quinta-feira, 16 de julho de 2009

Rocinha

A vida na Rocinha estava para lá do suportável.
Até então toda a gente sabia, conhecia e assistia ao trafico diário de droga mas as lutas entre facções pelo domínio de áreas residenciais com melhor posicionamento passou a ser uma constante, imperando a força das armas cada vez de maior calibre e sofisticação.
O tempo da simples pistola de 7 mm ou caçadeira de canos serrados, calibre 12, já fazia parte do passado próximo, agora a M16, a conhecida Kalashnikov, Uzis e outras mais, passando por granadas ofensivas e também as de efeito moral, eram usadas a torto e a direito, tornando quase impossível a entrada da policia civil ou mesmo do BOPE, nas ruelas estreitas e muito inclinadas. Ali o “caveirão” também não chegava.
E a certa altura, também os moradores começaram a ser vitimas inocentes.
Ela não aguentava mais. Apesar de um emprego certo na Rua do Ouvidor, bem no centro do Rio de Janeiro, resolveu partir, deixar a Rocinha, deixar o Brasil.
As lágrimas das despedidas foram muitas mas a decisão estava interiorizada e firme.
Ivonete chegou a Lisboa com uma pequena mala e um sujo papel onde anotara os números de telefones de quem partira antes dela.
A entrada na Europa não foi fácil, a antipatia em relação aos que chegavam ao Aeroporto de Lisboa vindos do Brasil, foi patente.
Mas a sua graciosa figura, o sorriso bonito e simpático bem como o relato que fez dos amigos que a esperavam, tudo isso ajudou a vencer aquela desagradável barreira.
No Bairro onde vivia o casal que a recebeu de braços abertos e com alegria incontida, a sua primeira noite foi de muita tristeza, a saudade era muita e quase não dormiu.
No dia seguinte foi conhecer um pouco da cidade, bem diferente do que imaginara.
Apreciou a cor predominante, o rosa dos telhados antigos e passeou pelo Parque das Nações sempre acompanhada pela gaúcha amiga que lhe dera guarida.
Depressa lhe encontraram um emprego, fruto dos contactos que conseguiu aproximando-se de outros brasileiros, visitas da casa sobretudo aos fins de semana, tempo de cachaças importadas do Brasil e de feijoada bem à moda carioca.
Não era uma vida fácil ,mesmo nada fácil.
Levantava-se cedo e deitava-se tarde, às vezes já para lá das duas da madrugada.
O cansaço de muitas horas em pé labutando na cozinha do restaurante era vencido pela vontade de vencer um desafio que desenhara ainda no Brasil em busca de um futuro sonhado em torno de uma família e de guris, sim, mais de um talvez e de preferência um casalinho.
Sentada no decrépito autocarro que todos os dias a levava a casa, o ultimo da carreira que terminava em Loures, não raro adormecia logo nos primeiros minutos para só acordar quando sentia o motor desligado.
Num dia que jamais esqueceu, adormeceu e nem sentiu que a cabeça tombava sobre o passageiro vizinho.
Este, quase educada e gentilmente, não se mexeu até Ivonete acordar no final da viagem.
Envergonhada, pediu desculpa.
Ponto de partida para um namoro intensamente vivido e que acabou naturalmente, num convite para ir viver com Jónatas.
Pegou nos seus parcos haveres e com ele seguiu num final de dia, para um bairro que desconhecia mas que não ficava muito afastado daquele onde vivera desde a sua chegada a Portugal.
Quando entrou no minúsculo apartamento logo reparou num belo papagaio morto, junto á janela.
Era o Serafim.
Mal teve tempo de largar a pequena mala e logo Jónatas lhe disse que no dia seguinte, partiriam para outro qualquer bairro.
Queria viver este grande amor em segurança. Ali era impossível.
Partiram na manhã seguinte. Era sábado.

Carapau de Corrida

3 comentários:

  1. O Carapau seguiu uma sugestão e dá-nos a continuação do incidente com o Serafim, palarador excessivo, morto a tiro.
    Será que caminhamos para uma trilogia?
    Aguardemos.

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  2. Carapau...
    Antes das férias do Galo, diga-nos, por favor, o que é que aconteceu no domingo...

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  3. Carapau de Corrida17 de julho de 2009 05:05

    Curiosa Contessa, domingo foi passado na descoberta dos prazeres da vida em comum, na troca de carinhos carnais e por aí fora.
    O cuidado do contista e o respeito para com os participantes no Galo, impediu o Carapau de se referir a estes pormaiores.
    Está satisfeita?

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