terça-feira, 5 de maio de 2009

Uma Vida, com muita...Animação

"...Morreu um personagem da minha infância.
No meu imaginário infantil, o Vasco Granja animava-se
lado a lado com os bonecos de plasticina, que não precisavam
de falar para os entendermos, corria à frente do Bip-Bip,
a preparar emboscadas ao Vil Coyote, gritava
"Anda-le, anda-le, arriba, arriba!!!" e saía em disparada
de chapéu mexicano na cabeça...
Como é sabido, os desenhos animados não morrem
e quando o fazem, esmagados debaixo de uma pedra
ou chamuscados com barras de dinamite,
ressuscitam no segundo a seguir,
prontos para caírem em mais uma armadilha.
E por ser personagem entranhado das minhas memórias infantis,
me é difícil imaginar a sua partida. Fazia-o Imortal.
E continuo sentada no sofá da sala, a ouvi-lo dizer palavras difíceis
que vinham do Leste, a explicar-nos como recortes de papel
subitamente se transformavam em histórias mágicas,
a guerrear com o meu irmão pelo desenho mais bonito
que havíamos de enviar pelo Correio...
E se existe aquilo que se chama Serviço Público na televisão,
este Senhor prestava-o.
E se não o fez durante mais tempo, foi porque não o permitiram.
A sucumbirmos à mediocridade.
A anestesiarmos as nossas crianças com Nobitas d
e olhos achinesados que gritam em castelhano impropérios
em lutas de recreio.
A injectarmos modelos femininos de pequenas bruxas mágicas,
de pernas altas e longos cabelos,
que suspiram quando os pequenos príncipes assistem
às suas demonstrações de cheer leaders.
Um Olé com Duende ao Vasco Granja!
Arza! Koniec!! "
La Payita

9 comentários:

  1. confesso que esperava uma referência á sua partida... até a pantera côr-de-rosa deve estar sentida, eu estou! gostei muito do texto.
    Obrigada La Payita, obrigada Galo e,
    OBRIGADA Vasco Granja pelos momentos que passei em frente ao televisor!

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  2. Olhar do Planalto5 de maio de 2009 08:21

    Pois é!

    Ouvi ontem a notícia e um excerto de um programa.

    O ritmo e a forma de comunicação não seriam compatíveis com a TV de hoje mas a doçura, a amabilidade e a afabilidade também não o seriam... e a perda é nossa.

    Até sempre, num you tube perto de si...

    http://www.youtube.com/view_play_list?p=F13597F5BE7EDA73&search_query=roadrunner

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  3. Os programas eram muitissimo bons. :-)

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  4. Desaparece alguém por quem e com quem muitos de nós, os mais "antigos",entraram um pouco no mundo do chamado cinema de animação.
    Voz inconfundivel,pedagogia actuante e permanente, sensibilidade quase palpável saindo do pequeno écran.
    Insubstituível.

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  5. E de modo paralelo com essa actividade didáctica, um militante interessado, coerente e que nunca entrou no mundo dos compradios, o que o afastou de modo prematuro, do mundo da televisão.

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  6. Um verdadeiro personagem. Que chegou a passar lá por casa.

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  7. La Payita...
    Um depoimento à flôr da pele.
    Como é seu costume!

    Saudades do Vasco Granja.

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  8. Moira de Trabalho5 de maio de 2009 17:46

    Discordo de quase tudo...
    Foi o que achei quando comecei a ler o maravilhoso texto da La Payita; só me ocorria: Quem? Aquele chato que insistia nuns intermináveis prólogos antes das entediantes animações checas com latas de conserva e pedaços de jornal? E, para prolongar a agonia, a Pantera Cor de Rosa ou os Looney Tunes apareciam em último? Nem pensar!
    Depois, à medida que fui lendo, estabeleci o paralelo que nos é proposto, com a realidade da animação de Hoje.
    O confronto diz tudo.
    Só me resta, por fim, agradecer ao Vasco Granja, por quem sempre nutri simpatia - apesar dos achaques em criança - por me ter tocado indelevelmente para o mundo da Animação e, consequentemente, do Desenho (BD, Cartoonismo,...).
    E sobretudo, agradecer à La Payita por ter reposto a verdade dentro de mim! Um obrigada com duende - se é que posso dizê-lo!

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  9. Um outro testemunho/elegia:


    That's konec, amiguinhos!Quando a televisão e a banda desenhada eram os pratos principais da dieta cultural das crianças, na segunda
    metade do século XX, havia muitos adultos que lamentavam o facto e choravam pelo fim da "cultura escrita". Mas havia também quem defendesse que a "cultura visual" tinha os seus méritos, a sua história, a sua forma de nos introduzir à riqueza do mundo. Essa foi a missão de Vasco Granja.Quando a televisão e a banda desenhada eram os pratos principais da dieta cultural das crianças, na segunda
    metade do século XX, havia muitos adultos que lamentavam o facto e choravam pelo fim da "cultura escrita". Mas havia também quem defendesse que a "cultura visual" tinha os seus méritos, a sua história, a sua forma de nos introduzir à riqueza do mundo. Essa foi a missão de Vasco Granja.
    A tarefa era dificultada por estarmos a falar de "artes menores" - se se tratasse de quadros em museus toda a gente entenderia melhor o argumento. Mas Vasco Granja fez a revolução que tinha a fazer com humildade e bonomia. De tal forma que há gente que ainda não entende o alcance dela.
    O papel de Vasco Granja não foi trazer-nos o cinema de animação experimental ou o cinema de animação comercial. Foi trazer-nos todo o cinema de animação que ele achava inventivo, original, estimulante. Ele falava com o mesmo empenho e encanto de Tex Avery como do mais recôndito realizador checo, da Pantera Cor-de-rosa como dos filmes do canadiano National Film Board. Porque, para ele, todos mereciam o seu empenho e encanto.

    Sim, muitos miúdos desesperavam por ver chegar a palavra "konec", que assinalava o fim das animações nas línguas eslavas, e entristeciam-se quando aparecia o "that's all folks!" com que terminavam as animações da Looney Tunes. Mas a ideia era mesmo essa: dar variedade, amplitude e pluralismo. Juntar a arte de vanguarda com a arte de massas, como talvez pensasse Vasco Granja, ou a alta e a baixa cultura, ou o divertimento fácil e o pensamento difícil, até ao ponto em que se tornasse claro que as fronteiras entre ambos são – sempre foram – incertas.
    Vasco Granja já tinha feito isso com a banda desenhada, como vim a saber depois. Foi depois de ter já visto centenas de vezes os desenhos das revistas Tintin dos meus irmãos, quando me resignei finalmente a ler as páginas que pareciam enfadonhas, porque eram a preto e branco e "só letras". Foi então que descobri, entre o espanto e a admiração, que elas eram escritas pelo mesmo Vasco Granja, e que ele ali me explicava tanta coisa sobre os mesmos Hergé, Edgar-Pierre Jacobs e Goscinny que tinham feito as histórias com que eu me deleitava, e que ele ali entrevistava, biografava e analisava. Aquelas imagens eram o meu mundo, e afinal podia escrever-se sobre ele.

    Talvez outros miúdos também tenham descoberto aí que é possível escrever sobre imagens. Que a cultura visual e a cultura escrita não estão em oposição. Que ambas, como a cultura musical, teatral, e outras, são assim como um comentário à abundância, ironia e diversidade da vida. E sim, que Vasco Granja tinha razão: pode ser-se culto visualmente. Uma cultura visual rica pode conduzir a um gosto pelas coisas bem feitas e bem desenhadas, imaginativas e belas. Uma cultura visual rica pode dar-nos um mundo melhor, e isso pode começar a um sábado de manhã, com uma selecção de obras de arte muito diferentes umas das outras. Algumas que nos fazem sorrir imediatamente. Outras que ainda não esquecemos anos depois.
    Na caixa de comentários do PÚBLICO que deu a notícia do falecimento de Granja, um leitor escreveu "konec". Um pouco mais abaixo, outro já tinha escrito "that's all folks!". Para várias gerações de portugueses, essas palavras só querem dizer uma coisa: obrigado, Vasco.


    Historiador
    (ruitavares.net)

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