sábado, 2 de maio de 2009

O Oleiro

Já o seu pai, e o pai e o avô dele tinham sido oleiros.
Ele desde miúdo que corria por entre os potes
que se amontoavam nos corredores apertados,
em cima de traves de madeira,
atravessadas em equilíbrios instáveis,
cobertos de pó e de teias de aranha.
As sua brincadeiras tinham todas a ver com o barro.
O preparar da massa, humedecer a mistura.
Moldar com as mãos, fazer girar a roda.

Por isso quando o pai desapareceu,
à mãe não a chegara a conhecer,
foi com naturalidade que ele tomou conta do negócio.
A trabalhar de manhã à noite para responder às encomendas.
Grandes talhas para guardar o azeite.
Outras mais pequenas, furadas, para as azeitonas.
Alguidares, tachos e panelas.
Vasos para as flores, com os pratos respectivos.
Tudo para as pessoas da vizinhança.
Homens e mulheres como ele, com as mãos calosas,
Vestidos com roupas grosseiras, de poucas palavras.
Que levavam as compras feitas às costas
ou nos alforges dum burro.

Mas naquele dia foi diferente. O carro parou mesmo à sua porta.
Já conhecia o condutor doutras vezes.
Uma figura importante, que por vezes o visitava
para encomendar potes de jardim.
Arrogante, de poucas palavras, a tentar sempre pagar menos.
Com uma mulher ,da mesma idade, que nem saía do carro.
“Tem alergia ao pó…”, disse o homem, num dia de melhor disposição.
E riu-se.

Mas hoje, a companhia era outra. Mais nova. Muito mais.
De longas pernas, que o oleiro contemplou ao saírem do carro.
Com um riso aberto, ao entrar na penumbra da olaria.
De ombros à mostra e seios saltitantes.
O oleiro forçou-se a fechar a boca.
Quando ela, olhando-o certeira no olhos, lhe fez perguntas sobre a sua arte
ele respondeu-lhe com monossílabos.
Ela roçou-o, ao de leve, e ele sentiu uma descarga eléctrica.
Nesse dia nem discutiu os preços que o homem lhe oferecia.
Muito tempo depois deles terem partido,
o perfume da mulher perdurava no velho e poeirento galpão.
Naquela tarde não conseguiu trabalhar mais nada.
Deitou-se cedo, mas não encontrou posição na cama, suada.

A meio da noite levantou-se, como em transe.
Escolheu o barro mais fino, aproximou-se da roda.
E começou a modelar.
Fechava os olhos para recordar os ombros lisos, os seio túrgidos,
as pernas esguias, as ancas torneadas, as nádegas firmes.
O sol já aparecia, quando terminou.
Olhou embevecido, o resultado. Perfeito.
Colocou a peça no forno.
Depois esperou impaciente, dando voltas pelos corredores escuros.
Levou-a, ainda quente, para a cama.
E pôde cair, finalmente, num sono profundo.

No outro dia, quando acordou, viu-a nua e morena
a preparar um café forte e bem cheiroso.
Quando, entre risos, ela voltou a tapar-se com o lençóis
ele soube o seu nome: “Eva”.

Vivem felizes, até hoje.

5 comentários:

  1. E o oleiro era quem ? Deus?

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  2. Moira de Trabalho2 de maio de 2009 18:34

    Não! O Sarkozy!!

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  3. Ombros roliços ? Seios palpitantes ?? Monossílabos soprados ???

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  4. Tens razão Alv ega, eram lugares comuns a mais.
    Merci, pelo reparo.

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  5. Moira de Trabalho3 de maio de 2009 14:22

    Faltou a boca de "biquinho".
    Aí seria, sem sombra de dúvida, a Bruni.

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