quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Carmen de Bizet

O "Galo" começa hoje o seu ABC da Ópera, como mencionado mais atrás. Pedimos desde já aos melómanos de serviço, e são muitos, a sua compreensão pelos eventuais, e quase certos, erros de informação ou deficiências várias.
Agradecemos também que, através dos vossos comentários, transcrição de textos, envio de imagens ou de links, ajudem a enriquecer esta iniciativa. E aí vamos nós...
Filho de um Professor de Canto e de uma exímia Pianista, Alexandre César Leopold Bizet, que se viria a consagrar como Georges Bizet, foi uma criança prodígio que, mesmo antes de ter completado
os 10 anos, já tinha sido admitido no Conservatório de Paris.

Tendo como professores Zimmermann e Gounod, cedo Bizet mostrou o seu fulgurante talento ao ganhar vários Prémios entre os quais se destaca o de Roma, em 1857,
com apenas 19 anos, ao musicar a cantata Clovis e Clotilde.
Porém as grandes expectativas geradas à sua volta não foram concretizadas e durante a sua curta vida,
viria a morrer com apenas 36 anos,
Bizet conheceu apenas um êxito discreto.
Carmen, estreada a 3 de Março de 1875, na Ópera Cómica de Paris, recebeu críticas impiedosas e o público parisiense escandalizou-se com a sensualidade amoral da protagonista - a cigana Carmen. Também alguns elementos do Coro, obrigados a fumar em palco, manifestaram o seu desagrado.
Nesse mesmo ano, no dia da 23ª representação da Ópera, Bizet viria a falecer com um ataque cardíaco.
A Imortalidade só chegaria alguns anos mais tarde...
Carmen é uma das Óperas mais famosas do mundo e, sem dúvida,
a obra-prima de Georges Bizet.
A história que relata os amores entre um ingénuo militar e uma temperamental cigana e tem feito vibrar plateias internacionais, inspirou-se numa novela de Marimée, embora o libreto de Meilhac e Halévy tivesse sofrido alterações profundas.
Na novela Don José é um homem rude, com antecedentes criminais enquanto na Ópera é um militar disciplinado, mas por pouco tempo, tendo como único rival o toureiro Escamillo. Já na novela tem que discutir o amor de Carmen com o marido desta, Garcia"El Tuerto", e com o picador Lucas.






















Ópera taurina e cigana, por excelência, com forte sabor espanhol, Carmen fugiu aos desejos do seu autor que se recusou a visitar Espanha pela vontade que tinha de criar uma Ópera francesa sobre um tema universal e sem raízes folclóricas.
Porém a influência hispânica começa logo na "Habanera", adaptação da canção
"El Arreglito",
do espanhol Sebastián Iradier, amigo de Bizet.
As habaneras têm a sua origem musical em Cuba,
mais concretamente na cidade de Havana.
A obra divide-se em quatro actos
e narra a degradação moral e física
a que a paixão e o ciúme desenfreado
levam Don José, primeiro jovem oficial,
depois desertor e por fim assassino.

No I Acto, conhecemos os dois protagonistas que saiem respectivamente do Quartel dos Dragões de Alcalá e da Fábrica de Tabacos de Sevilha, onde Carmen trabalha.
Dá-se então o coup de foudre, que culmina com a flor que a cigana atira ao garboso oficial e que o faz dizer, prevendo já o futuro negro que se avizinha:
"Cette Fleur ça m'a fait l'effet
d'une balle qui m'arrivait...
Certainement s'il y a des sorcières,
cette fille-lá en est une..."

Seguem-se várias peripécias, no decorrer das quais Don José
é preso.












O II Acto começa com a tentativa de sedução de Carmen,
por parte do toureiro Escamillo e a recusa desta, que espera
Don José.
Quando este chega e após com ele dançar, Carmen convence-o a desertar para a seguir para as montanhas com um grupo de contrabandistas. Após muitas dúvidas, será isso mesmo
que o infeliz enamorado fará.















As desilusões amorosas irão ganhar peso no III Acto, com Carmen, cada vez mais interessada no matador, a aproveitar o facto da mãe de Don José estar agonizante,
para o mandar embora
das montanhas.



































O IV Acto inicia-se no exterior da Praça de Touros de Sevilha onde uma multidão entusiasmada aclama o toureiro Escamillo que chega com Carmen, a sua nova amante.
Pouco depois começa a faena do matador e enquanto isso Don José apunhala Carmen, depois de se ver rejeitado
pela última vez.




O público parisiense habituado a histórias moralistas e com final feliz, ficou chocado com a crueza do argumento de Carmen e manifestou a sua indignação.
Também os críticos foram impiedosos com esta obra que viria depois a atrair multidões em todos os locais onde veio
a ser encenada.





























A essência de todo o espectáculo pode afinal resumir-se
nas duas primeiras linhas do libreto:
"L'amour est un oiseau rebelle
que nul ne peut apprivoiser..."































Carmen está presente no reportório de quase todos os grandes nomes da história da Ópera como Maria Callas, Enrico Caruso, Corelli, Jose Carreras, Placido Domingo, Teresa Berganza, Ileana Cotrubas, Wojciech Drabowwicz, Rinat McCauley, Fernando de la Mora, Regina Berner, Kiri Te Kanawa ou Elena Obraztsova, entre muitos outros.
































Mais ou menos famosas são também as adaptações ao Cinema que muitos fizeram, como é o caso da Carmen de Carlos Saura, da película de Francesco Rosi, da Carmen Jones, onde uma Carmen negra contracena com Harry Belafonte, do intelectual Prénom:Carmen de Godard, de U-Carmen Ekhayelitsha
ou do mais erotizado
Carmen de Vicente Aranda.
Também Charles Chaplin se viu atraido pelo tema e realizou Burlesque on Carmen,
acentuando o lado mais cómico da trama.



















Sevilha, a bela cidade espanhola onde se desenrola grande parte da acção, foi inspiradora de outras Óperas como Fidelio de Beethoven, A Força do Destino de Verdi, As Bodas de Fígaro e Don Juan de Mozart e o Barbeiro de Sevilha de Rossini.

Terminamos com palavras de Carmen, mais uma vez:
"L'amour est enfant de Bohéme
il n'a jamais, jamais connu de loi,
si tu ne m'aimes pas, je t'aime
si je t'aime, prends garde à toi!..."
Corre o pano...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

My Roomate Guanta






Eu quando me falam de Solidariedade
sinto, de imediato, delíquios de ternura.
Quando me enviam abaixo-assinados,
faço logo uma assinatura elaborada abaixo,
acima e, muitas vezes, ao lado.
Quando recebo SMS's a marcar manifestações,
calço as minhas botas Hush Puppies,
encho o cantil do Coronel Tapioca,
enfio uns Mars no polar Paul&Shark
e lá vou eu a assobiar a Marselhesa.
Sou um Homem de Causas.
Tem é uma coisa. Têm que ser causas exóticas.
Para manifestações de Professores
ou contra os despedimentos
da Corticeira Amorim, não contem comigo.
Agora se se tratar da defesa dos direitos
dos trabalhadores chineses de Guangzhou, lá estarei...
Se fôr para adoptar uma criancinha ranhosa
de Aguiar da Beira, não estou interessado.
Porém se o objectivo fôr dar o nome a um jovem do Turquemenistão
de olhinhos repuxados
ou a uma pequenita da Gâmbia, de pele lisa e brilhante,
preencho logo as fichas de inscrição, numa corrida.
( Já repararam como a Angelina Jolie ou a Madonna
ficam tão bem nas fotos com essas autênticas esculturas vivas?) .
Por isso, quando ouvi o pedido
de integração dos presos de Guantánamo,
não hesitei e telefonei, logo de seguida.
Como moro numa duas assoalhadas com kitchinette,
pedi que me arranjassem um jeitosinho. Depois fiquei à espera.
Há dois dias fui aos Correios levantar o caixote.
Gostei do tamanho da embalagem.
O pior foi que quando abri a caixa saiu-me
lá de dentro um Guantánamo todo dobrado,
com mais de dois metros de altura.
Fiz um vistão ao chegar ao prédio onde vivo, na Brandoa,
com aquele calmeirão de turbante e barba façanhuda.
A primeira exigência que me fez
foi a compra de um tapete para poder rezar, voltado para Meca.
Como o sr.Santana da "Colchas&Atoalhados Fada do Lar"
estava em Saldos, comprei um tapete tipo Arraiolos,
com uma pequena mancha de gordura num dos cantos.
O Guantas, como eu lhe chamo, fez um escarcéu...
que queria um Persa,
que assim não tinha ambiente, e por aí fora.
A seguir foi ao frigorífico, deitou-me fora as costeletas de porco
e despejou uma grade de cervejas pela pia abaixo.
Mas o pior é que agora quer mandar vir
as quatro mulheres que deixou no Quirguistão.
Sou um Homem de Causas, mas já estou a pensar
em mudar de causa...
Perdão, de casa.

O Quadro mais Famoso do Mundo

Um pequeno óleo, com 77 por 53cm, pintado sobre madeira, da autoria de Leonardo da Vinci, é certamente a obra plástica mais conhecida em todo o Mundo.
Trabalho elogiado, controverso, valioso e reproduzido ad nausea, com centenas de pastiches, interpretações humorísticas, colagens, eu sei lá...

Pintado na primeira década do sec.XVI, o quadro foi trazido de Itália pelo seu autor, e vendido a Francisco I de França, que a passou a ter em exposição em Fontainebleau e, mais tarde, no Palácio de Versalhes.
Após a Revolução Francesa a Mona Lisa, ou Gioconda como também é conhecida, passou a estar exposta no Museu do Louvre, onde está até hoje.
Em 1911, o seu roubo ocasionou a prisão do poeta Guillaume Apollinaire e de Picasso, suspeitos da execução do mesmo. Mais tarde, seria descoberto o verdadeiro ladrão, em Itália, antigo empregado do museu, e o quadro recuperado.
Um dos mistérios que rodearam esta pintura, era a identidade da modelo, mas, nos nossos dias, a hipótese mais consistente é a de que se tratava de Mona Lisa, mulher do cavaleiro florentino Francesco del Giocondoque.
Outros, porém, afirmam tratar-se de um auto retrato de Leonardo, travestido de mulher, enquanto terceiros dizem ser uma senhora da família dos Medici.





































A técnica utilizada é o sfumato, e o facto da modelo aparecer apenas acima do busto, determinou um padrão para muitos dos retratos futuros.
O sorriso é outro elemento perturbador que tem feito correr litros de tinta e originado as mais insólitas teorias.
Durante as restaurações, que a obra já sofreu, foi observado através do raio X que existem três versões escondidas pelo original, como era uso à época.













Marchel Duchamp, do movimento dadaísta, pintou, em 1919, um bigode e uma pera sobre uma reprodução deste quadro com a legenda LHOOQ, Elle a Chaud au Cul.
Nat King Cole gravou, em 1950, uma música com o nome Mona Lisa ( ouvir mais abaixo) que em 8 semanas vendeu mais de 3 milhões de exemplares e recebeu o Óscar para a Melhor Canção.
Também Willie Nelson e Elton John criaram as suas próprias canções inspiradas na Gioconda.
Salvador Dali pintou igualmente um Auto-Retrato como Mona Lisa.













Rossellini realizou o filme La Gioconda, em 1953, enquanto O Sorriso de Mona Lisa, de 2003, com Júlia Roberts, defende os ideais feministas.
Andy Warhol criou uma série se serigrafias inspiradas na Dama do Sorriso.
No best seller O Código da Vinci a pintura exerce um papel muito importante.




Quanto a mim, é uma obra que não me faz vibrar.
As primeiras vezes que a vi, ainda sem estar protegida pelo vidro actual e sem as dezenas de japoneses dos nossos dias, já não me surpreendeu, mas este ano quando levei os meus filhos ao Louvre, pela primeira vez, ainda acentuei mais esse meu desinteresse.
Por isso talvez este tratamento gráfico do post, jocoso e bem humorado.
A provar que até os próprios ícones não estão livres do sarcasmo do "Galo".

Frase do Dia

"Se eu soubesse que um dia a América seria governada
por um de nós, jamais teria mudado de cor."

Michael Jackson


Enviado por Maria Moura

(Sobre)Viver

A Vida é curta. Demasiado curta.
Quando nos apercebemos da razão
de andarmos por cá.
Já estamos no final da mesma.

Serão mais felizes as pessoas sem projectos.
Que se deixam envolver
pela neblina rotineira do quotidiano
pelo ronronar satisfeito
da missão cumprida (comprida?).
Pelas casas, carros, netos, filhos
contas bancárias, diplomas
e honras várias.
Pelos charutos e whiskyes velhos.
Pelas peles e pelas pérolas.
Pelos livros encadernados na estante.
Pelos quadros pendurados na parede.

Eu quero fazer tudo.
Tenho ainda tudo para (por) fazer.
Olho para trás, num relance,
e vejo que pouco andei até aqui.
Quero erguer-me, ganhar asas e voar.
Sobrevoar os Andes, planar na Amazónia,
refrescar-me no Nilo,
picar em flecha os arrozais de Chiang Mai,
descansar num embondeiro moçambicano.

Ainda tenho que ler milhares de livros,
ver milhares de filmes,
ouvir milhares de músicas,
percorrer milhares de estradas.

Sinto agora a puberdade, borbulhento,
contestatário, irreverente.
Quero experimentar o sofrimento,
sofrer e experimentar de novo.
Quero sonhar sonhos impossíveis
e torná-los possíveis...
Quero viver cem vidas diferentes,
ser homem, mulher, gato, cão
e onda do mar.
Quero mergulhar nos abismos,
subir os picos de neve,
entrar em vulcões extintos
e tornar a lava, fumegante outra vez.
Quero jogar com as palavras e as cores,
os aromas, os sabores.
fazer da noite, dia, das manhãs um pôr-do-sol
e da lua, madrugada.

Quero ter tempo para mudar o mundo
criar outro sistema solar,
atravessar o universo, ver o cosmos do avesso.
Trocar Deus pelo Diabo, rodar o Norte para o Sul
Juntar o Amor com o Ódio, unir a Dor ao Prazer.
Quero sentir tudo e tudo poder escolher.
Quero escolher viver.
Outra e outra vez.
Nascer e renascer.
Ter tempo.
E quando por fim saciado
tiver concluído todos os desejos
sonhos e delírios.

Começar tudo, outra vez.