quarta-feira, 6 de maio de 2009

O Caçador

Estava-se em plena época da caça.
Adorava a adrenalina de caminhar, durante horas,
por entre a vegetação cerrada,
tentando fazer o menor ruído possível.
Olhar por cima dos arbustos, auscultar o movimento
dos pássaros, aspirar os aromas da madressilva
e dos grandes eucaliptos que, um pouco por todo o lado,
pareciam sentinelas sem expressão.
Os músculos tensos, preparados para agir
ao primeiro movimento suspeito.
O bater do coração, ritmado, sereno.
O pisar de leve, a caruma e as folhas secas.
Na véspera caçara três perdizes e uma lebre.
Nada mau, pensando, principalmente,
nas dezenas de outros caçadores que calcorreavam a zona,
com armas sofisticadas, de canos sobrepostos
e miras telescópicas.
Aproximou-se, lentamente, do lago onde os patos bravos
costumavam vir beber.
O ano passado dera cabo de mais de uma dúzia,
naquele mesmo local.
Recordou a primeira vez que caçara por aqueles lados.
Com o pai. Grande caçador, o pai.
Com mais paciência que ele próprio,
e uma técnica difícil de transmitir.
Mesmo assim, fora ele que lhe ensinara tudo o que, agora, sabia.
Ao longe, não tão longe assim, ouviu um tiro de caçadeira.
Um bando de gansos voou de uma colina, a montante.
Ouviu ruídos alegres de festejos.
“Nabos” pensou” só estão a afastar os animais
e a dizer-lhes onde estão”.
Recordou, de novo, o seu pai a chegar a casa
com o resultado da caçada.
O brilho nos olhos bonitos da Mãe, ao contar as rolas, os coelhos…
E os irmãozitos mais pequenos ao saltos de alegria.
Sentiu a falta do pai, durante breves segundos.
O percorrer a coutada, sozinho, com agora fazia,
não era o mesmo que a cumplicidade partilhada,
os sinais codificados, o riso predador no momento certo.
Mas não se podia distrair, apurou os ouvidos.
Um leve restolhar, pareceu-lhe vir da sua direita.
Seria um coelho?
Avançou a terreno descoberto, por breves segundos…

O tiro prostrou-o, de imediato,
Deixando-o, caído, sem vida.

“Um raposo, por aqui?”pensou o homem, descendo da árvore
“ por esta é que eu não estava à espera !!!”

Ernesto E. Minguêi

13 comentários:

  1. Moira de Trabalho6 de maio de 2009 06:30

    Tive que reler por duas vezes [o que na prática já significa 3 leituras!] as últimas linhas para "apanhar" a coisa...

    Fui mesmo vencida pela surpresa. É assim que gosto. Raposo em discurso directo... o inesperado da situação.

    Também percebi a importância de se chamar Ernesto... é ter escrita honesta. Muito bom.

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  2. Terreno descoberto e depois descendo da árvore?
    Falha minha ou do autor ?

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  3. Moira de Trabalho6 de maio de 2009 06:39

    Uma ou outra árvore isolada não tiram o "descoberto" do terreno, penso eu de que...

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  4. Este Ernesto tem umas belas short stories.

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  5. Quando se sente necessidade de ter que explicar é porque algo falhou na escrita.
    Mea culpa, mea culpa, mas ZM quem desce da árvore, que limita o terreno descoberto, e quem entra em terreno descoberto são dois seres distintos - um o Caçador e outro o Raposo, que é também o narrador.
    Mas , mais uma vez, a falha é minha...

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  6. Depois de ler a explicação, parece que ainda tornei tudo mais confuso...
    Resumindo, o Caçador que dá o título ao Conto e que narra toda a história é o Raposo.
    O "outro" caçador que desce da árvore é um dos vários mencionados no decorrer do texto.Uf...

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  7. Margarida Ferreira dos Santos6 de maio de 2009 07:08

    Pois E. Minguêi, o homem estava lá e o raposo facilitou, talvez...
    Certo, certo é que gostei!

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  8. Margarifda Ferreira dos Santos6 de maio de 2009 07:16

    Ernesto, embora a intenção seja boa, a explicação fica aquém do texto que a origina e torna-se desnecessária!
    Além disso uns gostam, outros não, cada um interpreta à sua maneira...qualquer dia teríamos contos com desenhos explicativos :-)

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  9. Ernesto, eu gostei, percebi logo à primeira, e nem sequer gosto de caçar....Uff! :-P
    Parabéns. :-)

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  10. Uma caçada vista do ãngulo da vítima.
    No mínimo, original.

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  11. Olhar do Planalto6 de maio de 2009 10:09

    Foi buscar lã e ficou "tosquiado"...

    Bom conto.

    Parabéns & Obrigado!

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  12. Uma caçada fora do comum, vista "do outro lado"!
    E quem não quer ser Raposo...

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  13. O melhor final até à data.
    Como a Moira também reli duas vezes. Boa!!!

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