segunda-feira, 13 de abril de 2009

Sem Título

Pede para sentar-se.
O único lugar disponível é à sua frente.
A primeira impressão pode ser a de que é alguém pouco recomendável e que pretende aborrecer.
Rapidamente ela conclui que essa impressão é a de uma portuguesa provinciana.
Afinal o local favorece a partilha de mesas e o “fast food” é isso mesmo: engolir uma “sandwich” no mínimo de tempo possível.
Avalia o homem que tem à sua frente e que chama a atenção pelo ar aparentemente vagabundo, mas ao mesmo tempo divertido, que o chapéu de “jeans” cor-de-rosa lhe dá.
Mas o chapéu é de marca, a camisa de boa qualidade, o relógio é caro e a “parka” tem um ar confortável.
Aliás, todo ele tem um ar confortável.
O olhar dela percorre-lhe as mãos. São calorosas.
Os olhos são azuis, cinzentos, verdes, mas não encontram os seus.
Ela tem a certeza que não lhe deu oportunidade.
E tem a certeza que ele também a avaliou.
Rapidamente passa da desconfiança compulsiva que a caracteriza à descontracção e sabe-lhe bem aquele momento.
Pensa mesmo que ele lhe deve ter encontrado um vago sorriso e a expressão de quem está divertida.
Chegaram a tamborilar os dedos na mesa ao mesmo tempo.
Mas os olhos nunca se encontraram.
Pensou que se alguém os observasse, até poderia pensar que eram um casal.
Há tantos que não se falam…
Mas ali havia alguma tensão.
Se estivessem algures no estrangeiro, teria sido impossível não se terem dito qualquer palavra. Afinal os lugares condicionam-nos, desculpava-se perante si própria.
Ele acabou a “sandwich” antes dela.
Saíram ao mesmo tempo e tomaram direcções opostas. Sentiu imediatamente que lhe faltava a ousadia e a coragem para fazer acontecer as coisas que cheiram a diferente.
Nessa noite sonhou com ele e desejou não voltar a vê-lo.

No dia seguinte partia para Barcelona para um longo fim-de-semana.
Sentada no terraço do hotel, num fim de tarde claro e morno, deliciava-se com um “bellini” quando o viu chegar.
Ocupou a mesa do lado.
Durante três fins de tarde encontraram-se à mesma hora naquele terraço, sozinhos e em mesas diferentes.

Nunca trocaram um olhar ou uma palavra.

Pinta

9 comentários:

  1. Bem giro! Apetecia-me que a história continuasse... Parabéns.

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  2. A MCM queria um Happy End, mas eu também não me importva de ler mais umas páginas em continuação desta história.
    A Pinta está feita uma Senhora Pinta...muito bem !!!

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  3. Excelente, Pinta !
    Um dia algo de parecido, mesmo muito parecido, mas eu acabei por estabelecer uma boa amizade !
    Mas não foi em Portugal, onde estas coisas são muito dificeis !!

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  4. Se calhar era eu Quimera. E agora vou sentir-me infeliz para o resto da vida...

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  5. Se me enganei peço desculpa, mas os temas e maneira de escrever da Pinta só podem ser da Quimera. Estou enganado?

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  6. A mim não me parece que seja a mesma pessoa.
    Dos textos da Pinta, embora muito citadinos, até gosto.

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  7. Pinta e as suas paqueras. Danada da mulher está querendo entrar no meu pedaço...
    Escreve melhor que eu , quanto ao resto, não sei não.

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  8. Moira de Trabalho13 de abril de 2009 17:04

    O Adriano deu uma ideia sui generis, Galo:
    E se se organizasse um concurso de apostas a ver quem adivinha a identidade dos heterónimos?
    Dava luta, não acha?

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  9. Acho uma óptima ideia. Talvez no fim do "concurso".

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