quarta-feira, 15 de abril de 2009

Stawberry Fields Forever

O título de uma das canções mais emblemáticas dos Beatles, inspirado na antiga escola de John Lennon, a encabeçar um excelente texto de Clara Ferreira Alves acerca da Europa que, com indiferença, vamos deixando construir.
Obrigado ao Alv ega que nos enviou esta peça.
Percam 3 minutos na sua leitura e pensem, outros tantos,
sobre o assunto

Strawberry fields forever

"...Os homens europeus descem sobre Marrocos com a missão de recrutar mulheres.
Nas cidades, vilas e aldeias é afixado o convite e as mulheres
apresentam-se no local da selecção. Inscrevem-se, são chamadas
e inspeccionadas como cavalos ou gado nas feiras. Peso, altura,
medidas, dentes e cabelo, e qualidades genéricas como força,
balanço, resistência. São escolhidas a dedo, porque são muitas
concorrentes para poucas vagas. Mais ou menos cinco mil são
apuradas em vinte e cinco mil. A selecção é impiedosa e enquanto as
escolhidas respiram de alívio, as recusadas choram e arrepelam-se e
queixam-se da vida.
Uma foi recusada porque era muito alta e muito larga.

São todas jovens, com menos de 40 anos e com filhos pequenos.
Se tiverem mais de 50 anos são demasiado velhas e se não
tiverem filhos são demasiado perigosas. As mulheres escolhidas
são embarcadas e descem por sua vez sobre o Sul de Espanha,
para a apanha de morangos. É uma actividade pesada, muitas
horas de labuta para um salário diário de 35 euros.
As mulheres têm casa e comida, e trabalham de sol a sol.

É assim durante meses, seis meses máximo, ao abrigo do que
a Europa farta e saciada que vimos reunida em Lisboa chama
Programa de Trabalhadores Convidados. São convidadas apenas
as mulheres novas com filhos pequenos, porque essas,
por causa dos filhos, não fugirão nem tentarão ficar na Europa.
As estufas de morangos de Huelva e Almería, em Espanha,
escolheram-nas porque elas são prisioneiras e reféns da família
que deixaram para trás. Na Espanha socialista, este programa
de recrutamento tão imaginativo, que faz lembrar as pesagens
e apreciações a olho dos atributos físicos dos escravos africanos
no tempo da escravatura, olhos, cabelos, dentes, unhas,
toca a trabalhar, quem dá mais, é considerado pioneiro e
chamam-lhe programa de 'emigração ética'.
Os nomes que os europeus arranjam para as suas patifarias e para
sossegar as consciências são um modelo.
Emigração ética, dizem eles.

Os homens são os empregadores. Dantes, os homens eram
contratados para este trabalho. Eram tão poucos os que regressavam
a África e tantos os que ficavam sem papéis na Europa que alguém
se lembrou deste truque de recrutar mulheres para a apanha
do morango. Com menos de 40 anos e filhos pequenos.
As que partem ficam tristes de deixar o marido e os filhos,
as que ficam tristes ficam por terem sido recusadas.
A culpa de não poderem ganhar o sustento pesa-lhes sobre a cabeça.
Nas famílias alargadas dos marroquinos, a sogra e a mãe
e as irmãs substituem a mãe mas, para os filhos, a separação
constitui uma crueldade. E para as mães também.
O recrutamento fez deslizar a responsabilidade de ganhar a vida
e o pão dos ombros dos homens, desempregados perenes, para os
das mulheres, impondo-lhes uma humilhação e uma privação.

Para os marroquinos, árabes ou berberes, a selecção e a separação
são ofensivas, e engolem a raiva em silêncio.
Da Europa, e de Espanha, nem bom vento nem bom casamento.
A separação faz com que muitas mulheres encontrem no regresso
uma rival nos amores do marido.

Que esta história se passe no século XXI e que achemos
isto normal, nós europeus, é que parece pouco saudável.
A Europa, ou os burocratas europeus que vimos nos Jerónimos
tratados como animais de luxo, com os seus carrões de vidros
fumados, os seus motoristas, as suas secretárias, os seus
conselheiros e assessores, as suas legiões de servos,
mais os banquetes e concertos, interlúdios e viagens, cartões
de crédito e milhas de passageiros frequentes, perdeu,
perderam, a vergonha e a ética.
Quem trata assim as mulheres dos outros
jamais trataria assim as suas.

Os construtores da Europa, com as canetas de prata
que assinam tratados e declarações em cenários de ouro,
com a prosápia de vencedores, chamam à nova escravatura
das mulheres do Magreb 'emigração ética'.
Damos às mulheres 'uma oportunidade', dizem eles.
E quem se preocupa com os filhos?
Gostariam os europeus de separar os filhos deles das mães
durante seis meses? Recrutariam os europeus
mães dinamarquesas ou suecas, alemãs ou inglesas,
portuguesas ou espanholas, para irem durante seis meses
apanhar morango? Não. O método de recrutamento seria
considerado vil, uma infâmia social. Psicólogos e institutos,
organizações e ministérios levantar-se-iam contra a prática
desumana e vozes e comunicados levantariam a questão
da separação das mães dos filhos numa fase crucial da infância.
Blá, blá, blá. O processo de selecção seria considerado indigno
de uma democracia ocidental. O pior é que as democracias
ocidentais tratam muito bem de si mesmas e muito mal dos outros,
apesar de querem exportar o modelo e estarem muito preocupadas
com os direitos humanos.
Como é possível fazermos isto às mulheres?
Como é possível instituir uma separação entre trabalhadoras válidas,
olhos, dentes, unhas, cabelo, e inválidas?

Alguns dos filhos destas mulheres lembrar-se-ão.
Alguns dos filhos destas mulheres serão recrutados pelo Islão.

Esta Europa que presume de humana e humanista com o sr. Barroso
à frente, às vezes mete nojo..."

Clara Ferreira Alves

7 comentários:

  1. Moira de Trabalho15 de abril de 2009 06:15

    ...vou digerir este amargo de boca e volto mais tarde. Agora, ainda não consigo...

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  2. A ser verdade, isto é revoltante.Tenho de ler com mais atenção.

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  3. É verdade, é...mas aos nossos governos "socialistas"( e europeus no seu geral)não interessa que se divulguem muito este tipo de notícias. O que interessa são os tratados, os tratantes e os sorrisos.

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  4. Eu é que sou agradecido à tia Teresa de Luzinde por me ter enviado o texto, e evidentemente à Clara F.A. por não se ter deixado ficar calada.

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  5. Eu, pelo meu lado, já vou reenviar este post
    ( utilizando o envelope junto ao comentário)
    para diversos amigos meus. E era o que todos deveriam fazer.

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  6. Uma das formas de aferir o grau de civilização de um país, é observar a maneira como as mulheres são tratadas.

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  7. Uma verdadeira vergonha

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