
foi o primeiro homem
a chegar ao ano 2010.
Mas não havia necessidade.
O que tem de ser tem muita força e Arthur C. Clarke escreveu um livro que comprova o singelo aforismo. Quem viu ou leu 2001 – Odisseia no Espaço (o filme de Stanley Kubrick e respectiva novelização de Clarke) sabe bem que poucas obras de ficção tornariam tão excrescente, como esta, um projecto de sequência. O filme possui um não-fim sublime. Qualquer palavra a mais resultaria supérfula, quebraria a voluptuosidade dos grandes enigmas que desejamos indefiníveis, opacos, insondáveis como sonhos secretos. Todavia, Clarke publicou anos depois 2010 – Segunda Odisseia.

O que se passou na realidade é que o escritor jamais conseguiu sobrelevar airosamente o antigo contencioso com Kubrick. A colaboração entre ambos durante os quatro laboriosos anos que demorou a rodagem de 2001 foi muito fecunda mas culminou numa quase ruptura afectuosa. Desde então, sempre que se referia ao cineasta, Clarke dissimulava mal as velhas mágoas. Para ele, a história atingiria o seu zénite normal mediante a comunicação explícita com inteligências extraterrestres. Kubrick, menos tecnológico, menos explificativo, menos racionalista, rejeitou esse e outros cenários descritos pelo escritor na órbita próxima da sua novela The Sentinel, na qual se inspirou a obra cinematográfica.

Clarke, homem de ciência, histórico inventor do satélite de comunicações, avesso a todo o género de ambiguidades, zeloso cumpridor das normas didácticas vernianas, não poderia aceitar de bom grado as abstracções estelares de um Kubrick ilógico e inconcludente.
Mais tarde, 2010 tornar-se-ia O Ano do Contacto, título adoptado para o filme de Peter Hyams (1984). O ano do finca-pé de Clarke: a odisseia consuma-se enfim na ambicionada comunicação com uma inteligência superior, universal. Um epílogo, portanto, do tema e da trama de 2001, passado pelo crivo virtuoso da normalidade. Como prescreve a cartilha.
Pedro Foyos
Jornalista
Nenhum comentário:
Postar um comentário