quarta-feira, 4 de novembro de 2009

História alternativa : A reabilitação de Judas ( se Deus quiser)

Citação:
«Nos últimos dias do mundo
os homens serão traidores»
Apóstolo Paulo

Encorajado pelo bom acolhimento dispensado à minha "tese" sobre o "caso Saramago", ouso saltar do Antigo Testamento para o Novo. O primeiro está pejado de traições. São às dezenas. O segundo tem como traidor primordial um homem cujo nome se engendrou em substantivo maldito: Judas. Lembro-me de ver, na minha infância, um boneco (o "estafermo") que moldava o traidor e era queimado nas fogueiras do Sábado de Aleluia.
Recupero o tema com o presságio do reincidente que toma consciência de que lhe estará cada vez mais longínqua a possibilidade de ganhar um lugar no céu.
Seja o que Deus quiser.

Deixemos, então, o traidor Caim em seu eterno desassossego e chamemos à crónica esse "estafermo" que desgraçou o seu Mestre e se desgraçou a ele próprio pela reles "contrapartida em numerário" (como se dirá vinte séculos depois) de trinta moedas.
Indispensável que nos concentremos na Grande História. Comecemos por um facto incontroverso: a emergência do cristianismo decorre essencialmente da existência de quatro figuras:
a) Jesus Cristo, naturalmente.
b) Judas Iscariotes, apóstolo instável.
c) Poncio Pilatos, procurador romano na Judeia, ainda mais instável.
d) S. Paulo, apóstolo e mártir, pregador eloquente, profundo psicólogo, fundou as primeiras igrejas e implantou a fé cristã nos centros populosos da bacia do Mediterrâneo, do Oriente à Península Hispânica.

Historicamente, S. Paulo não existiria se Pilatos tivesse renunciado à superstição de lavar as mãos diante do povo, julgando desse modo purificar-se da decisão de entregar Cristo aos seus inimigos, para que o crucificassem.
Também Pilatos não existiria sem um Judas traidor. Obteria, quando muito, duas linhas nas melhores enciclopédias (quem conhece os nomes dos restantes procuradores que antes e depois de Pilatos administraram a Judeia?).
Judas existe porque traiu e, em resultado da denúncia, Cristo viria a morrer, desfecho que pareceria inevitável. Quando se afirma que "Judas vendeu Cristo por trinta dinheiros", em rigor é dito: "vendeu a vida de Cristo".

O passo seguinte será concluir que uma religião de milhões, com dois milénios, se implantou em consequência de um repulsivo acto perpetrado por um vil traidor.
É nesta encruzilhada que nos assaltam os desvairados especialistas da história alternativa consubstanciada no insidioso "e se?..."
Havemos de convir que a história alternativa por eles proposta se reveste de uma lógica desarmante. Ei-la, em síntese: Judas foi um genial estratega que nesta peça desempenhou o hediondo papel de traidor. Ele saberia que a nova religião iria impor-se inexoravelmente com a morte pública de Jesus Cristo, reforçada, porventura, com o suicídio do traidor. Evocam-se as palavras do apóstolo Paulo, no Novo Testamento, ao proclamar um quase desejo de morrer por Cristo (ou pela fé cristã, dado Cristo já não estar vivo) e, na realidade, isso viria a acontecer em circunstâncias não menos atrozes que a crucificação.
Aceitando-se a tese, persiste a dúvida sobre se Judas teria agido sozinho ou se cumpriria ordens de acordo com um plano prévio, colectivo, secreto.
De qualquer dos modos, afigura-se constatável que sem um "Judas" não se teria estabelecido o cristianismo. Decerto outra teologia emergiria com idêntico padrão de fé, satisfazendo a necessidade do espírito humano em reconhecer a sua dependência em relação a um ente supremo, transcendente, sobrenatural. Seria também uma religião de salvação, com igual importância e difusão universal, mas, obviamente, teria outro nome – o nome do novo hipotético "Enviado".

Agora que a vizinhança do Inverno sopra os primeiros frios e o "caso Saramago" engelha a olhos vistos, temos aqui um promissor húmus para nova e encalorada Cruzada.
Contra ou a favor de Judas, será o que Deus quiser.







Pedros Foyos
Jornalista
O Autor agradece ao jornalista luso-brasileiro José Alberto Braga
a oferta da composição gráfica inédita
que integra a frase de Millôr Fernandes.
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5 comentários:

  1. Excelente descrição de uma perspectiva.
    Estamos a assistir a um "remake" do Antigo e do Novo Testamento aqui, neste soalheiro rectângulo e em todos os cantos do Mundo!
    Muitas vezes lavamos as mãos, como Pilatos, porque dá trabalho provocar um apocalipse...

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  2. Apesar do meu desinteresse, e em muitos casos aversão até, pelos temas religiosos, esse é o assunto que mais tenho apreciado nos escritos do Pedro Foyos, pela maneira sempre inteligente e invulgar como os aborda, mas essa Teoria da Conspiração em relação a Judas, lembra-me o assassinato do Kennedy...

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  3. A inteligência do meu homónimo, deve ser do nome!faz com todos os seus textos sejam sempre abordagens diferentes de temas mesmo que vulgares, na maior parte das vezes.
    E no caso dos assuntos religiosos , essa originalidade é ainda mais evidente.
    Parabéns !

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  4. Com mais ideias do que o próprio Saramago!

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  5. Sem o Mal o que seria o Bem?

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