bem.

Zé Tomás optou por deitar-se na cama, vestido, na esperança de se livrar daquela inquietação. Com mais rapidez do que seria de esperar, adormeceu, prostrado.

Acordou não soube bem quanto tempo depois. Ou antes.

O sol ainda se punha, sobre a linha de espuma das ondas. Alguns casais abandonavam a praia, com os seus guarda-sóis já fechados mas sempre coloridos.

Sentou-se na beira do alpendre, com as pernas a baloiçar, deixando os jeans roçarem ao de leve o areal. Saboreou a brisa do anoitecer como quem sorve um desejo.
Sacou um cigarro, acendeu-o numa grande golfada para logo o apagar numa tábua do deck. Ainda havia sol; ainda havia jeans; para quê mais um cigarro?

Dear Prudence

4 comentários:

  1. Gostei muito Dear Prudence.É difícil um conto este tema ser tão atraente. E delirante. Parabéns!

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  2. Dear Prudence a mostrar mais uma vez que está entre os melhores Micro.

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  3. Margarida Ferreira dos Santos17 de abril de 2009 07:29

    Não é exactamente um microconto mas é um excelente pequeno conto!Pelo tema, pela descrição, pelo humor...parabéns Dear Prudence.

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  4. Porque é que não é um micro,Margarida?
    Ah, já percebi, é maior do que o habitual?
    Será isso?De qualquer maneira gostei e a FC está q.b. o que nem sempre acontece.

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