sábado, 16 de maio de 2009

Marialva

Nascido remediado nos primórdios do século XX, longe da Capital, foi lutando a duras penas que conseguiu vencer e subir na vida atingindo a maioridade no meio da frequência de um curso médio que o iria preparar para um qualquer lugar de escriturário ou no Estado ou numa pequena empresa.

Teve sorte. Foi trabalhar para os serviços alfandegários, num belo e antigo edifício junto a Santa Apolónia e não longe da Estação de comboios.
No entretanto foi conhecendo a boémia de Lisboa muito centrada no Bairro Alto , na Mouraria e também em Alfama, bairro que o encantava e onde se perdia pelas suas ruelas não raramente vendo o nascer do Sol junto a Santa Luzia.
Por ali escutava o fado e até se encantou com a voz inconfundível de Alfredo Marceneiro, nascido em Fevereiro de 1891 e ainda no inicio da sua carreira.

A pouco e pouco e com o passar dos anos naturalmente conheceu em encontros nocturnos gentes de todas as classes sociais, desde estivadores, passando pela pequena burguesia até um ou outro fidalgo amante das aventuras e das arruaças que não raro aconteciam com o final na base de um chanfalho aplicado a preceito nas costas dos mais aguerridos e renitentes em acalmar.
Aos fins de semana quando começava a Primavera, era certo e sabido que com alguns daqueles já quase amigos, alugavam duas ou três caleches de quatro rodas e alegremente, roda acima roda abaixo lá iam para fora de portas, no caso as Portas de Benfica, rumo às hortas e a boas almoçaradas bem regadas com frescos vinhos e muita cantoria à mistura.
Depois começava a época das touradas e das inevitáveis esperas, terrenos propícios para os mais arrojados e valentões se exibirem perante damas da alta sociedade e costureirinhas desejosas de encontrar noivo que as guindasse para vidas melhores.

Tempos ligeiros e de poucas preocupações para o nosso personagem.
Com o pouco dinheiro que mensal e pontualmente recebia do patrão Estado e que ele zelosamente geria, dormia em quarto alugado, comia barato em pequenas tascas que então semeavam o Bairro Alto e até comprara chapéu e um fato escuro que quinzenalmente levava a uma lavandaria, a única, situada junto à Estação do Rossio, saindo de lá impecável e bem engomado.

Uma bela noite e com um pouco do seu pé de meia foi até um cabaré existente no Palácio Foz, pensando em se divertir com alguma das espanholas que por ali aligeiravam a bolsa dos mais abonados que não era o seu caso.
Sentado à mesa em alegre cavaqueira com conhecidos de pouco tempo, um deles em tom de brincadeira referiu que partiria no dia seguinte para Madrid e perguntou-lhe se desejava que lhe trouxesse um recuerdo ao que ele retorquiu, rindo, que lhe calhava a preceito uma bela espanhola. Risota geral.

Poucos dias passados recebeu um bilhete em casa.
Ali estava dito que tinha tal qual pedira, uma espanhola instalada no Hotel Borges e já por sua conta toda a despesa e muito mais.
Nesse mesmo dia junto ao Cais Sodré foi encontrado a boiar e sem vida o seu corpo, vestido com o fato preto que tanto prezara.


Carapau de Corrida

4 comentários:

  1. Ora aqui está um conto com um final feliz.

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  2. Carapau de Corida17 de maio de 2009 08:53

    Estou de acordo com MTH e arrependido por ter afogado o cavalheiro e por isso prometo,à fé de quem sou que me esforçarei por tornar a "contar" em busca do final feliz igual ou semelhante aos que ocorrem em alguns ou por vezes em quase todos os episódios das nossas vidas.Antes mesmo de irmos a caminho da eternidade.Para lá disso, declaro alto e bom som que embora não pareça sou tido como um sujeito alegre e bem disposto. Confessei !

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  3. Com aspecto de ser uma história verdadeira ou com poucos "retoques"...

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  4. Ambiente queiroziano. Gostei.

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