domingo, 25 de abril de 2010

Mais um texto sobre o 25 de Abril

Para muitos, o 25 de Abril, de 1974, foi a abertura de janelas para o mundo.
O fim do 'orgulhosament sós', a entrada de Portugal, de direito, no clube dos países democráticos.
Para muitos outros, o 25 de Abril foi o fim de direitos que julgavam hereditários, o acabar de uma determinada sociedade com extractos bem definidos, um salto para o escuro, sem rede e sem garantias.

Para muitos, o 25 de Abril foi uma época em que tudo era permitido, a liberdade e a esperança surgiram da utopia, a propriedade privada deixou de o ser e adivinhava-se um futuro cheio de amanhãs que cantam.
Para muitos outros o 25 de Abril foi a perda do respeito pelo vizinho, pelas ideias e opções diferentes das nossas, e a entrada na indisciplina, na badernice, com o princípio de um clima de insegurança que tenderia a tornar-se cada vez mais intenso.

Cometeram-se excessos, prisões injustas, saneamentos invejosos, nacionalizações inadequadas, independências apressadas, com consequências amargas e profundas para muitos milhares de pessoas.
Em simultâneo, corrigiram-se desajustes de décadas, injectou-se esperança e orgulho num país provinciano e cinzento, acabou-se com o sorvedouro de vidas que era a guerra no ultramar.

O país modernizou-se, com o que isso tem de positivo e negativo.
As condições gerais de vida da maioria dos portugueses melhoraram imenso para, uns anos depois, estarem a recuar, outra vez, drasticamente.
O acesso às universidades democratizou-se, mas a qualidade do ensino diminuiu.
Passámos a ser procurados por imigrantes vindos de fora, contrariando o êxodo que durante muito tempo ocorrera para fora daqui.
Os bens materiais como casa própria, carro, férias no estrangeiro, subiram em flecha, paralelamente com um endividamento exacerbado.
Passou premiar-se o laxismo, a incompetência, a criar condições para os que nada querem fazer e ao mesmo tempo o desemprego atingiu níveis nunca antes alcançados, sem solução à vista.
O enriquecimento súbito e inexplicável passou a ser corrente, o nivelamento intelectual, social e profissional passou a fazer-se por baixo, a demagogia e a corrupção, independente da cor política de quem nos chefia, entrou definitivamente no nosso vocabulário.

Do país do Fado, Futebol e Fátima passámos a ser a terra do Futebol, Fraudes e Falências.
Com ainda mais ênfase no Futebol, a continuarmos com muito Fado e alguma Fátima ( veja-se o exemplo do Papa) e as Fraudes e Falências a darem um toque de modernidade...

Para muitos, o 25 de Abril é o culpado da situação (má) em que nos encontramos...
Foi uma oportunidade perdida que não soubemos aproveitar.
Para muitos outros, se não tivesse sido o 25 de Abril estaríamos ainda bem pior...
E, certamente, mais infelizes.

Para mim, o 25 de Abril é uma soma de aspecto positivos e negativos.
Excessos, injustiças, esperanças, paixões e ódios.
Oportunidades, espertices, mediocridade e toques de génio.
Amores e traições. Prazer e dor...
Tal e qual como a Vida.

3 comentários:

  1. Há uma coisa que não se pode negar, nós éramos um reles paízinho a preto-e-branco e de repente (não mais que de repente !) ficámos a côres.
    Et ça c'est bien.

    Tudo o resto aceito discutir...

    :-)

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  2. Parabéns ao autor!
    A análise ponderada em curto texto, é algo que tem sido raridade no Portugal de agora.
    Nem tudo era bom antes, nem tudo é bom depois da data.
    Uma coisa eu reconheço, a liberdade de expressão terá sido para mim a grande conquista mas não desisto de criticar muito do que por aí anda.

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  3. Aí a seguir a minha homenagem a pessoas vulgares que arriscam 'um pouco mais' que a própria garganta, combinados com uma canção que por sinal também tem uma relação com a data de 25 de Abril...

    ;-)

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