quinta-feira, 16 de abril de 2009

Back to the Future

Dedicara toda a sua vida àquele projecto
Ainda jovem cientista, quando descobrira
um velho manuscrito de Da Vinci.
Tinha-lhe vindo daí a ideia.
Construir uma máquina de viajar no tempo.
Percorrer o espaço temporal nas duas direcções.
Ir ao Futuro buscar a cura para o cancro, para a sida.
Recuar ao Passado e ver, in loco, os torneios medievais,
as espécies há muito desaparecidas.

Não aproveitara a juventude. Nada de festas ou namoradas.
As horas passadas no laboratório
ou embrenhado em livros velhos, na biblioteca.
Cálculos. Ensaios. Protótipos.
Fórmulas e desenhos. Teorias e modelos à escala.

Mas agora aproximava-se do fim.
O que procurara durante quatro décadas estava,
finalmente, aos seu alcance.
As experiências com pequenas cobaias tinham resultado bem.
Era chegada a altura de fazer a primeira viagem no tempo
com um ser humano. Ele próprio.
Ia entrar na História da Humanidade pela porta grande.
E, em simultâneo, recuperar todos os anos perdidos.

Iria ser rico, famoso e ter, de novo, 30 anos.
Só que, desta vez, rodeado de mulheres, de luxo,
Sem pensar mais em pesquisas.
Esta sua contribuição já era mais do que suficiente.
A vida, como era conhecida até hoje, iria mudar, radicalmente.

O aparelho era de uma, aparente, grande simplicidade.
Uma esfera translúcida. Um lugar no interior.
E depois toda uma panóplia de instrumentos que só ele entendia.

Sentou-se, ajustou bem o capacete superior,
apertou os cintos de segurança.
Viu que se esquecera dos óculos, mas quem precisaria
de tal coisa no auge de toda a pujança física e juventude?
Acertou o manómetro da duração da viagem – 33 Anos.
A subtrair aos seus, envelhecidos e gastos, sessenta e três anos
iria dar os tais 30 anos míticos.
Carregou no botão vermelho.
Sentiu um zumbido e desmaiou, envolto numa luz azulada.

Pareceu-lhe que a viagem durara décimos de segundo.
Saiu do aparelho, trôpego e vacilante. Pudera…
No brilho da esfera viu a sua imagem reflectida.
Um velho e alquebrado ancião de 96 anos.
Enganara-se no sentido da viagem. Estava no Futuro.
A síncope não lhe deu tempo para mais.

5 comentários:

  1. Nada como deixar o tempo fazer o seu trabalho e não lutar contra ele. Como diz a Yourcenar, "O tempo, esse grande escultor".

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  2. Moira de Trabalho16 de abril de 2009 09:23

    Ó seu grande malandro!...
    Os melhores contos estão a ficar na gaveta errada!
    Qual "short stories", qual carapuça!!

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  3. Posso fazer uma pergunta? a sua cabeça não para? e onde vai buscar imaginação para tanta variedade de assuntos e acções? Eu aplaudo de pé!!!

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  4. Ficção Ciêntifica não é o meu estilo mas é uma ideia engraçada.

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  5. A Imaginação ao Poder

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